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Ator com blackface em cartaz de peça sobre Madame Satã é acusado de racismo

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O ator Leandro Melo no cartaz de divulgação da peça "Satã - Um Show para Madame" Imagem: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/10/2015 14h07Atualizada em 22/10/2015 13h26

A peça "Satã - Um Show para Madame" nem estreou e já está causando polêmicas. Representantes da comunidade negra acusam de racista a montagem do monólogo musical no Rio, protagonizado por Leandro Melo, ator que trabalhou nos espetáculos "Elis - A Musical" e "Dzi Croquettes". O espetáculo, idealizado e co-produzido por Melo, tem previsão de estreia para 6 de novembro, no Sesc Tijuca. 

Nos cartazes de divulgação, o ator, de pele clara, aparece com metade do rosto pintada de preto e a outra de vermelho. A pintura é para dar vida ao lendário boêmio carioca João Francisco dos Santos, o Madame Satã (1900-1976), que no cinema foi representado por Lázaro Ramos no filme homônimo dirigido em 2002 por Karin Aïnouz. Madame Satã também ganhou vida recentemente nos palcos de São Paulo, na peça "Cartas à Madame Satã - Ou me Desespero sem Notícias Suas", montagem do grupo Os Crespos, com Sidney Santiago, um ator negro, no papel título.

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O ator, cantor e bailarino Leandro Melo Imagem: Divulgação

Leandro Melo nega que vá ser utilizada na peça a técnica do blackface (maquiagem teatral usada por atores brancos, que pintam o rosto de preto para interpretar um negro de forma caricata, considerada racista). Procurado pela reportagem, o ator preferiu não falar, mas, em texto publicado na internet, ele diz que não se considera branco, que também é vítima de preconceito por ser miscigenado e afirma: "Não sou racista!".

Cultura do embranquecimento

A página do movimento Negro É, que faz militância em defesa do negro e contra o racismo, acusa a peça "Satã - Um Show para Madame" de promover a "cultura do embranquecimento" ao colocar um ator de pele clara no papel de Madame Satã. "Não está fácil, se apropriam da história de um homem negro, usam blackface e querem nos ensinar sobre racismo", acusou o movimento, que lembrou que o negro Tim Maia foi interpretado por um ator branco no teatro, Tiago Abravanel.

O movimento Negro É afirma que ações desse tipo "querem tirar o protagonismo de atores negros, muitos que não têm acesso ao mercado de trabalho por causa do racismo". E ainda lembra o episódio com o grupo Os Fofos Encenam, que apresentaria "A Mulher do Trem" no Itaú Cultural em maio deste ano, em São Paulo, utilizando blackface --nas fotos de divulgação, um ator branco surgia com rosto pintado de preto no papel de uma empregada doméstica. Após repercussão negativa, o grupo Os Fofos Encenam e o Itaú Cultural cancelaram a apresentação e promoveram um debate sobre racismo. Na época, o diretor da trupe, Fernando Neves, chorou e pediu desculpas à população negra.

Em resposta à publicação do Negro É, Leandro Melo, em seu pronunciamento na própria página do movimento, afirmou: "Fui acusado de racismo, e não sou racista", dizendo que procuraria a Delegacia de Igualdade Racial para se informar sobre o que poderia fazer. O ator reforça que, apesar do cartaz, não usará a técnica do blackface na peça e que dará vida não só a Madame Satã, como também a outros personagens. "Decidi fazer este espetáculo justamente por estar procurando saber o que sou e a que raça pertenço, pois eu sou descendente de negros, índios e brancos".

Segundo Melo, ele já foi vítima de discriminação. "Já fui discriminado, pois minha pele era muito morena para determinados papéis e clara demais para outros. Recentemente, recebi a seguinte fala de uma pessoa: 'Você parece com tudo e não parece com nada, não é branco, não é preto, é esquisito'". E reiterou: "Quem me conhece sabe que jamais seria racista". O ator ainda acusou o movimento Negro É: "O que vocês estão fazendo comigo é justamente o preconceito que vocês mais repudiam [...] Sou posto na cruz por simplesmente contar uma história".

O Negro É rebateu a acusação e disse não querer "prolongar uma disputa de discursos". "Isso não é sobre quem tem razão, isso é sobre um povo que está sendo representado", afirma. Segundo o movimento, Leandro Melo deveria saber que, "como artista, não existe escolha estética sem ideologia, sem implicações culturais". E fala que o ator, "como a maior parte dos brasileiros, ignora que reproduz racismo". 

Segundo a assessoria de imprensa da peça, "o espetáculo é sobre um personagem que ambiciona se tornar Madame Satã. E não o próprio em cena". Já sobre a arte de divulgação da peça, eles afirmam que "o conceito da imagem é a busca da identidade do personagem com Satã e não a figura do transformista em si. Nós optamos por mostrar a sensualidade e a crença do transformista numa mesma foto, a imagem retrata um exu. A peça nada mais é que uma homenagem para um dos ícones da cultura negra/gay carioca".

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