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Na ausência da família, bailarinos do Bolshoi em SC vivem com mães sociais

Luna D'Alama

Colaboração para o UOL, em Joinville (SC)

27/09/2015 07h00

As dificuldades no colégio, a primeira menstruação, o primeiro amor. Momentos assim, tão importantes na vida de crianças e adolescentes, necessitam de instruções, conselhos e da presença dos pais para compartilhar conquistas e derrotas, choros e risadas.

Mas não é bem assim para dezenas de bailarinos da Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville (SC), que se mudam sozinhos para a cidade catarinense e acabam afastados do convívio diário com a família.

Para tentar suprir um pouco a falta dos pais, surgiu há dez anos uma iniciativa de “mães sociais”, mulheres que têm ou não algum filho matriculado na instituição e se dispõem a cuidar de um grupo de jovens dançarinos por pelo menos um ano.

Foi o que fez a pedagoga Rosana Gomes, 43 anos, que saiu de Teresina em outubro de 2014 para tomar conta de 11 crianças, de 10 a 15 anos, que estudam no Bolshoi. Juntos, eles formam a “Casa do Piauí”, pois os alunos também vieram daquele estado.

Diferente de outras mães sociais que se voluntariam ao cargo, Rosana é funcionária pública e passou em um concurso para preencher a vaga. No dia a dia, ela também recebe ajuda de uma prima para preparar as refeições e fazer as tarefas domésticas.

“Eu trabalhava em escola antes, em período integral, mas é diferente de você dormir e acordar no mesmo lugar que eles, tomar banho, café, lavar os uniformes, levar ao médico. Há uma ligação afetiva, e eles sentem muita necessidade de atenção”, diz.

Para manter a ordem e a harmonia entre tantos moradores de idades e sexos diferentes, Rosana divide a turma em três quartos: um para os cinco meninos menores, outro para os três maiores e um para as três meninas –ela dorme sozinha em outro cômodo. “Temos várias regras de convivência que foram definidas em assembleia por nós mesmos e precisam ser seguidas: as portas sempre ficam abertas, todos levantam por volta das 6h, cada um lava a sua louça e as roupas íntimas, troca-se no banheiro e arruma a cama antes de sair”, enumera a mãe social, que não tem filhos biológicos e morava com um sobrinho adulto no Piauí.

“Para a gente se lembrar da terrinha, cozinho cuscuz, beiju, tapioca, paçoca e arroz com carne seca. E foi emocionante levar cinco crianças para ver o mar pela primeira vez. Só saíram da água na hora de voltar para casa”, recorda.

Comportamento

Mas nem sempre é fácil conseguir obediência e bom comportamento da criançada. Segundo Rosana, alguns já tinham problemas de estrutura familiar, foram criados muito soltos e agora se sentem engaiolados. “Uns –dentre os mais velhos –já namoram escondido, mas ninguém sai sozinho. Tem horas que eles retrucam, respondem, mas acabam obedecendo”, conta a pedagoga, que é chamada de “tia” pelos filhos sociais.

Às vezes, alguém deixa escapar um “mãe” por engano. "Ligo para todos os pais aos sábados, para matarem a saudade [alguns ainda se falam pela internet], e nas férias de julho me reuni pessoalmente com eles. A maioria são pessoas humildes, e metade desses alunos são filhos de mães solteiras”, revela Rosana, que deve ficar na função por pelo menos dois anos e, mensalmente, presta contas ao governo de seu estado, que arca com despesas como aluguel, água e luz.

A estudante de dança clássica Izabela de Andrade, 12 anos, é uma das moradoras da Casa do Piauí, onde está desde 2014. “Sinto muita falta da minha família. Ter uma mãe social é diferente, ela não tem os mesmos costumes da minha mãe biológica, mas também há coisas parecidas, como o carinho, o cuidado e as respostas para os meus questionamentos”, diz a adolescente, que nasceu no interior do Paraná e se mudou para o Nordeste ainda pequena.

Na opinião dela, a figura do pai também faz muita falta. “Minha mãe trabalha à noite e era ele quem ficava mais comigo.” Izabela confessa que, de vez em quando, acontece um desentendimento ou outro, mas tudo é resolvido logo. “Às vezes bate um ciúme [dos colegas de casa], mas é preciso se comportar para ter direito a certos agrados que, para nós, são importantes”.

