Livros e HQs

Ler ou não ler o best-seller "Vá, Coloque um Vigia"? Entenda a questão

Joe Raedle/Getty Images/AFP
Exemplares de "Vá, Coloque um Vigia" ("Go Set a Watchman", no original em inglês), da autora Harper Lee, são expostos em uma livraria norte-americana Imagem: Joe Raedle/Getty Images/AFP

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

22/07/2015 10h08

Não se fala em outra coisa –ao menos nos Estados Unidos. Fenômeno editorial da escritora Harper Lee, o romance "Vá, Coloque um Vigia" vem fazendo barulho desde o lançamento, na última semana. O livro perdido da autora de "O Sol É para Todos" (1960), clássico que virou filme de Hollywood nos anos 1960, vendeu 1,1 milhão de exemplares apenas na primeira semana.

O novo romance obteve a façanha de desbancar “Grey”, da série erótica “Cinquenta Tons de Cinza”, além de bater o recorde de vendas para um livro de ficção voltado a adultos, que antes pertencia a "O Símbolo Perdido" (2009), de Dan Brown, fazendo livrarias fervilhar até a madrugada.

Com pré-venda prevista para as próximas semanas, a versão em português do livro provavelmente não será a mesma coqueluche em terras brasileiras. São várias as razões. A principal delas: poucos por aqui sabem quem é Harper Lee, ganhadora do prêmio Pulitzer em 1961 com sua única obra publicada até 2015. Mas talvez passem a conhecer agora, já que uma nova reedição de "O Sol É para Todos" entrou na lista dos livros mais vendidos logo após o lançamento.

Além da curiosidade literária, existem muitos motivos para se ler a nova obra, e tantos outros para simplesmente ignorá-la. O UOL selecionou alguns deles. Veja abaixo.

POR QUE LER "VÁ, COLOQUE UM VIGIA"

Reprodução
Cena do filme "O Sol É Para Todos" Imagem: Reprodução

1. Tema atual
Assim como “O Sol É para Todos", "Vá, Coloque um Vigia” ("Go Set a Watchman", no original em inglês) tem como pano de fundo o racismo e a intolerância, retratando um negro acusado injustamente de estuprar uma jovem branca. Escrita nos anos 1950, a história casa bem com os tempos atuais, tão marcados por casos de extremismo político e mesmo de comportamento. Vide os recorrentes casos de suspeitos de crimes que sofrem linchamentos à luz do dia.

2.  Conhecer a importância da autora
Com apenas dois livros publicados até hoje, a americana Harper Lee pode não ter a relevância dos conterrâneos Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Truman Capote –do qual, inclusive, foi assistente–, mas tem sua importância cravanada na literatura dos EUA. E não só nela. Além de ter escrito um  clássico do século 20, a autora também tem sua trajetória ligada à luta pelos direitos civis. No cinema, já foi interpretada por Catherine Keener, em “Capote”, e Sandra Bullock, em “Infamous”.

3. Familiarizar-se com o universo do filme “O Sol É para Todos”
Dirigido por Robert Mulligan, “O Sol É para Todos” é considerado um dos grandes filmes do início dos anos 1960, um clássico das histórias de tribunal. Contada sob a ótica da menina Scout, a trama é focada no pai dela, o advogado Atticus Finch, que defende um negro erroneamente acusado de estupro. Unanimidade entre os críticos, ganhou três Oscar em 1963: melhor ator (Gregory Peck), melhor roteiro adaptado e melhor direção de arte em preto e branco.

4. Um sopro de literatura entre best-sellers
Nada de vampiros, bruxos, “soft porn” ou mistérios escondidos no Vaticano. "Vá, Coloque um Vigia" é um sopro de literatura clássica no universo dos best-sellers da atualidade. Traz um texto elegante, com pano de fundo histórico. Combinação que, segundo a crítica internacional, deu origem à uma obra atual, perturbadora e  atraente, respeitando a inteligência do leitor.

POR QUE NÃO LER

Penny Weaver/AP Photo
Em foto de 2010, a escritora Harper Lee recebe a atriz Mary Badham, que interpretou no cinema a narradora de "O Sol É para Todos" Imagem: Penny Weaver/AP Photo

1. Realidade americana
"Vá, Coloque um Vigia” se passa na fictícia Maycomb, no Estado do Alabama. Já foi descrita como uma perfeita introdução ao tema dos direitos civis e da luta pela igualdade racial. Mas, apesar do tema universal, traz um recorte datado e específico dos Estados Unidos: o antagonismo histórico entre os “senhores do Sul” do país, escravocrata, e a mentalidade desenvolvimentista da região Norte.

2. Decepção com o protagonista
O novo livro de Harper Lee não escapou de polêmicas. O nobre advogado Atticus de “O Sol É para Todos”, que virou herói nacional, batizou uma geração de bebês e serviu de mote para escritórios de advocacia, na verdade não passa de um sujeito racista. A reviravolta na história, que se passa nos anos 1950, 20 anos após a primeira, é ainda mais surpreendente considerando que "Vá, Coloque um Vigia” foi escrito antes do livro de 1960. Para alguns críticos, a mudança de personalidade é errônea e não faz sentido.

3. Suposto livro não autorizado
Após o anúncio do novo livro de Harper Lee, Charles Shields, seu principal biógrafo, afirmou que a autora, hoje aos 89 anos e vivendo em um asilo, já não estaria em “condições de oferecer consentimento para a publicação de nada”, dando a entender que ela, em frágil condição de saúde desde que sofreu um AVC em 2007, foi manipulada por editores. Um órgão do Estado do Alabama que previne fraudes contra idosos investigou o caso, concluindo que Harper lançou a obra por vontade própria. Boa parte dos leitores ainda duvida.

4. Melhor ler o primeiro
Para os neófitos, faz mais sentido esquecer "Vá, Coloque um Vigia” e ir direto a “O Sol É para Todos". Nele, é possível observar o início do desenvolvimento da filha do protagonista, mostrada ainda como uma criança, dona de uma ingenuidade tocante que serve como grande sacada narrativa de Harper Lee. Algo inexistente na segunda obra. Só o tempo dirá se "Vá, Coloque um Vigia” poderá de fato se tornar um clássico.

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