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Desconhecido por aqui, artista brasileiro definiu imagem dos ETs na ficção

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

05/05/2015 07h00Atualizada em 07/05/2015 11h05

Tão impressionante quanto as ilustrações do artista brasileiro Henrique Alvim Corrêa é a sua história de vida. Os desenhos, feitos por ele no início do século 20 para a edição em francês do livro "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, estão sendo leiloadas em Beverly Hills, em Los Angeles, na Califórnia, com lance inicial de US$ 10 mil pela Heritage Auctions, a terceira maior casa de leilões do mundo (veja as obras na galeria acima). 

Reprodução
Pôster promocional edição belga de "A Guerra dos Mundos" Imagem: Reprodução
Nascido no Rio de Janeiro em 1876, Corrêa mudou-se para a Europa aos 16 anos com sua família após a proclamação da República no Brasil, pois seu padrasto, o barão de Oliveira Castro, era monarquista. Jovem, ele foi morar na boêmia e efervescente Paris do final do século 19, onde passou a desenhar cenas de batalhas militares (na época, a imprensa quase não usava fotografias) e mulheres seminuas em poses sensuais, tendo como modelo sua futura mulher, a francesa Blanche Alvim Corrêa. Ele assinava essas gravuras com o nome artístico de Henry Le Mort. 
 
Apaixonado por Blanche, Corrêa desafiou sua família ao casar-se com a francesa, já que os parentes não aceitavam a união. Após o casamento, eles se mudaram para Bruxelas, na Bélgica. Lá, Corrêa leu o livro "A Guerra dos Mundos" e ficou impressionado com a história da invasão alienígena.
 
Em seguida, Corrêa entrou em contato com H.G. Wells e se ofereceu para ilustrar o livro. O escritor britânico ficou impressionado com os desenhos do brasileiro e o convidou para ilustrar a edição de luxo em francês da obra, publicada na Bélgica. Considerado o marco inicial da ficção científica, o livro narra a invasão da Terra por marcianos. A edição belga é uma raridade disputada por colecionadores, daí o alto preço cobrado por essas ilustrações no leilão da Heritage Auctions.
 

Sergio Nepomuceno Alvim Corrêa

  • Se você observar suas obras, verá que os desenhos inspiraram o imaginário popular sobre o que é um alienígena e seus discos voadores", disse. "E tudo foi feito no início do século 20, com os tripés ou tripods metálicos (veículos dos marcianos) atacando com 'raios carbonizadores' a Londres da época

    Sergio Nepomuceno Alvim Corrêa, neto de Henrique Alvim Corrêa
 
As obras que estão sendo leiloadas pertencem a Ana Maria Bocayuva de Miranda Jordão, 77 anos, dona da livraria Sebo Fino, no Rio de Janeiro, que comprou os originais da família de Corrêa em 1990. O genro de Ana Maria, Stefan Gefter, 44 anos, que é americano, conversou com o UOL, por telefone, dos Estados Unidos, onde mora e onde as obras estão. "Veja só a ironia. Minha sogra é neta de Quintino Bocayuva (que foi um importante líder para a Proclamação da República no Brasil), enquanto a família de Corrêa deixou o país após a deposição do imperador", explicou. 
 
A edição de luxo em francês, publicada em 1906, teve tiragem numerada de apenas 500 exemplares. Com cem gravuras de Corrêa, o livro foi vendido na época por 60 francos. Uma edição semelhante foi lançada em português no Brasil pela editora Nova Fronteira em 1981. De acordo com Stefan, o leilão venderá separadamente 31 ilustrações  "hors-texte" (gravuras separadas do livro), do total de 32 (uma delas se perdeu). "O livro tem mais de cem ilustrações, mas elas dividem as páginas com os textos. Apenas 32 delas preenchem uma página inteira", explicou Stefan. Além das gravuras, também serão leiloados um pôster promocional e uma carta postal enviada por H.G. Wells para Alvim Corrêa. 
 
 
Stefan disse que vender as obras é "de partir o coração", já que ele é fã de ficção científica. "Espero que o comprador adquira todas as ilustrações", diz ele. Sua preocupação é válida, já que as obras estão sendo vendidas separadamente e, se ninguém der um lance alto o suficiente para bancar o pacote completo, a coleção será dividida entre diversos compradores. "Meu sonho é ver as obras em algum museu ou biblioteca para serem apreciadas publicamente", conclui. 
 
