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Artistas defendem nudez no palco como forma de combater conservadorismo

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em Campinas (SP)

24/09/2015 07h00

Não é difícil assistir a um espetáculo da 9ª edição da Bienal Sesc de Dança e ver um bailarino nu em cena. Há diversos deles entre as 31 peças que serão mostradas no evento, que acontece até dia 27 de setembro, em Campinas, interior de São Paulo. O festival começou com o francês "Tragédie", dirigido por Olivier Dubois, e que tem 18 bailarinos nus em cena todo o tempo: nove homens e nove mulheres.

Na peça "Multitud", que foi apresentada na antiga Estação de Trem de Campinas, 60 bailarinos brasileiros tiraram a roupa durante a encenação. Para a coreógrafa uruguaia Tamara Cubas, o nu é "algo anatômico e natural" e ela prefere não arcar com outros olhares que possam existir. "Como o público se relaciona com a nudez é problema de cada um. Não corresponde a nós, artistas, nos preocuparmos com que o outro pensa. O público tem de se fazer responsável por sua leitura e de suas próprias neuras e possibilidades de diálogo. Isso é problema dele, porque se supõe que é uma relação. Cada um é responsável por sua parte. O público tem que trabalhar também. Senão, seria um espetáculo para que consumam, aprovem ou não aprovem. E não é o caso".

O bailarino e performer brasileiro Neto Machado, que dirigiu o espetáculo "Desastro" na Bienal Sesc de Dança, seguiu direto para a Itália, onde se apresentará com o "Low Pieces". Nesta produção francesa dirigida por Xavier Le Roy, o elenco todo fica despido durante toda a apresentação. "É um espetáculo que propõe olhar diferente para o homem. Nus, nós ficamos menos humanos. A roupa é algo muito demarcador do humano, é algo que deflagra a humanidade facilmente. Então, fazemos todas as cenas nus. E rapidamente o espectador esquece do tabu e nos vê como animais, máquinas, objetos".

Divulgação
O bailarino e performer brasileiro Neto Machado Imagem: Divulgação

Para Machado, o corpo nu é como um figurino que demarca uma escolha de como ser visto em cena. "Enquanto estou em cena minha atenção está dividida em tantas coisas que estar nu é meu figurino e ponto. Para mim, a relação com o nu na dança e nas artes cênicas em geral já não funciona mais como um ato inovador. Se pensarmos em artes plásticas, vemos nus em cena há muito tempo".

Já o bailarino Wagner Schwartz leva proposta semelhante ao festival. Na sexta-feira (25), apresenta no Teatro do Sesc Campinas "La Bête", obra na qual permanece sozinho e nu em cena para "propor um paralelo entre uma escultura de Lygia Clark e seu corpo". Já o espetáculo paulistano "Estado Imediato", do Grupo Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira, levou o nu com foco nas nádegas de seus bailarinos para fazer nossa dança afro-brasileira se comunicar com a música pop de forma surpreendente.

Para "desencaretar"

O dramaturgo Newton Moreno define a nudez no espetáculo como "uma marcha da humanidade em cima da gente". Para ele, espetáculos com nus, que durante a ditadura eram "um grito pela liberdade", hoje também funcionam "para desencaretar" o público conservador. "Mostra para a gente o básico, o que estamos esquecendo".

O ator Sérgio Mamberti lembra que "a nudez é uma coisa conquistada há bastante tempo". Em sua visão, "de repente, passamos por um período mais conservador", rememorando outros tempos. "Nas décadas de 1960 e 1970, tínhamos a estética da nudez muito presente no teatro e na dança". Mamberti assistiu a "Tragédie" e diz que até se esqueceu da nudez dos bailarinos. "Até causa estranheza quando, os bailarinos voltam ao palco com roupa nos agradecimentos. A coisa estranha passa a ser vê-los vestidos".

Mamberti concorda com Moreno em relação à nudez ser uma forma de combater o conservadorismo. "Temos, hoje, avanço de religiões fundamentalistas, que têm problema com o nu. A nudez é importante, porque é o corpo humano. Na estética clássica e renascentista, a nudez sempre esteve presente. Nossos índios também sempre exibiram seus corpos. Temos de ter liberdade para espetáculos com nudez".
 

Bienal Sesc de Dança - Campinas
Quando: De 17 a 27/09/2015
Onde: Sesc Campinas (rua Dom José 1º, 270/333)
Informações: (19) 3737-1500
Quanto: de grátis a R$ 30, dependendo do espetáculo

Tragédie - São Paulo
Quando: 23/09/2015 Última apresentação
Onde: Sesc Pinheiros (rua Paes Leme, 195, Pinheiros)
Quanto: R$ 40
Informações: (11) 3095-9400
Classificação etária: 18 anos

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