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Implicância e sotaque marcam experiência de imigrantes no teatro brasileiro

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/09/2015 12h03

Imagens de imigrantes arriscando suas vidas para entrar na Europa fugidos da guerra, que comovem o mundo, não são algo tão distante da realidade brasileira.

O país tem população composta por descendentes de variadas correntes migratórias, desde os africanos, trazidos como escravos, passando pelos imigrantes vindos da Europa, Oriente Médio, Ásia e, mais recentemente, de outros países da América Latina.

Agora, artistas de teatro de outras partes do mundo também chegam ao Brasil em busca de novas oportunidades em nossos palcos.

Leo Aversa
O ator italiano Nicola Lama, que atua no espetáculo "Nine - Um Musical Felliniano Imagem: Leo Aversa

Protagonista italiano

Recentemente, o imigrante italiano Nicola Lama conquistou o público paulistano como protagonista de "Nine - Um Musical Felliniano", que inaugurou o Teatro Porto Seguro, em São Paulo, e chega ao Rio em 8 de outubro, no Teatro Clara Nunes.

O ator conta que o fato de ser estrangeiro sempre foi "protegido pelos personagens" nas obras nas quais atuou nos palcos brasileiros. Ele foi o Homem de Lata em "O Mágico de Oz" e agora vive o cineasta italiano Guido em "Nine".

"Meu trabalho no Brasil é uma aposta do Charles Möeller e do Claudio Botelho, que acreditaram no meu potencial e me deram oportunidades, que é o que um estrangeiro precisa. Também fiz um grande investimento em fonoaudiologia para atenuar o sotaque. Sei que ainda tenho trabalho pela frente até poder fazer um baiano ou um carioca", diz Lama, que mora no Rio.

Sotaque como intercâmbio

O sotaque também é um tema recorrente na vida de Marba Goicochea, atriz peruana que vive em São Paulo há 12 anos. Ela já participou de peças do grupo Os Satyros e hoje atua na Cia. Bruta de Arte, que está em temporada gratuita em teatros da prefeitura de São Paulo com a peça "Máquina de Dar Certo", do diretor Roberto Audio.

Ao contrário de Lama, que tenta atenuar seu sotaque italiano, Marba faz uma cena em seu idioma natal: ensina o saboroso ceviche, prato típico do Peru, em castelhano mesmo.

Viviane de Paoli
A atriz peruana Marba Goicochea, que está em cartaz com a peça "Máquina de Dar Certo" Imagem: Viviane de Paoli

A atriz diz que a vida de artista no Brasil já é difícil normalmente, e fica ainda mais quando este é imigrante. Ela costuma ver colegas implicarem com seu sotaque, com muita gente querendo adaptar seu modo de falar a "padrões brasileiros".

"Infelizmente, poucos olham para o artista estrangeiro como elemento enriquecedor, uma possibilidade de intercâmbio. Quando um artista estrangeiro entra em um processo teatral no Brasil, ele traz toda sua cultura, sua bagagem e história de vida", afirma a atriz.

A peruana lembra que poucos são os diretores com olhar inclusivo, citando como exemplo Fransérgio Araújo, com quem fez a peça "O Mal Dito", que chegou a ter temporada em Lima, e Roberto Audio, que a dirige em "Máquina de Dar Certo".

Imigrante não precisa negar origens

Roberto Audio conheceu Marba quando ministrou uma oficina de teatro no grupo Os Satyros, em 2006. Ela era sua aluna. "O que é encarado como problema em outros lugares, lá é qualidade e contribuição artística", afirma ele sobre a trupe da praça Roosevelt.

A primeira peça que montou com Marba foi "El Truco". A peruana foi um dos destaques do espetáculo de 2007. Nos ensaios, fez uma observação que comoveu a atriz. "Pedi para a Marba parar de lutar com o seu sotaque. Esse comportamento de tentar se encaixar num padrão de atriz brasileira não fazia sentido", recorda. Logo, sentiu a atriz "livre dos medos e das amarras de invisibilidade que muitos imigrantes passam", o que aumentou suas possibilidades expressivas no palco.