Casa do Paraguai

Atualmente, há 24 casas sociais que atendem 83 alunos da Escola do Teatro Bolshoi, de 9 a 19 anos. Desde 2005, quando foi criada, a ação já reuniu bailarinos da Paraíba, de Rondonópolis (MT), Valença (BA), Camaçari (BA), do Piauí e do Paraguai.

A Casa do Paraguai foi fundada há dois anos, sob o comando de Cristina Aguilar, 44, que se mudou de Assunção para o Brasil com a filha Jimena, 14, que está no quarto ano de dança clássica.

No local, moram ainda outras duas meninas e dois meninos –um deles brasileiro, de São Paulo –, com idades entre 16 e 18 anos. “Fico de olho em todos, estabeleço limites e converso muito. A cada problema, é uma solução, uma experiência diferente”, diz Cristina, que deixou três filhos adultos em Assunção.

“Eles sentem muito a minha falta, e eu a deles. Mas minha caçula passou no primeiro teste que o Bolshoi fez fora do Brasil, junto com mais oito crianças. Ela dança desde os 6 anos, fiz isso por amor de mãe. E, para vir, tive que me demitir da empresa de moda onde eu trabalhava há 25 anos”, destaca a agora dona de casa, que está aprendendo português, recebe um valor mensal dos pais dos alunos de quem cuida e tem contado com o apoio de outra mãe social para se adaptar à nova realidade. A previsão dela é ficar no país pelo menos até 2019, quando Jimena termina os estudos.

Segundo Cristina, "os jovens sempre acham que estão certos, por isso é preciso explicar tudo em detalhes para que eles entendam o que é melhor naquele momento". Ela afirma que todos a respeitam muito, mas também pedem autorização aos pais biológicos se podem sair ou fazer tal coisa.

“Quero que meus ´filhos’ se formem, vou estar eternamente orgulhosa deles. E que mandem passagem para a tia quando estiverem dançando em grandes companhias”, torce a mãe social, que deve ganhar mais uma “filha” este mês e perder dois no fim do ano, após a formatura dos mais velhos.

Jimena avalia que o que sua mãe tem feito pelos amigos-irmãos é algo muito bonito. "Está ajudando-os a realizar seus sonhos. Sinto orgulho dela, e tê-la por perto me traz segurança e apoio para seguir meu caminho. E com eles me dou muito bem, nos apoiamos e sempre vamos juntos ao cinema ou ao parque”, revela a adolescente, que no começo teve dificuldades com o português e os costumes brasileiros, e já sonha em dançar um dia no Royal Ballet, de Londres.

A amiga Agustina Torres, 17 anos, vive há um ano e meio com Jimena, Cristina e os demais moradores da Casa do Paraguai. “É bem tranquilo e feliz, a gente está sempre rindo. Mas tudo mudou para mim, porque na minha família eu era a caçula de cinco irmãos, já aqui sou a mais velha, algo que eu sempre quis. Foi uma inversão de papéis”, afirma a adolescente, que sempre pede permissão primeiro para sua mãe social, e depois para a biológica.

Segundo a assistente social Patrícia Schweder e a coordenadora pedagógica Marileia Cani, que trabalham no Bolshoi, são feitas reuniões mensais com as mães sociais e visitas anuais às casas –que não são mantidas pela escola, mas há oferta de vans para levar e buscar as crianças de até 12 anos, orientação nutricional e psicológica.

“Alunos com menos de 16 anos não podem morar sozinhos, por isso existem essas residências. E as mães assinam um termo de responsabilidade", diz Patrícia. De acordo com ela, os três primeiros meses são cruciais, pois é quando há mais problemas de adaptação e desistências. “É por isso que as famílias biológicas precisam acompanhar os estudantes, mesmo a distância”, ressalta.

Marileia acrescenta: “Pegamos essas crianças para nós, viramos referência, estabelecemos vínculos. Com a intimidade do dia a dia, cria-se um certo grau de liberdade, e a gente fica sabendo de muitas coisas que os pais só tomam conhecimento depois”.

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