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Ator soropositivo transforma história pessoal em espetáculo de teatro

João P. Teles/Divulgação
O ator, diretor e dramaturgo Gabriel Estrëla Imagem: João P. Teles/Divulgação

Miguel Arcanjo Prado

Do UOL, em São Paulo

19/08/2015 06h00

Aos 23 anos, o ator Gabriel Estrëla tomou uma decisão: revelou, em uma rede social, ser portador do vírus HIV havia cinco anos. Estudante de artes cênicas da UnB (Universidade de Brasília), ele resolver transformar sua experiência em teatro e lançou o projeto do espetáculo "Boa Sorte", no qual pretende tratar a doença sem preconceito.

O título é inspirado na música homônima cantada por Vanessa da Mata e Ben Harper, que ele ouviu no laboratório, enquanto aguardava o resultado --positivo-- de seu teste de HIV. Os versos "é só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte" que soavam no alto-falante da sala de espera pareceram premonitórios e nunca mais saíram da cabeça dele.

Estrëla conta que a decisão de se abrir publicamente surgiu de "uma necessidade de compartilhar o que estava passando". Para o ator, aquela revelação poderia ajudar outras pessoas que, como ele, foram surpreendidas com um resultado positivo e que precisam lidar com isso.

O ator afirma que houve quem se manifestasse contra ele compartilhar sua condição de soropositivo, mas que teve o apoio do namorado, Gabriel Martins, que não tem o vírus e é seu braço direito no projeto "Boa Sorte". "Ele, soronegativo, tem uma sensibilidade para o HIV que eu, depois de cinco anos vivendo com o vírus, ainda não tenho", diz Estrëla.

Estrëla recebeu centenas de mensagens de apoio à sua coragem. "Aos pouquinhos, as pessoas saíram da toca, vieram conversar comigo, contar algumas histórias, isso é um passo muito importante. Só cheguei a contar para o mundo porque antes, aos pouquinhos, ia contando para as pessoas à minha volta".

A cantora Vanessa da Mata também ficou sensibilizada com a história. Ela recebeu o ator em seu camarim, após um show em Brasília no mês passado, e posou ao lado de Estrëla. "Ela foi muito atenciosa. Mesmo na correria de fim de show, me recebeu no camarim, ouviu o que eu tinha a dizer com muito carinho e levou para a casa o projeto da peça".

João P. Teles/Divulgação
O ator, diretor e dramaturgo Gabriel Estrëla Imagem: João P. Teles/Divulgação

Os artistas também abraçaram a ideia. O musical, escrito e dirigido por Estrëla, recebeu 120 incritos para as audições, dos quais dez foram escolhidos por ele para a primeira temporada de ensaios, a partir da qual selecionará os cinco integrantes do elenco final.

O musical terá o clima intimista da MPB, famosa pelo banquinho e o violão do show de barzinho. Estrëla quer fazer um espetáculo "ao pé do ouvido", próximo do espectador. Até o final de outubro, quando deverá acontecer a estreia em Brasília, ele vai se concentrar nos ensaios do musical, com o qual pretende viajar pelo Brasil, caso consiga patrocínio.

HIV e arte

Nomes que também precisaram conviver com o HIV em tempos muito mais sombrios --como os cantores Cazuza, Renato Russo e Freddie Mercury e os escritores Michel Foucault e Caio Fernando Abreu-- são referências para Estrëla, sobretudo por terem dialogado com a doença com suas artes, assim como ele faz agora.

"Não podemos negar o peso do vírus na obra deles, independentemente do que falavam sobre o assunto. Lança a questão, entende? Quanto de vírus há nesta canção? Quanto desse pensamento é Foucault? Quanto dele é HIV? É difícil mensurar o impacto do vírus em nossas vidas e naquilo que produzimos", afirma o artista nascido em Goiânia, mas que mora em Brasília desde os três anos.

Gabriel Estrëla

  • É importante poder contar com alguém em momentos de crise, poder aos pouquinhos rir da situação, encontrar graça, leveza. Somos pessoas, a gente chora hoje, mas ri amanhã. O vírus continua. E daí?

Além do espetáculo, Estrëla ainda se aproximou do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids) e do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Ele conta que estar perto dos projetos lhe ajudou a "abrir os olhos para o quanto a epidemia é complexa no Brasil".

Por isso, afirma que é preciso tratar a doença com mais naturalidade, para que as pessoas que convivem com o HIV/Aids não precisem se esconder devido ao preconceito. "Falar a respeito é importantíssimo para o tratamento. Não ter de esconder consultas, exames, remédios pode facilitar demais a vida dessas pessoas".

Para Estrëla, é preciso encarar a doença de cabeça erguida. "É importante poder contar com alguém em momentos de crise, poder aos pouquinhos rir da situação, encontrar graça, leveza. Somos pessoas, a gente chora hoje, mas ri amanhã. O vírus continua. E daí?".

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