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"Grey" traz uma visão menos cafona para a história de "Cinquenta Tons"

Divulgação
Capa da versão brasileira do livro "Grey", de E.L. James Imagem: Divulgação

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, de São Paulo

18/09/2015 00h01

Quando o primeiro livro da série “Cinquenta Tons de Cinza”, de E. L. James, foi lançado no Brasil, muita gente reclamou da tradução da obra. Queixavam-se da escolha de palavras que raramente são usadas no dia a dia. Por conta do constante “enrubescer” da protagonista e narradora Anastasia Steele –e suas variações–, e de expressões como “poeira de escamas” e tropicalizações como “Senjeitolândia”, muitos consideraram que a obra era, em sua totalidade ou ao menos em alguns momentos, cafona.

Mesmo que por vezes as escolhas da tradutora Adalgisa Campos da Silva (que verteu o primeiro volume da série para o português) não tenham sido as melhores, a personagem –sem graça como poucas da literatura– e o texto original também não colaboravam para que a transposição para o português fosse uma obra-prima. Agora, em “Grey”, a situação é ligeiramente melhor  na versão da história contada pelo milionário dominador Christian Grey, por quem Anastasia se apaixona.

Diferente dos outros livros da série, a tradução desta vez é assinada por uma equipe de profissionais: a própria Adalgisa, Julia Sobral Campos e Maria Carmelita Dias (que já havia traduzido “Cinquenta Tons de Liberdade”). O resultado é um trabalho que, se está longe de brilhar, pelo menos apresenta menos escolhas duvidosas do que tínhamos visto até então.

O que ajuda os tradutores é que o ponto de vista de Grey para a história já é um pouco menos ingênuo do que o apresentado pela outrora inocente mocinha –apesar do “rubor” ter seu lugar garantido.

Também favoreceu que, ao verterem o texto para o português, puderam trabalhar com uma variedade vocabular bastante vasta para traduzir termos empregados largamente na versão original, como “fuck” e “dick”. A perspectiva do protagonista permite que se utilize muito mais do que “transar” e “pênis” –opções “limpinhas”, porém insatisfatórias para se transpor essas palavras originalmente mais chulas–, o que as tradutoras fazem, ainda que não usem todo vasto e conhecido repertório que temos em nossa língua para esses casos. Nesse sentido, a versão em português acaba se saindo muito melhor do que a original e seus monocórdicos “fuck”, “fuck”, “fuck”.

No entanto, tradutores não costumam fazer milagres – ainda que um ou outro realize grandes proezas por aí. O texto original de “Grey” contém problemas e era de se esperar que o mesmo ocorresse em sua versão em português. Opções de James –como tentar transmitir a urgência de seu personagem pelo sexo por meio de parágrafos formados por frases curtas, mas repletos de clichês–, sequer deveriam ser contornadas em uma tradução. Um exemplo: “Eu a quero./ Aqui./ Agora./ Na grama”.

Dentre esses problemas que já vêm da “fonte original”, podemos destacar momentos como “a voz solitária que canta uma delicada e 'etérea' melodia” e o tecnicismo pudico empregado nas cenas de sexo, como neste trecho: “Minha língua percorre uma linha até sua barriga, contornando o umbigo, lambendo por onde passa. 'Saboreando-a. Venerando-a'. Chego mais para baixo alcançando seus 'pelos pubianos' e seu 'doce clitóris exposto' e ansioso pelo toque da minha língua. Faço círculos, girando sem parar, absorvendo seu aroma, absorvendo sua reação, até senti-la estremecer embaixo de mim”.

O momento permitiria que o narrador fosse bem além dos “pelos pubianos”, do “doce clitóris exposto” e até mesmo abrisse mão do conservadorismo gramatical do pronome colocado após o verbo em "senti-la".

Contudo, esses já são problemas que, quase sempre, vêm do original. O que percebemos, então, é um livro que, apesar de longe de ser uma obra-prima, apresenta uma perspectiva para a história alguns tons menos cafona do que a contada por Anastasia Steele.

Grey
Autora:
E.L. James
Editora: Intrínseca
Páginas: 528
Quanto: R$ 39,90

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