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Na reta final, parque de Banksy tem baile de máscaras com Pussy Riot

Kamilla Fernandes

Colaboração para o UOL, em Londres

25/09/2015 13h43

Depois de cinco semanas em cartaz, chega ao fim no próximo domingo (27) o Dismaland, o polêmico parque de diversões que se tornou a atração mais falada da Inglaterra no último mês. A versão distópica e subversiva do parque da Disney, sob a visão do misterioso artista britânico Banksy, reuniu o trabalho de mais de 50 artistas de 17 países diferentes em um parque temático onde os sorrisos são quase que proibidos.

Para fechar com chave de ouro, esta última noite de sexta-feira do parque vai receber o polêmico grupo de punk rock russo Pussy Riot para um baile de máscaras. Ninguém poderá entrar no parque a menos que esteja com o rosto coberto, seja por uma máscara ou qualquer outro acessório.

Um comunicado no site do parque brincava com o fato de que esta noite deve atrair muitos paparazzi, e por isso a necessidade dos rostos cobertos --já que o próprio Banksy gostaria de se juntar ao público sem o risco de ser fotografado ou identificado, garantindo assim que a sua identidade permaneça desconhecida.

Além do grupo Pussy Riot, que vai se apresentar no castelo da Cinderela, a noite vai contar com outras atrações, como o grupo de hip-hop De La Soul, a poeta e rapper Kate Tempest, o DJ Premier, e a dupla eletrônica Letfield. O grupo Massive Attack também foi convocado, mas sua apresentação foi cancelada devido a problemas técnicos.

Os ingressos para o parque já estão esgotados até o domingo, e conseguir um ticket durante estas cinco semanas não foi uma missão simples. Os lotes eram colocados à venda no site semanalmente e se esgotavam em poucas horas. Os bilhetes online custavam £5 (cerca de R$ 31,90), incluindo a taxa de transação pela internet. Nas noites de sexta, o preço aumentava devido as atrações musicais. Para o show das Pussy Riot, por exemplo, os tickets foram vendidos a £30 (R$ 191).

Mas com tanta procura, muitos dos que conseguiram colocar as mãos em um ingresso tentaram lucrar revendendo-os por até £1 mil (R$ 6,3 mil) em sites especializados. Havia a opção de comprar o ticket no dia, porém sem nenhuma garantia de entrada. A procura foi tão grande que até mesmo os hotéis da região estavam lotando imediatamente assim que os lotes começavam a ser vendidos. Foram 4.000 ingressos por dia, divididos em dois turnos.

Ruínas da Tropicana

O parque foi instalado no local da abandonada Tropicana, em Weston–super-Mare, no sudoeste da Inglaterra. Inaugurado em 1937, o espaço abrigava uma piscina de 950 metros quadrados e um trampolim, que foram por muito tempo a maior piscina a céu aberto e o trampolim mais alto da Europa.

Fechada definitivamente em 2000 depois de algumas tentativas de revitalização, a Tropicana estava totalmente abandonada quando, há seis meses, Banksy passou pelo local e espiou por uma fresta entre os tapumes. Como ele mesmo descreve no programa oficial do evento, foi neste momento que decidiu instalar um parque no local. Mas, obviamente, não um parque comum.

Durante o período de construção da atração, os moradores locais foram levados a acreditar que o local seria usado como set de filmagem para um filme hollywoodiano chamado "Grey Fox". Nem mesmo os funcionários que estavam trabalhando na construção do espaço sabiam dos planos verdadeiros. 

Toby Melville/Reuters
Vista geral do Dismaland, instalado no local da abandonada Tropicana Imagem: Toby Melville/Reuters

Experiência sombria

"Um passo para o lado por favor. Drogas, álcool, explosivos? Olhe para a câmera. Não sorria! Eu estou de olho em você". Essa foi recepção do UOL na revista de segurança do parque de diversões.

Depois de cerca de 3h de trem de Londres até Weston-super-Mare, um segurança faz uma revista rápida para confiscar objetos pontiagudos e bebidas. Mas ele também quer saber se alguém estaria carregando canetas, já que o astro da street art Banksy não quer ninguém fazendo arte lá dentro. Pode parecer contraditório, mas é isso mesmo.

