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Vovós de 64 a 92 anos participam de projeto e viram grafiteiras em Portugal

Estefani Medeiros

Do UOL, em Berlim (Alemanha)

29/05/2015 06h00

Nem tricô, nem bordado. O passatempo que tem conquistado um grupo de senhoras portuguesas é grafitar muros. O projeto Lata65, da arquiteta Lara Seixo Rodrigues, ensina e motiva aposentados de idades entre 64 e 92 anos a encontrar um estímulo criativo na arte de rua, em Portugal. Após três anos de existência, o projeto já formou sua primeira grafiteira: Luísa Cortesão, 64 anos.

A médica aposentada de Lisboa participou de seu primeiro workshop do Lata65 depois de uma indicação da filha. “Ela sabia que eu prestava atenção nos grafites [que via nas ruas] e que gosto de desenhar. Antes da aposentadoria, não poderia. Mas em 2011 já tinha tempo de sobra, e achei uma ideia interessante”, conta em entrevista ao UOL.

Com ajuda do estêncil, técnica que aprendeu na oficina, Luísa gosta de ilustrar ditados portugueses. Suas “bruxinhas arrumadinhas”, magos e fadas, que surgiram como ícones e GIFs animados, agora ganham uma nova vida nas paredes e comentários encorajadores no Facebook. “A Luísa despertou para um estilo muito próprio, nosso logotipo foi ela quem fez”, comenta Lara. “Ela fez o primeiro workshop em 2012 e nunca mais parou, recorta os moldes e vai para a rua pintar sozinha.”

Além do grafite, a aposentada conta que tem outros hobbies. “Sempre gostei de fazer coisas. Gosto de trabalhar no jardim, de fazer um pouco de carpintaria, por exemplo. Fiz uma casa de bonecas bastante completa para as netas. Recomecei a desenhar quando comprei o primeiro computador Mac, isto no princípio do século”, conta. “Nessa altura, aproveitava os bocadinhos de tempo que sobravam para desenhar ícones para o desktop.”

"Uma das coisas que a fazem viver"

A fama do projeto Lata65 lhe rendeu um encontro com a famosa fotógrafa americana Martha Cooper, 75 anos, que, desde a década de 1980, registra o crescimento da arte de rua em diferentes cidades do mundo e também clicou as intervenções de Luísa. “Ela (Martha) não conhecia ninguém que tinha começado a pintar na rua tão tarde. A verdade é que a Luísa há mais de dois anos pinta na rua. Ela diz que é uma das coisas que a fazem viver, passar os dias, fazer desenhos, levar as netas para a rua. Ela sempre teve muita curiosidade”, conta a idealizadora do Lata65. 

A arte de rua mantém Lara e Luísa, que têm 30 anos de diferença, unidas por uma paixão em comum. “Conheci a Lara no primeiro workshop do Lata65. A vejo com alguma frequência e gosto muito dela. Mas sobretudo admiro a força e persistência com que leva os projetos avante”, diz L*, como assina seus grafites nas ruas. Além do Lata65, Lara é a responsável pelo festival Wool e o projeto Mistaker Maker, que têm dado projeção à arte de rua em Portugal.

Lara

  • Reprodução/Facebook

    Falamos sobre motivação. É sempre engraçado, porque eles adoram pintar, mas no começo não querem pintar na rua porque parece ruim. Dizem que não são talentosos. Damos algumas sugestões, e eles ficam horas e horas pensando. É legal quando percebem que uma coisa que acham ruim e suja, na verdade não é. Há uma distinção, e é muito engraçado nisso

    Lara Seixo Rodrigues, arquiteta que criou o Lata65

As oficinas do Lata65 duram quatro dias e ensinam história do grafite, técnica, motivação e ação. “Falamos sobre a história, como o grafite surgiu, como chegou à Europa. Sobre técnicas, o papel dele no espaço urbano. Eu acho que essa parte é muito importante, e o feedback deles [dos idosos] também nos diz isso”, explica a mentora. “Primeiro, surge a ideia, ensinamos a usar o estêncil e levamos para a experiência na parede. Da teoria à prática, passamos por tudo que uma pessoa precisa para ir à rua. Eles começam a achar mais bonito também, veem que não é um ato de brilhantismo, passam a valorizar os trabalhos dos artistas.”

