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Musical em NY satiriza tradição com Shakespeare "popstar" e arrogante

Joan Marcus/Divulgação
Christian Borle, ao centro, que interpreta Shakespeare na peça "Something Rotten!" Imagem: Joan Marcus/Divulgação

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Nova York

05/09/2015 07h00

Há algo de podre no reino da Broadway que está atraindo o faro dos fãs de musicais desde abril deste ano, em Nova York. “Something Rotten!” é uma comédia que ironiza, ao mesmo tempo, esse gênero teatral e a genialidade de William Shakespeare. O título é uma referência à célebre frase da peça “Hamlet” - que diz que "há algo de podre no Reino da Dinamarca" -, mas também já deixa claro na porta do teatro que o que vem pela frente é esculhambação e muita gargalhada.

A reportagem acompanhou uma sessão do espetáculo no teatro St. James e pôde comprovar o que as críticas publicam: ninguém fica impune aos números musicais do espetáculo, e o afinadíssimo elenco é ovacionado ao final de cada apresentação.

Vencedor do Tony Awards pela performance do ator Christian Borle (no papel de um Shakespeare egocêntrico que vive como um popstar do Renascimento), “Something Rotten” conta a história dos irmãos Nick e Nigel Bottom (Bryan d’Arcy James e John Cariani). No ano de 1595, ambos são dramaturgos, mas não conseguem emplacar uma peça de sucesso devido à concorrência com Shakespeare.

Desesperado, Nick decide procurar a ajuda de um vidente para descobrir o que fará sucesso no teatro do futuro. O sensitivo responde: “Musicais!”

O primeiro a duvidar da previsão é Nick. E faz isso com uma frase que todo mundo já ouviu algum dia: “Quer dizer que o ator está falando seu texto e, do nada, começa a cantar?” “Sim! E por uma razão inexplicável o público adora.”

Joan Marcus/Divulgação
Os atores Brad Oscar e Brian d"Arcy James, em cena do musical "Something Rotten!" Imagem: Joan Marcus/Divulgação

Por e-mail, o dramaturgo John O’Farrell disse que, na verdade, todos esses clichês são usados de forma a responder a todas as perguntas do público que critica os musicais mostrando, por meio da história, como nasce um musical.

“É a perfeita introdução aos musicais porque ele localiza o ‘problema’ e faz piada daquilo. Além disso, a gente faz referência a outros musicais famosos e mistura isso com versos muito populares de Shakespeare, o que torna essa peça acessível a todo mundo. Fazemos citações de ambos os gêneros. O outro motivo pelo qual eu acho eu acho que esse musical pega o público é porque ele tem ótimas canções. E é isso que faz um musical sobreviver.”

“O maior elogio que eu recebo é quando uma pessoa diz para mim que nunca foi muito de musicais, mas que adorou ‘Something Rotten’. E tem gente que ama musicais que curte a peça por outras razões. Não importa qual seja o motivo, acredito que as pessoas se divertem porque elas percebem que elas também estão incluídas na piada. Agora, definitivamente é uma boa entrada para quem ainda não está preparado para ver algo como ‘Les Misérables’. ‘Something Rotten!’ é o treinamento que ele precisa”, complementa Wayne Kirkpatrick, que junto ao irmão Karey compôs todas as canções da peça.

Wayne, que já faturou diversos Grammys na categoria música do ano por sucessos como “Tears in Heaven”, de Eric Clapton, “Streets of Philadelphia”, de Bruce Springsteen, “Kiss from a Rose”, de Seal, e “My Heart Will Go On”, de Celine Dion, respondeu se foi muito difícil transformar Shakespeare em música.

“O maior desafio foi escolher quais textos deles usar. Como a gente não queria excluir as pessoas que não são iniciadas em Shakespeare, decidimos pelos hits. Então a maioria das citações são famosas, que todo mundo, mesmo quem não tem ideia de quem seja Shakespeare, conhece.”

Clichês de Shakespeare

Impossível assistir a “Something Rotten!” e não pensar o que Barbara Heliodora, a maior especialista em Shakespeare do Brasil, pensaria sobre o retrato do Bardo como um popstar arrogante e antiético ou, ainda, se veria com bons olhos a afirmação de que “ser ou não ser” não passa de um clichê bobo.

John O’Farrel comenta isso usando um clichê muito comum quando se diz que as peças do autor inglês ficaram datadas. “Acho que os temas e conflitos de Shakespeare são universais, mas o estilo de escrita e o tamanho dos textos não são para plateias modernas. Por exemplo, ‘Hamlet’ tem quatro horas de duração. Além disso, peças sobre a sucessão real são mais relevantes a uma audiência que vivia em uma época em que isso era a realidade. Mas quando digo que 'ser ou não ser' é um clichê isso só acontece porque Shakespeare alcançou o status que alcançou. Acho que se ele voltasse e assistisse à nossa peça, certamente acharia interessante.”

Wayne Kirkpatrick, o compositor, vai mais longe: “Tenho certeza de que ele poderia ter escrito um musical. Ele era muito bom de rima. Só acho que faria uma coisa mais compatível com as músicas da sua época, cheio de alaúdes”, brinca.
 

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