Livros e HQs

Com Iracema gay, escritor de 17 anos cria "Jogos Vorazes" do Brasil colônia

Divulgação
Gabriel Damasceno criou a saga "Nita Cairu" inspirado na história do Brasil Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

17/08/2015 10h22

Esqueça o futuro distópico de Panem, país fictício da saga “Jogos Vorazes”. Segundo um cearense de apenas 17 anos, o grande jogo aconteceu mesmo na época do Brasil Colônia e a grande heroína foi uma índia.

Gabriel Damasceno surpreendeu o mercado editorial ao lançar por conta própria sua trilogia fantástica, protagonizada por índios e seres mitológicos. Comercializados em e-book pela Amazon, os dois primeiros livros da saga surreal, “Nita Cairu e a Espada de Gohayó” e “Nita Cairu e a Poção do Híbrido”, já somam 3 mil exemplares vendidos. Ambos os livros entraram na lista dos mais vendidos na categoria fantasia do site --incluindo vendas nos Estados Unidos e Alemanha.

Personagem principal, a índia Nita Cairu é uma das participantes de um torneio do mundo virtual, disputado por representantes das capitanias brasileiras do século 16. Gabriel conta que a inspiração chegou aos 15 anos, mas passou longe de “Jogos Vorazes”. “Vem das aulas de história, da mitologia nórdica e egípcia”, garante. “Antes de ler e assistir aos filmes, eu já tinha pensando nesse torneio”.

Nem todos os participantes do torneio saíram de sua cabeça. No segundo volume, Gabriel traz personagens clássicos que se tornaram familiares quando criança, como o sábio Visconde de Sabugosa, das obras de Monteiro Lobato, e Iracema, de José de Alencar.

A homenagem lhe rendeu críticas, principalmente no caso de Iracema. Representante da capitania do Ceará, a “virgem dos lábios de mel” tem um romance com outra índia na história. 

“Algumas pessoas reagiram de maneira radical, conservadora. Pessoas religiosas ao extremo e outras que diziam que eu tinha acabado com a obra do José de Alencar e que ele estaria se revirando no caixão”, conta. A mãe, sempre incentivadora, pendeu para o mesmo lado após o segundo livro. “Digamos que ela não gostou muito, mas é apenas um romance paralelo”.

Nita Cairu e a Poção do Híbrido

  • Reprodução

    Iracema e Araci despediram-se de Nita. A jovem ficou observando as duas saírem, espreitando na entrada da oca. As duas trocavam sorrisos carinhosos. Os olhares cintilantes. Araci estava mais acanhada. Os corpos estavam próximos (...) As mãos de Iracema faziam um leve carinho nas costas de Araci. Depois de alguns segundos, as duas se soltaram. (...) Nita observou tudo de longe, de início ficou assustada. A jovem recolheu-se em sua oca. Aquele gesto que acabara de ver fortaleceu ainda mais a saudade que sentia de Vicente. O amor está no ar, então agarre-o

    trecho de "Nita Cairu e a Poção do Híbrido", de Gabriel Damasceno
Gabriel explica que o romance lésbico foi inspirado em estudos que mostram que as portuguesas da época também tinham relações com as índias. “Sempre admirei Iracema pela beleza, pelo jeito como Alencar a descreve. Quis colocar uma Iracema mais moderna. Por que uma índia não pode ser lésbica?”, rebate.

A escolha do romance revela certo ativismo precoce, principalmente após se mudar de Quixadá, no sertão cearense, sua terra natal (e a da escritora Rachel de Queiroz), para São Paulo, no ano passado. “Eu abri minha mente. Na época, estavam discutindo muito isso, era época da Parada Gay, vi a necessidade de mostrar que isso está cada vez mais comum e que deve ser respeitado”, argumenta.

Fora de seu mundo fantástico, Gabriel diz que doa cerca de 30% das vendas ao Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT no Rio de Janeiro.

“Imortal”
Com apenas 17 anos, Gabriel já é um “imortal” -- pelo menos em Quixadá . Ele é o mais novo dos escritores da Academia de Letras da cidade, onde ocupa a 25ª cadeira. Prestes a completar 18 anos, ele avalia que seu maior feito foi mostrar que é “possível produzir livros em casa e ganhar reconhecimento sem editora”.

A experiência agradou tanto que Gabriel já começou a escrever um novo livro (fora da trilogia), usando a plataforma Wattpad, uma das muitas comunidades virtuais para compartilhar escritos.

“Meu público é muito do digital e essas plataformas abrem muitas portas. Tem gente que sobrevive só escrevendo para a Amazon, por exemplo. Seria muito bom sobreviver disso”, torce, sem deixar de lado planos mais conservadores: “quero ir à Bienal do Rio de Janeiro este ano”.

Estudando ciência da computação em São Paulo, pensando em uma carreira mais segura, ele diz que não vai desistir de sua saga. “Creio que pode ser um acréscimo para a história do Brasil”, observa.

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