Bob Sousa
O diretor de teatro Roberto Audio Imagem: Bob Sousa

O próprio Audio sentiu na pele o drama, quando foi trabalhar fora do Brasil. "É uma necessidade de ser aceito, de ter os mesmos direitos e oportunidades que os outros. O preconceito deve ser revisto e repensado. O mundo grita por isso todos os dias", pede o diretor.

Para ele, gente como Marba ou Nicola Lama não precisa negar sua origem nem seu sotaque para fazer teatro no Brasil. "Marba é uma atriz peruana que vive no Brasil, que ama ser peruana, mas também ama viver e trabalhar aqui. Tentar mudar qualquer um destes aspectos seria um processo de anulação", acredita.

Audio lembra que o Brasil é um país com diversidade étnica e cultural e que o foco precisa ir além do sotaque. "O que me interessa é a potencialidade que cada ser humano tem e como ele é capaz de dividir isso artisticamente com o público sem se anular".

Tratamento diferenciado

Outro fato que permeia a experiência dos imigrantes em nosso teatro é a diferença de tratamento entre artistas que chegam dos Estados Unidos ou da Europa em relação aos latino-americanos.

Para o professor Alexandre Mate, pesquisador do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), isto é uma triste realidade. Ele lembra que o preconceito começa na própria formação dos artistas brasileiros.

"Nas escolas e universidades de formação de artistas no teatro --na totalidade absoluta das instituições-- não entra América Latina, formas populares de teatro, teatro de rua, ritos e danças africanas ", aponta o estudioso do teatro brasileiro.

Estrangeiros foram fundamentais

Mate afirma que os estrangeiros têm e tiveram papel fundamental no desenvolvimento de nossos palcos: "A importância dos imigrantes em nosso teatro é bastante grande e, em determinados contextos históricos, fundamental".

Ele recorda que o italiano Franco Zampari, por exemplo, fundou o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) em 1948 —montando 144 obras entre 1948 e 1964, com mais de 2 milhões de espectadores, segundo o pesquisador.

"A totalidade dos diretores da companhia foi de origem estrangeira: Adolfo Celi, Luciano Salce, Flaminio Bollini Cerri, Ruggero Jacobbi e Alberto D'Aversa eram italianos, Zgbriniew Ziembinski era polonês e Maurice Vaneau era belga", relembra.

Mate lembra ainda que os estrangeiros trouxeram "primor e rigor" aos espetáculos apresentados no Brasil. "As obras e linha estética do TBC muito devem aos pioneiros imigrantes. O TBC formou plateia, depurou o gosto por certo tipo de teatro e ajudou no processo de formação de inúmeros profissionais, nas mais variadas áreas de atuação".

É por isso que o estudioso é taxativo em relação a qualquer tipo de represália a um artista estrangeiro em nossos palcos: "Todas as formas de preconceito devem ser vencidas".

SERVIÇO:

"Máquina de Dar Certo"
Temporada gratuita
Quando: 18, 19 e 20/9/2015 - Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h
Onde: Teatro Flávio Império - r. Professor Alvez Pedroso, 600, Cangaíba, São Paulo
Quando: 24, 25, 26 e 27/9/2015 - Quinta, sexta e sábado, 21h; domingo, 19h
Onde: Teatro Arthur Azevedo - av. Paes de Barros, 955, Mooca, São Paulo
Quando: 16, 17 e 18 de outubro - Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h
Onde: Teatro Paulo Eiró - av. Adolfo Pinheiro, 765, Alto da Boa Vista, Santo Amaro, São Paulo
Quanto: Grátis em todas as sessões (retirada de entradas uma hora antes)
Classificação etária: 10 anos

"Nine - Um Musical Felliniano"
Quando: Quinta, sexta, sábado, 21h; domingo, 19h. 120 min. De 8/10 a 8/11
Onde: Teatro Clara Nunes - r. Marquês de São Vicente, 52, Gávea, Rio
Informações: (21) 2274-9696
Quanto: R$ 90 (quinta e sexta) e R$ 120 (sábado e domingo)
Classificação etária: 12 anos

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