Livros e HQs

Livro reconta história das faquiresas que jejuavam seminuas entre serpentes

Carlos Minuano

Colaboração para o UOL

02/09/2015 16h27

Aquela história de 15 minutos de fama é algo levado bem a sério para as sensuais faquiresas. Por fama e ascensão social, elas passavam semanas sem comer, seminuas, em cima de pregos, e junto com assustadoras serpentes. E é o que o livro recém-lançado "Cravo na Carne" (editora Veneta) mostra sobre o universo trash dessas mulheres, verdadeiras celebridades no Brasil durante as primeiras décadas do século passado.

Muito antes da internet, e praticamente sem concorrência no mercado, bastava adicionar ao espetáculo uma pequena dose de erotismo para embalar a imaginação e a fantasia do público. De marmanjos a pirralhos, todos queriam dar uma espiadinha nas beldades, geralmente confinadas em urnas de vidro, em sumários biquínis ou fantasiadas de odaliscas.

Reprodução
Capa do livro "Cravo na Carne: Fama e Fome - O Faquirismo Feminino no Brasil", de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero Imagem: Reprodução

Um dos autores do livro, Alberto Camarero, 65, era um garoto de oito anos em 1958, quando em Campinas, no interior de São Paulo, foi fisgado pelos encantos de Verinha, uma dessas garotas. Não sossegou até encontrá-la, muitos anos depois, com o auxilio do xará, Alberto de Oliveira, 23. Trata-se da única faquiresa brasileira ainda viva que se tem notícia. E achá-la não foi nada fácil: foram três anos revirando na internet jornais e revistas da época. 

A estética marginal e a atitude subversiva das faquiresas não deixam dúvidas: elas sempre estiveram bem mais para o punk do que para o glamour. Em "Cravo na Carne", os autores contam a trajetória de 11 dessas mulheres, todas com um pé no absurdo. "As histórias são repletas de detalhes bizarros", avisa Oliveira. Praticamente todos os espetáculos acabavam mal e invariavelmente nem chegavam ao fim. Isso vale para mulheres e homens. "Na maior parte deles, faquires e faquiresas não resistiam à fome e aos suplícios, desistiam, fugiam ou sofriam crises, convulsões, desmaios, e eram retirados das urnas e levados para hospitais", comenta o autor.

Umas das personagens do livro, Marciana, foi flagrada se alimentando de madrugada em sua urna instalada na Penha, em São Paulo, em 1958. Outro exemplo é o da faquiresa Suzy King, que depois de 53 dias jejuando na galeria Ritz, em Copacabana, quebrou sua urna a marteladas e fugiu. Oliveira conta que em outra ocasião, depois de jejuar durante o mesmo período, ela foi retirada da urna e encaminhada para a delegacia, onde foi espancada sem maiores explicações.

No caso de Rossana, uma violenta crise de choro fez a menina desistir da prova depois de 20 dias, quando deveria jejuar durante 60 dias. Já a faquiresa Otamires, em São José do Rio Preto, em 1958, cansada da gozação do público, achou que estava ganhando muito pouco, se encheu e desapareceu, com o dinheiro.

A tragédia é outro ponto em comum nas histórias dessas mulheres. Rossana se suicidou, Yone foi assassinada pelo marido faquir, Marciana sequestrava criancinhas. Há histórias engraçadas também, como a da faquiresa Rose Rogé. Vítima da paixão de um padre que a desmoralizou, ela se tornou mendiga. Quando descobriu que passava fome muito bem, se tornou jejuadora.

Eessas artistas se exibiam não apenas ficando sem comer em público, mas algumas também incrementavam o domínio da arte do jejum sendo enterradas vivas abaixo do solo, dentro de caixões de madeira. Outras se deitavam sobre pregos ou cacos de vidro durante as exibições, sempre cercadas por serpentes. Mas sobre as cobras, anunciadas como venenosas, os autores dizem que paira a dúvida de que fossem apenas inofensivas jiboias.