E é depois disso que a verdadeira experiência "dismal", que quer dizer sombrio em inglês, começa. O primeiro contato do visitante com o parque é por uma sala de segurança toda feita de papelão e com guardas nada educados. A instalação foi criada pelo artista e cineasta norte-americano Bill Barminksi, e pega de surpresa quem não foi para o parque bem preparado para uma experiência que tem a intenção de incomodar. 

No dia em que o UOL visitou a Dismaland, o clima não poderia estar mais apropriado ao tema: céu cinza, uma chuva que ia e voltava, e alguns minutos de sol aleatórios no meio do dia. Mas nada disso impediu os visitantes de formarem filas gigantescas para as atrações e de tirarem centenas de selfies. "É difícil não sorrir nas fotos. Você vê a câmera e abre um sorriso, mas não é para sorrir nessas fotos", dizia o casal que pediu para ser fotografado em frente ao lago com a Pequena Sereia e o castelo sombrio da Cinderela, ambos criados por Banksy.

O trabalho do criador

Banksy foi responsável por dez peças, "mas ainda se pergunta se existem trabalhos dele o suficiente na exibição", como declara no encarte do parque que é vendido na entrada por £5 (R$ 31,90). Entre os outros trabalhos do criador do parque está uma mulher sentada em um banco sendo atacada por gaivotas, o que pode ser visto como uma referência ao filme "Os Pássaros", de Alfred Hitchcock, ou à epidemia de gripe aviária que assustou o mundo, e mais recentemente na Inglaterra.

Outros destaques são a baleia assassina pulando de uma privada em uma mini piscina com água suja; a morte se divertindo ao som de ABBA em um carrinho de bate-bate; Mickey sendo comido por uma cobra; e duas das peças mais controversas de todo o parque: o castelo e o lago com os barcos dirigíveis. Dentro do castelo a cena é trágica. Cinderela sofreu um acidente com sua carruagem de abóbora e está pendurada pela janela, com seus cavalos caídos no chão, e um grupo enorme de paparazzi fotografando sem parar. Uma alusão bastante clara ao acidente que matou a Princesa Diana em 1997.

Já o pequeno lago conta com barcos lotados de refugiados e um barco de patrulha, fazendo menção a crise imigratória que tem sido um dos assuntos mais discutidos e controversos na Europa neste ano. Os barcos podem ainda ser dirigidos pelo público --algumas crianças se divertiam dirigindo os barcos de refugiados sem saber do que se tratava.

Toby Melville/Reuters
Barco com refugiados, fazendo menção a atual crise imigratória na Europa Imagem: Toby Melville/Reuters

Os pontos "baixos"

É difícil ter certeza do que foi construído propositadamente para parecer destruído e decadente e o que realmente restou do antigo Tropicana. A música depressiva e repetitiva que toca no local contribui para que os visitantes fiquem o menos empolgados possível, e frequentemente é interrompida por pronunciamentos escritos pela artista Jenny Holzer --considerada a avó da intervenção de rua--, e lidos por uma menina de oito anos.

Entre as mensagens estão: "Propriedade privada cria o crime", "mitos podem tornar a realidade mais intangível", "ficar sozinho com si mesmo é cada vez menos popular", e "se você se comportasse bem, os comunistas não existiram".

Atrações clássicas de parques de diversões também fazem parte, como uma roda gigante, um mini golfe, um parquinho de areia para os pequenos, e um carrossel que carregava um açougueiro sentado em caixas onde estava escrito lasanha, em referência ao episódio em que foram aprendidas lasanhas congeladas contendo carne de cavalo no Reino Unido.

Outra brincadeira envolvia acertar uma bigorna com bolinhas de pingue pongue. "Se você derrubar a bigorna, pode levar ela para casa", dizia o funcionário. Depois de jogar as bolinhas, como prêmio de consolação ele jogava uma pulseira para o participante, sem em nenhum momento mudar sua expressão de desagrado.

Em um lago poluído com óleo era possível pescar patinhos de borracha, e em um pequeno stand sua caricatura podia ser desenhada, desde que você estivesse de costas. Um banco falso ainda oferecia empréstimos com juros abusivos para crianças, que para serem ser atendidas precisavam pular em uma cama elástica para alcançar o balcão.

