Livros e HQs

Homenageado no HQ Mix, Mutarelli renega seus quadrinhos: "Era outra pessoa"

Bruno Poletti/Folhapress
O quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli na pré-estreia do filme "Quando Eu Era Vivo", em 2014 Imagem: Bruno Poletti/Folhapress

Guilherme Solari

Do UOL, em São Paulo

11/09/2015 07h00

“Eu era outra pessoa”, diz Lourenço Mutarelli sobre sua carreira como quadrinista. “Tenho fetiche por essa coisa do cara que sai para comprar cigarro e some. Larga a sua vida antiga inteira para trás”, disse ao UOL o também escritor e ator. Agora, prestes a ser homenageado por sua obra no prêmio HQ Mix 2015 neste sábado (12), cujo troféu é uma escultura do detetive Diomedes, seu personagem, o ícone dos quadrinhos underground realmente parece ter deixado as HQs para ir comprar cigarro e nunca mais voltado. 

Mutarelli sequer vai ao evento para receber o troféu. Na manhã desta sexta (11), postou em uma de suas contas no Facebook que não poderá ir à premiação e que sua mulher vai representá-lo. "Gostaria de agradecer a homenagem do HQ Mix que será neste sábado no Sesc Pompeia. Infelizmente não poderei ir porque estarei trabalhando em BH. Mas a Lucimar Mutarelli irá me representar. Obrigado", escreveu ele. 

Talvez mais conhecido pelo público por seu romance “O Cheiro do Ralo” -adaptado para o cinema em 2006, com Selton Mello- e ator em “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, anunciado nesta quinta (10) como representante brasileiro no Oscar, Mutarelli publicou HQs nos anos 1980 e 1990 que podem ser, no mínimo, definidas como “estranhas”. Uma mesma obra dele pode juntar, no mesmo balaio, física quântica, autoflagelação, demonologia, escatologia e amor sincero.

Com origem nos fanzines oitentistas, o autor publicou quadrinhos como “Transubstanciação”, “A Confluência da Forquilha”, “Eu te Amo Lucimar” e a “Trilogia do Acidente”, com o personagem detetive Diomedes, entre outras. Todas com temática grotesca e ilustradas com um traço que enfatiza de propósito a feiúra.

Ninguém consegue ler os seus quadrinhos confortavelmente, nem ele próprio. “O desenho me incomoda, o que eu fazia antes me incomoda”, disse. “Eu acho que esse traço é bom no sentido que ele é muito íntegro com o universo que ele relatava. Ele dava muito a atmosfera daquele ambiente. Por isso não é ruim. É ruim porque desgasta. De verdade, eu era outra pessoa. Quando eu me lembro do que eu fazia, parece que não era eu, era um cara que eu conhecia. E que eu conhecia vagamente.”

Muta

  • Eduardo Knapp/Folhapress

    Eu tenho tentado não participar de nenhum evento de quadrinhos. Se eu sou referência, acho que não vou continuar sendo por muito tempo, porque eu falo muito mal de tudo isso. Vou ser amaldiçoado. Eu não tenho mais relação com esse mundo

    Lourenço Mutarelli
E o próprio Mutarelli é difícil de ser entendido confortavelmente. Apesar de ser um dos mais aclamados quadrinistas brasileiros, diz que odeia fazer e até ler quadrinhos depois que passou a se dedicar à literatura nos anos 2000. Não se vê no apartamento da Vila Mariana (zona sul de SP), onde ele mora com a mulher, o filho e quatro gatas, as dezenas de estatuetas que recebeu, como o Prêmio Ângelo Agostini, o Troféu HQ Mix e o da Bienal Internacional dos Quadrinhos. “Isso não me diz nada. Eu dei todos para as pessoas, não tenho mais nem os prêmios literários que eu ganhei. Não gosto dessa coisa de prêmio e troféu. Gosto quando é em dinheiro, mas esses eu nunca ganho”, conta, rindo e fumando no sofá enquanto acaricia sua gata Mentira, deitada em seu colo. “Eu preciso é de dinheiro. Sou um cara totalmente falido."

Sobre as adaptações de suas obras para o cinema, Mutarelli se divide. Diz que, em alguns casos, vende os direitos “porque é um jeito de ganhar uns trocados”. “De ‘O Cheiro do Ralo’ eu gosto muito, e foi muito importante para minha carreira,” diz. “O ‘Natimorto’ é difícil porque eu estou no filme [como ator], e muita gente criticou muito o meu trabalho. ‘Quando Eu Era Vivo’, que é a adaptação de ‘A Arte de Produzir Efeito sem Causa’, eu acho uma bosta. Muito ingênuo.”

