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Ponto de vista masculino de "Grey" é espelho da trama de "Cinquenta Tons"

Divulgação
Capa da versão brasileira do livro "Grey", de E.L. James Imagem: Divulgação

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/09/2015 17h18

Lançado em junho nos Estados Unidos e na Inglaterra, “Grey: Cinquenta Tons de Cinza Pelos Olhos de Christian” chegou oficialmente ao Brasil na última sexta (18). A obra traz uma nova perspectiva para o primeiro livro da trilogia de E.L. James: se nos três volumes anteriores a história era contada por Anastasia Steele, uma tímida estudante de literatura, agora temos a versão de Christian Grey, o empresário milionário de gostos peculiares que introduz a moça no mundo da dominação sexual.

Com a novidade, muitas fãs da série –que vendeu mais de 125 milhões de exemplares pelo mundo, sendo seis milhões deles no Brasil– correrão para comparar como a história poderia mudar de acordo com a perspectiva dos personagens. No entanto, as diferenças entre os livros são pontuais. “Cinquenta Tons” é dividido por capítulos de forma convencional, enquanto em “Grey” as divisões são datadas, apresentadas como uma espécie de diário do narrador. Além disso, temos os momentos a sós de Grey, que não apareciam na história narrada por Anastasia.

Uma leitura comparada das duas obras mostra que temos praticamente uma história espelhada, tanto que há cenas que ocupam exatamente a mesma página de “Grey” e “Cinquenta Tons”. Os diálogos são todos exatamente iguais, como se os narradores não relatassem de memória as passagens –o que permitiria variações, já que cada pessoa costuma guardar lembranças de forma diferente–, mas uma voz externa (da própria autora), que sabe com exatidão o que aconteceu em cada momento.

Ainda assim, olhando para a história sob a perspectiva de cada um dos personagens, podemos observar algumas particularidades. Na entrevista na qual Anastasia conhece Grey, por exemplo, a primeira reação da moça é observar toda a sala do empresário, enquanto ele, por sua vez, começa a tentar dissecar a estudante.

“Como essa jovem pode ser jornalista? Não tem um pingo de firmeza. É atrapalhada, mansa... submissa”, pensa ele. “A sala é grande demais para uma pessoa só. Na frente dos janelões que vão do piso ao teto, há uma enorme mesa moderna de madeira escura, ao redor da qual seis pessoas poderiam comer confortavelmente”, analisa ela.

Logo Grey começa a prestar atenção nas qualidades de Anastasia: “Seu perfil é delicado –nariz arrebitado, lábios macios, carnudos– e, com suas palavras, ela captou meu sentimento com exatidão”. Já ela permanece preocupada com o espaço. “À parte os quadros, o restante da sala é frio, limpo e asséptico. Pergunto-me se reflete a personalidade do Adônis que afunda graciosamente numa das poltronas brancas de couro à minha frente”.

Mas não demora para que, nas duas versões do encontro, um já esteja desejando o outro. Após afirmar que “controla tudo”, Grey pensa e observa: “E gostaria de controlá-la também, bem aqui, agora mesmo. Aquele rubor atraente se insinua no seu rosto, e ela torna a morder o lábio. Fico divagando, tentando desviar a atenção daquela boca”. Enquanto isso, ela tenta sustentar seu “olhar impassível”, seu “coração bate mais depressa” e seu “rosto torna a corar”.

Fragilidades de Grey

Em um dos momentos-chave da história, quando Grey fala para Anastasia sobre o contrato que ela deve assinar para lhe ser submissa e apresenta à moça o seu “quarto de jogos”, na versão do protagonista percebemos que o milionário frio e controlador também tem suas fragilidades, ainda que não as externe. Ao ver o recinto com chicotes, varas, um banco e uma cama king size, dentre diversos outros apetrechos, a moça pensa “Parece que viajei para o século XVI e sua Inquisição espanhola. Puta merda”.

Já na versão de Grey, a autora gasta muito mais linhas para transmitir as sensações do dominador. O trecho revela o temor que o personagem tinha da garota não aceitar suas peculiaridades: “chegamos a uma encruzilhada. Não quero que ela saia correndo. Mas nunca me senti tão exposto. […] Abro a porta e sigo para dentro do quarto de jogos. Meu porto seguro. O único lugar onde posso ser o que realmente sou”.

Bem mais adiante, quando conversam sobre o contrato para se aprofundarem nos detalhes –uso de vibradores e plugues anais, aceitação de bondage com cordas e fitas adesivas, contenção por meio de amarras nas mãos, nos tornozelos, por suspensão... –, Grey se mostra surpreso com a resistência de Anastasia em aceitar o Audi Hatch vermelho que ele tentava lhe dar. Enquanto na versão dela da história ele “suspira profundamente” e apenas concorda, na dele há o pensamento que deixa claro como a garota, apesar de ser a dominada dentre as paredes, representa um desafio em sua vida: “Por que ela é tão difícil? Nunca recebi essa reação a um carro de nenhuma das minhas submissas. Normalmente elas ficam encantadas”.

Sexo egoísta

E, claro, há as diferenças da perspectiva individuais com relação ao sexo. Aqui, o momento da mesma cena na versão de cada um, quando ele corta o barato da moça para satisfazer seus desejos:

Cinquenta Tons de Cinza:
“Sua língua é incansável, forte, resistente, golpeando-me –rodando, rodando, sem parar. É uma delícia– a intensidade da sensação quase chega a doer. Começo a estremecer, e ele me solta. O quê? Não! Estou ofegante, arfando, olhando para ele numa expectativa deliciosa. Ele segura firme meu rosto com as duas mãos e me beija com força, enfiando a língua em minha boca para eu saborear a excitação. Então, abre a braguilha, se solta e me levanta pelas coxas".

Grey:
“Ela suspira quando agarro seu quadril e beijo a doce junção sob seus pelos pubianos. Levando as mãos até a parte de trás de suas coxas, afasto as pernas dela, expondo seu clitóris para a minha língua. Quando começo meu ataque sensual, seus dedos agarram meu cabelo. Minha língua a atormenta, fazendo-a gemer e jogar a cabeça para trás, na parede. Seu perfume é delicado. Seu sabor é ainda melhor. Gemendo, ela empurra a pélvis na direção da minha língua invasora, insistente, e suas pernas começam a tremer. Chega. Quero gozar dentro dela".

Pelo visto, Grey só se preocupa mesmo com seu próprio prazer.

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