Soraia Cals, dona de uma casa de leilões no Rio de Janeiro, vendeu 11 gravuras e desenhos de Henrique entre 2003 e 2010. Ao UOL, ela disse que o artista ficou conhecido por seu trabalho na ficção científica. "Ele foi um excelente desenhista, mas deixou o Brasil muito cedo. Eu já vendi 20 mil itens diferentes, mas dele eu só consegui vender 11", conta. "O que faz o preço do artista é a importância e a raridade de suas obras. E isso o Henrique tem", completa. 
 
Como exemplo, Soraia cita duas obras de Corrêa --que não são as ilustrações da "Guerra dos Mundos"--, vendidas por ela em 2007 por R$10 mil e R$ 5 mil. "Porém, a obra dele não remete em nada ao Brasil. Corrêa não foi influenciado por nossa cultura, como Portinari ou Di Cavalcanti. Ele poderia ter sido belga, francês ou alemão, ou qualquer artista que tivesse nascido na Europa daquela época. Uma arte semelhante à dele é a do francês Gustave Doré."
 
Família de artistas
 
Acervo Pessoal
O bisneto e o neto de Henrique Alvim Correa Imagem: Acervo Pessoal
Passados 105 anos da sua morte, Henrique Alvim Corrêa ainda é pouco conhecido no Brasil, embora sua arte continue sendo valorizada no exterior, principalmente por ser bastante rara. As últimas grandes exposições sobre o artista no Brasil ocorreram nas décadas de 70 e 80 e, desde então, pouco se falou sobre ele por aqui. 
 
Corrêa, no entanto, viveu pouco. Em 1910 contraiu tuberculose e morreu em Bruxelas, aos 34 anos e quase sem dinheiro. O corpo foi posteriormente transportado para o Brasil e está enterrado no Rio de Janeiro. Em 1942, parte de sua obra também foi trazida para o país, mas o navio que a transportava afundou após ser torpedeado por um submarino nazista no oceano Atlântico em plena Segunda Guerra Mundial. O artista deixou dois filhos, Eduardo e Roberto.
 

Soraia Cals

  • Porém, a obra dele não remete em nada ao Brasil. Corrêa não foi influenciado por nossa cultura, como Portinari ou Di Cavalcanti. Ele poderia ter sido belga, francês ou alemão, ou qualquer artista que tivesse nascido na Europa daquela época. Uma arte semelhante à dele é a do francês Gustave Doré.

    Soraia Cals, dona de casa de leilões
 
 
Seu neto, Sérgio Nepumoceno Alvim Corrêa, 84 anos, filho de Eduardo, foi diretor da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira e crítico musical no Rio de Janeiro. Ao UOL, Sérgio contou que o avô foi uma pessoa "visionária".
 
"Se você observar suas obras, verá que os desenhos inspiraram o imaginário popular sobre o que é um alienígena e seus discos voadores", disse. "E tudo foi feito no início do século 20, com os tripés ou tripods metálicos (veículos dos marcianos) atacando com 'raios carbonizadores' a Londres da época". 
 
O bisneto de Corrêa, Carlos Augusto Soares Avim Corrêa, 50 anos, também falou com o UOL. "O remake que Steven Spielberg fez em 2005 de ‘A Guerra dos Mundos’, com Tom Cruise, mostra os aliens e os tripods bastante semelhantes aos desenhos feitos pelo meu bisavô", destacou. Carlos lembrou ainda que Corrêa ficou amigo de H.G. Wells. "A edição brasileira da Nova Fronteira, traz uma caricatura de Wells feita pelo meu bisavô", lembra. 
 
Wells e Corrêa também trocaram cartas elogiosas. Em uma delas, que também está sendo leiloada, o escritor felicita o brasileiro pelo resultado das ilustrações. O site de leilões informa ainda que as desenhos foram exibidos em 2004 no Hall da Fama do Museu de Ficção Científica de Seattle, nos Estados Unidos.
 
Reprodução
Reprodução da carta enviada por H.G.Wells para Henrique Alvim Corrêa Imagem: Reprodução

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