Personagens Dismal

Toby Melville/Reuters
Os Dismals exalam insatisfação e má vontade em todos os segundos Imagem: Toby Melville/Reuters

Para manter a temática do parque concisa em todos os sentidos, ao invés de personagens animados e dispostos a ajudar, os visitantes se deparavam com os Dismals, que vestiam coletes rosa e tiaras com orelhas de Mickey. Com cara de tédio, se movendo vagarosamente, resmungando o tempo todo, e dando respostas grosseiras e monossilábicas, os Dismals exalavam insatisfação e má vontade.

Quando questionada sobre como conseguiu o emprego no parque, uma das funcionárias respondeu: "Eu apenas conheci as pessoas erradas". E sobre se ela estava gostando da experiência e se divertindo, a resposta foi: "sempre", seguida de uma bufada e virada de olhos.

Dentre as pérolas ditas pelos Dismals estavam o "nada para ver aqui" ou "você já viu isso um milhão de vezes". Para as selfies: "Hashtag ninguém se importa com as suas fotos do Instagram"; e para quando alguém demorava demais em uma atração: "A porta está ali, use-a" ou "você é capaz de andar e fotografar ao mesmo tempo, continue andando".

Depois de duas horas andando pelo parque na chuva, o artista de rua e ilustrador JBOY contou que sua experiência foi tão imersiva que demorou para que ele voltasse à vida real. "De uma maneira estranha, você sai do parque esperando que a garçonete vá ser grosseira com você como os funcionários do parque". 

Anarquia ativa

Apesar de todos os elementos que envolviam a exibição estarem intercalados, o parque foi dividido entre uma grande galeria dedicada à arte, atrações divertidas e irônicas ao ar livre, e um canto mais político. Nesta área de ativismo político, havia uma tenda coberta por cartazes e faixas com mensagens que pediam paz ao mesmo tempo em que levantavam temas como feminismo, racismo e gentrificação.

Ainda na região da "Guerilla Island", uma van cuja a temática era crueldade pontuava dados e estatísticas que iam desde o maltrato aos animais até o abuso policial. Ao lado, uma biblioteca reunia obras anarquistas para quem quisesse sentar e ler --era possível levar um folheto com instruções de como remover e trocar as propagandas instaladas nos pontos de ônibus, e até mesmo adquirir uma ferramenta para tal, por £5 (R$ 31,90). "Não é ilegal", garantia o vendedor. 

Toby Melville/Reuters
A clássica peça "Punch & Judy" foi reescrita por Julie Burchill Imagem: Toby Melville/Reuters

A violência contra a mulher teve destaque em um teatro de bonecos. A clássica peça "Punch & Judy" foi reescrita por Julie Burchill de maneira a criticar o próprio texto original, que retrata com humor o protagonista Sr. Punch agredindo outros personagens. Na versão Dismaland, Punch bate em sua mulher até ela ficar inconsciente, enquanto tenta legitimar seu direito de ser violento com argumentos como "esse é um efeito colateral da paixão" ou "quem foi mesmo que comprou aquelas cópias de 'Cinquenta Tons de Cinza?'".

Autocrítica divertida

Se o objetivo era incomodar, Banksy acertou em cheio mais uma vez. Apesar do clima de parque de diversões, a maioria das risadas eram geradas por alguma piada irônica que buscava atingir o próprio visitante.

E quando as pessoas começavam a pensar em relaxar, os pronunciamentos de áudio, os funcionários do parque, ou um outdoor com o primeiro-ministro britânico David Cameron sendo empurrado por um jovem, faziam questão de trazê-las de volta para a realidade.

No trem de volta para Londres, um pai de família carregava um balão de hélio com o texto "Eu sou um imbecil", que arrancava risadas de todos em volta. Seu filho, que aparentemente tinha menos de 10 anos de idade, repetia o que estava escrito sem parar, até que a mãe perguntou: "E você acha que isso é arte?". O pai respondeu: "Eu acho que isso diz mais sobre mim do que sobre a arte em si, você não acha?". 

 

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