Reprodução/HQ Mix
O troféu HQ Mix 2015, que homenageia Mutarelli com uma escultura de seu personagem Diomedes Imagem: Reprodução/HQ Mix
Mutarelli ainda falou que pôde receber o UOL porque está "no período que o Sesc chama de ‘férias’, e eu chamo de ‘desemprego’”, referindo-se às oficinas de quadrinhos e literatura que ministra na instituição. Segundo ele, elas são hoje sua principal fonte de renda. “Eu tento muito desorientar os meus alunos, porque o quadrinho está uma coisa muito bunda mole. Eu tento dar uma chacoalhada. Eu fico triste de não conseguir publicar ninguém. Tentei muito, mas não consigo.”

Parte da aversão que Mutarelli sente hoje pelos quadrinhos ele atribui justamente à quantidade de esforço e desgaste para se criar algo no formato. “No quadrinho, você precisa trabalhar no mínimo dez horas por dia desenhando. Escrevendo [romances], eu trabalho menos horas por dia, trabalho com muito mais prazer. E vivo também. Antes, eu não vivia, só trabalhava. A morte do meu pai [em 2001] também tirou um pouco do sentido sobre o que eu fazia. Era muito sobre a relação com ele. Quando ele morreu,  perdi muito da vontade de fazer quadrinhos, mas era o meu trabalho ainda. E também não ganhava nada, a minha mulher que me bancava. Eu ganhava uma merreca.”

Mutarelli também não se sente confortável no mundo das HQs. "O meio dos quadrinhos sempre me incomodou bastante. Os próprios quadrinistas mesmo. É um meio muito bitolado. Nos quadrinhos, eu me sentia muito deslocado e já não me sinto mais assim agora na literatura. Eu tenho tentado não participar de nenhum evento de quadrinhos. Se eu sou referência, acho que não vou continuar sendo por muito tempo, porque eu falo muito mal de tudo isso. Vou ser amaldiçoado. Eu não tenho mais relação com esse mundo.”

"Uísque fitoterápico"

Outro fator que pode tornar irreconhecível o “novo Mutarelli” para os fãs de longa data é a ausência de referências a remédios de controle de distúrbios de ansiedade como o Lorax, que o artista não só chegava a destacar na sua obra, como dizia que tomava havia tanto tempo que o medicamento se tornara parte integral da sua própria personalidade.

“A minha vida mudou muito, muito, quando eu migrei para a literatura. Eu não tomo mais nem remédio. Não vou mais pegar receita em psiquiatra. Tomo só ‘fitoterápicos’,” diz, referindo-se com um sorriso ao uísque. “Não precisa de receitas e tem uma relação muito mais social do que a medicação. Essa mudança veio não só pela literatura, mas também pelo meio literário, que me aceitou muito bem. Isso é uma coisa que me ganha. Aceitação verdadeira, não bajulação. No meio literário eu fui muito bem acolhido, isso foi uma coisa que foi muito importante para mim.”

Sobre a antiga relação com os remédios controlados e a atual relação com a bebida, o escritor diz: “Eu voltei a beber depois de 15 anos. Com o remédio, eu bebia, mas ficava mal. Quando eu voltei a beber, eu ainda tomava remédio. E aí não foi legal. Eu tive que fazer uma escolha. Como eu tomei por 28 anos medicação de tarja preta, o meu médico achava que eu não ia conseguir parar. Ele falou que não é uma boa troca, eu acho que é. Eu sei que vai diminuir aí o meu tempo de permanência, mas é muito melhor para mim.”

“Lado mais solar”

Com boa parte de sua obra baseada nos traumas de infância, entre eles uma mãe que escondia um histórico de doença mental na família e o chamava de “retardado” e um pai que o agrediu até a adolescência, Mutarelli busca no projeto em que está trabalhando atualmente, o romance “Amores Expressos”, falar pela primeira vez do que chama de seu “lado mais solar”. Iniciado há oito anos, o romance é sobre uma história de amor em Nova York.

“É um livro muito trabalhoso, e eu trabalho só de vez em quando nele. Mas está indo. Falta cerca de um quarto para acabar, eu vou tentar terminar este ano ainda. Faz cinco anos que eu não lanço um livro. Tenho falado muito deste meu bairro aqui e nesse livro eu tenho que falar de Nova York, então eu quero muito acabar para poder voltar pra São Paulo e, principalmente, para meu bairro.”

E o que mais Mutarelli tem planejado para o futuro? Nem ele sabe. “Eu nunca tenho uma expectativa muito longa. Eu penso até janeiro, até fevereiro, se eu chegar lá. O que eu quero é continuar escrevendo. Quero acabar esse livro e fazer mais livros. Não tenho uma vontade de fazer nada diferente.”

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