Rainha do Bizarro

A campeã dos episódios bizarros é sem dúvidas a faquiresa Suzy King, que também dançava com cobras e tinha mais de 30 serpentes em seu pequeno apartamento em Copacabana. "A convivência com as cobras rendia muitos casos policiais por conta das fugas das serpentes no prédio em que ela morava e em hotéis em que se hospedava", comenta Oliveira. Em 1959, ela ganhou destaque no jornal "Folha da Manhã", mas por protestar nas ruas do Rio de Janeiro só de biquíni, contra uma fábrica de salsichas. A bronca era justificada. Segundo ela, a gororoba estragada havia matado uma de suas cobras.

Suzy King aprontou muitas outras. Uma vez desfilou seminua cavalgando de peruca loura pelo centro da capital carioca, para promover um espetáculo de faquirismo que realizaria na galeria Ritz, em Copacabana. Mas caiu do cavalo, literalmente, porque o público avançou contra ela. A faquiresa terminou totalmente sem roupa. Não foi a única vez que ela teve problemas com o público. Em suas provas de jejum, sempre alguém surgia atirando garrafas contra sua urna ou colocando bifes dentro dela para desmoralizá-la.

O autor conta que, anos depois, talvez cansada desse assédio, à beira de completar 50 anos, Suzy King, que na verdade, se chamava Georgina, se mandou do país. "Ela conseguiu uma certidão de nascimento falsa e passou a se chamar Jacuí Japurá, partindo então para o México e mais tarde para os Estados Unidos." Nos jejuns que as faquiresas realizavam, muita coisa bizarra acontecia, relata Oliveira. Em 1957, a imprensa noticiou que Yone jejuava em São Paulo, quando foi vítima de uma "quadrilha de macumbeiros". "Essa 'quadrilha' teria enviado uma mulher para rezar na frente da urna dela segurando uma pena preta, e por conta disso as cobras se revoltaram e Yone passou muito mal", conta Oliveira.

Avesso do avesso

Nada de beatniks, roqueiros, hippies ou punks. Para os autores de "Cravo na Carne", a contracultura no Brasil começou mesmo foi com as faquiresas. "Elas traziam em suas exibições e em suas atitudes uma estética completamente trash e underground, quando ainda não se falava explicitamente sobre nada disso, ainda mais no Brasil", ressalta Oliveira.

Em suas provas e na vida pessoal, as faquiresas viviam no avesso do avesso. Questionavam e rejeitavam praticamente todos os valores vigentes da sociedade da época. Transgressão é praticamente um sinônimo dessas mulheres. Desafiaram os limites do corpo, da mente e a natureza móvel do ser humano, permanecendo deitadas durante dias a fio. E, sobretudo, botaram abaixo a afirmação de que a mulher era o sexo fraco.

"Elas transgrediam a fome, a dor, a repulsa humana à serpente e o perigo dessa convivência, a suposta ordem divina de que a mulher e a cobra deveriam ser inimigas, a moral da época, se exibindo seminuas, enfim, elas questionaram o papel que era dado à mulher na sociedade", diz Oliveira.

A arte do jejum

A popularidade dos faquires começou nas últimas décadas do século 19, quando a arte do jejum se tornou famosa na Europa. O faquir italiano Succi se exibiu no Brasil em 1899, quando atrações exóticas e os circos de horrores também começaram a agradar por aqui. Segundo Oliveira, acredita-se que a primeira faquiresa do mundo, miss Nelson, se exibiu no ano de 1892, em Paris. No Brasil, a primeira mulher a jejuar em público, teria sido Rose Rogé, no Rio de Janeiro, em 1923.

O livro "Cravo na Carne" mostra as várias fases do faquirismo no Brasil, que durou até o início dos anos 60, embasado por trechos de reportagens, cartazes de espetáculo e fotos. "Uma série de mudanças culturais e políticas fez com que esse gênero de arte perdesse o espaço por aqui, assim como o teatro de revista e o próprio circo". Uma das últimas exibições, segundo Oliveira, foi a do faquir Silki, em São Paulo. "A partir de então, o faquirismo praticamente se extinguiu", lamenta o autor.

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