Livros e HQs

Livro reúne escritos marginais de padre "alternativo" que comia grilos

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Padre Dom Gurgel em atividade na igreja; imagem faz parte do livro "Agonia de um Padre Casado" Imagem: Reprodução

Carlos Minuano

Colaboração para o UOL, em São Paulo

06/10/2015 06h00

Religioso esquisito sempre existiu, mas poucos chegam aos pés de Dom Gurgel, o padre das quebradas. Se hoje em dia o que muito se vê são padres cantando na televisão --e vendendo muitos discos--, Gurgel chegou a comer uma porção de grilos no programa do Silvio Santos, na década de 1970. Tudo para pagar o telhado de sua igrejinha na periferia de São Paulo. Ele registrou em livro muitas de suas histórias malucas, com um talento narrativo singular e uma pegada marginal. Parte desses escritos acaba de ganhar nova edição em "Agonia de um Padre Casado" (Editora Veneta).

É preciso dizer que, apesar de esforçado, o padre Milton Gurgel Praxedes (1922-2004) nunca foi dos católicos mais convictos. Presepeiro como ninguém, amargou algumas prisões pelos motivos mais diversos: deserção, roubo de queijo e até participação, por engano, em uma rebelião. Ele também foi um dos primeiros cassados da ditadura, segundo o editor Rogério de Campos, organizador do livro. "Depois do Golpe de 64, ele foi expulso do exército, cassado pelo AI1, preso no terrível navio Raul Soares e torturado", conta.

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Capa do livro "Agonia de um Padre Casado" (Editora Veneta), de Padre Dom Gurgel, organizado por Rogério de Campos Imagem: Reprodução

O incomum acompanha Gurgel desde a infância, na antiga São João do Bofete (hoje Janduís), onde nasceu, no Rio Grande do Norte. Corre por lá um boato de que, ainda jovem, foi picado por uma jararaca enquanto caçava mocós, uma espécia de roedor, mas depois de 15 minutos a cobra tombou durinha de morta.

Antes de se tornar Dom Gurgel, o caçador de mocós teve muitas outras atividades. Foi soldado, policial, guarda-noturno, motorneiro, vendedor de pele de sapo, pedreiro, e ainda repentista e escritor popular. As histórias de Don Gurgel eram tão atípicas e chamavam tanto a atenção que os seus escritos, a princípio, nem interessaram a Campos, o editor. "Pareceu um personagem bom demais para ser também um bom escritor, mas quando comecei a ler fiquei até confuso com tamanha qualidade literária".

Nas dezenas de livros que publicou, ele imprimiu uma escrita selvagem, com relatos de suas bebedeiras e ressacas, dores e angústias e de seus amores. De dois casamentos, teve 16 filhos, quase todos com nomes estapafúrdios: Mansglio, Merempedes, Maderfranio Modipelinda, Maridinágema, Mazotopístoles, Mequistapache, Marilândia e Mupaximedes, entre outros.

"Estão todos vivos", garante Pablo Praxedes, filho de Mansglio. Ele conta que seu pai, hoje aposentado, vive longe da civilização, em Visconde de Mauá, onde se dedica à ioga, medicina ayurvedica e similares. Sobre o avô, com o qual conviveu na infância, diz que as melhores lembranças são de Dom Gurgel declamando os poemas que escrevia, muitas vezes inventado na hora.

Além de escritor era um apaixonado por literatura. "Todos os que o conheceram dizem que sua casa era lotada de livros. De Simone de Beauvoir e Graciliano Ramos a livros religiosos e muita literatura de cordel", relata o editor. Ele lamenta ter conhecido o padre escritor e comedor de grilos tão tardiamente. "Gostaria muito de entender de onde veio sua escrita."

Rigidez hierárquica da cultura brasileira

Para Campos, mais bizarro do que as aventuras de Don Gurgel é o fato de ele ter sido ignorado pela crítica literária brasileira. "Ele não era um escritor maldito de classe média, que escrevia manuscritos escondidos em gavetas para serem aclamados pela posteridade. Seus livros eram publicados em grandes tiragens". Pelo menos um deles, segundo o editor, teve 10.000 exemplares na segunda edição. "É muita coisa. Como nenhum bacana da cultura notou?", indigna-se o editor.

Campos reconhece que o mistério faz parte do show de Dom Gurgel, mas que por outro lado revela um tanto da rigidez hierárquica da cultura nacional. "Como um escritor tão surpreendente pode ter sido tão ignorado pelos milhões de especialistas em literatura brasileira? Talvez porque jamais pisaram no Jardim das Oliveiras, na zona leste de São Paulo", alfineta. "Pesquisei bastante e não encontrei qualquer menção a ele em teses acadêmicas, nenhuma resenha, nada. Mesmo a grande matéria sobre ele, que a 'Cruzeiro' fez no início dos anos 70, não fala de seus livros", observa Campos.

Mas a reportagem "Grilos, alimentos dos santos", republicada no livro "Agonia de um Padre Casado", destaca logo de início o estilo sui generis do padre: "uma barba grande, grisalha, aliança na mão esquerda, sapatos esportivos e uma pasta preta bastante surrada segurada por mãos enormes. Seria um homem comum, se não usasse uma batina marrom remendada e amarrada à cintura por uma cordinha com três nós."

Na matéria da revista "O Cruzeiro", de 1971, Dom Gurgel explica que comer insetos se tratava para ele de um hábito antigo, dos tempos que trabalhava na roça. "Eu tinha um primo que comia até sapo, e isto era o que eu mais invejava nele". Ele termina contando já ter comido até vaga-lume. "Fiquei um bom tempo dando choques, e minha mulher não gostou."

Apesar de suas tantas façanhas, ele não chegou a ser oficialmente expulso da Igreja, mas o foi informalmente. Depois de ser rotulado como comunista, passou a ser hostilizado pela comunidade católica na qual tinha sido muito ativo até então. "Acabou excluído. E, religioso como era, nunca se recuperou totalmente do choque".

"Foi um momento difícil, estava desempregado, expulso do exército e da igreja, e ainda vigiado pela Repressão", observa Campos. Documentos mostram que ele continuou sendo vigiado até pelo menos o final dos anos 1970. A tortura havia estropiado suas pernas, e tinha ainda uma família enorme para alimentar.

O livro "Agonia de um Padre Casado", que dá nome à nova edição lançada recentemente pela editora Veneta, foi escrito em 1985. A antologia traz também outro livro de Dom Gurgel, "Recordações de um Soldado", de 1965, e trechos de escritos encontrados pelo editor, como "Igreja do Diabo" e "Um Padre Ladrão", entre outros.

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