O Lata65 disponibiliza todo o material gratuitamente, das tintas e papéis às luvas e máscaras (que previnem problemas de saúde que possam ser causados pela tinta química do spray). Em troca, os grafiteiros da terceira idade recebem entusiasmo e disposição. “O primeiro grupo tinha a idade média de 74 a 92 anos, com algumas pessoas que já têm alguma dificuldade de mexer os dedos, mas eles fazem tudo. Mesmo a lata, usar a lata é difícil às vezes, e para eles é como se não fosse nada.”

Para a arquiteta, o principal desafio é mostrar a arte urbana além do senso comum. “Falamos sobre motivação. É sempre engraçado, porque eles adoram pintar, mas no começo não querem pintar na rua porque parece ruim. Dizem que não são talentosos. Damos algumas sugestões, e eles ficam horas e horas pensando. É legal quando percebem que uma coisa que acham ruim e suja, na verdade não é. Há uma distinção, e é muito engraçado nisso.

Na última semana, o projeto ganhou projeção internacional. Lara espera que isso traga mais incentivos e voluntários para o Lata65. Atualmente, o Lata65 depende de editais do governo e paredes doadas para continuar. “Sofremos dificuldades por viver em um sociedade que não valoriza os idosos, não existe interesse em gerar qualidade diária na vida dos idosos. Já aconteceu de nos convidarem para um asilo, e lá vimos que muitos deles não têm nenhum estímulo criativo, ficam a jogar cartas, dominó.”

Interação com as comunidades

Há quase cinco anos trabalhando para fomentar a arte urbana em Portugal, Lara diz que já percebe mudanças em comunidades por onde passa. Além dos festivais itinerantes que promove, o Lata65 visita cidades pequenas e muitas vezes campestres, com maioria da população idosa. O plano é que no verão visitem pelo menos mais 12 freguesias portuguesas. “O primeiro dia de ação é de total estranheza. Nos perguntam: ‘O que vocês estão fazendo? O que vão estragar?’. No outro já estão acostumados. Há pessoas que optam por não contar o que vão fazer, chamam o artista, ele faz e vai embora, depois eles passam tinta na parede. Para mim, o importante é o processo.””

Luísa

  • Luísa Cortesão/Flickr

    Lisboa está cheia de murais autorizados e apoiados por instituições públicas e privadas. Entretanto, as intervenções ilegais, algumas excelentes, são sistematicamente apagadas. Não é fácil ter uma opinião definitiva, mas é divertido estrear uma parede recém-pintada

    Luísa Cortesão, médica aposentada e grafiteira

Depois de algum tempo, os moradores criam uma relação com a parede grafitada. “O que percebemos nos dias em que trabalhamos é que existe uma criação de comunidade. Aquela peça será abraçada pela comunidade, é um patrimônio comunitário. As pessoas vão lhe contar as histórias das peças, vão lhe falar sobre os artistas, porque conviveram diretamente com eles”, conta. “E para nós é muito bom, temos resultados. A primeira edição do Festival de Arte de Covilhã [cidade portuguesa na região da Serra da Estrela] foi há quatro anos, e ninguém mexe nas peças. Realmente existe essa sensação de patrimônio. De outro lado é interessante ver que os próprios artistas entram e começam uma conversa com a comunidade.”

Parede recém-pintada

Luísa, agora grafiteira, lamenta que alguns murais sejam apagados em sua cidade. “Lisboa está cheia de murais autorizados e apoiados por instituições públicas e privadas. Entretanto, as intervenções ilegais, algumas excelentes, são sistematicamente apagadas. Não é fácil ter uma opinião definitiva, mas é divertido estrear uma parede recém-pintada.”

Hoje, também já formou sua opinião sobre o grafite, apesar de não se considerar artista: “Há arte de rua e arte de rua. Coisas lindas e coisas feíssimas. Mensagens interessantes que fazem pensar e outras nem tanto. Por isso gosto muito, pouco ou não gosto. Mas artistas de rua a fazer publicidade para marcas, então, disso é que não gosto mesmo nada”, diz.

Se já precisou fugir da polícia? L* diz que sim, mas não como parece. “Fugi muitas vezes da polícia, mas isso foi no tempo da ditadura, antes de 1974. Mas não estou livre de voltar a fugir, apesar da minha idade”, comenta. Sua motivação hoje é diferente. “Os tempos seguem difíceis, e não há muitas razões para sorrir. Então, se um estêncil meu despertar um sorriso, já fico contente.”