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Antes rechonchudos, cantores de ópera já são geração saúde e exibem corpão

Luna D'Alama

Do UOL, em São Paulo

28/04/2015 06h00

A imagem consagrada de cantores de ópera bem acima do peso, com bochechas coradas e passos lentos ficou para trás. A nova geração de artistas líricos não lembra em nada a aparência da soprano espanhola Montserrat Caballé, 82 anos, e já apresenta um belo corpo junto com a voz afinada.

“A cobrança da sociedade em relação à obesidade é muito grande, em todas as áreas, incluindo as artes, a ópera. Isso também tem sido algo positivo, pois estamos em busca de uma melhor qualidade de vida, de uma alimentação mais saudável, e aí a perda de peso é inevitável”, diz a cantora lírica mineira Edna D’Oliveira, 48 anos, que tem 71 kg em 1,66 m de altura. Para não sair de forma e ainda perder a “barriguinha persistente”, Edna faz caminhadas e musculação todos os dias.

O reflexo de todo o esforço da “geração saúde” de cantores líricos pode ser visto na prática. Com 22 kg a menos, a mezzo-soprano carioca Adriana Clis, 40 anos, deixou nas fotos antigas os papéis de coadjuvante, “da irmã” da protagonista, e interpretou a personagem-título de “Carmen”, de Bizet. “Esse é cada vez mais o physique du rôle [físico adequado para o papel] da mocinha, ela tem que ser bonita, muito bem apresentável. Grandes cantoras que não prestam atenção nisso acabam perdendo trabalhos”, destaca Adriana, que emagreceu tudo em apenas seis meses, há um ano, e hoje exibe 72 kg em 1,75 m.

Foi justamente esse risco de perder bons papéis que, em 2004, se tornou realidade para a famosa soprano americana Deborah Voigt, demitida da Royal Opera House de Londres por seu excesso de peso. O caso gerou grande repercussão no mundo da ópera, e a cantora acabou sendo recontratada. Mas não sem antes passar por uma mudança radical: Deborah fez uma cirurgia de redução de estômago, perdeu mais de 60 kg e, em 2008, estreou na pele da personagem para a qual havia sido recusada – a protagonista de "Ariadne em Naxos", de Richard Strauss. Assim, Deborah pôde finalmente usar o vestido preto que não entrou nela quatro anos antes. Todas as memórias da cantora sobre sua carreira e transformação pessoal estão no livro autobiográfico "Call Me Debbie: True Confessions of a Down-to-Earth Diva" ("Chame-me Debbie: Confissões Realistas de uma Diva com os Pés no Chão"), lançado em janeiro.

Adriana Clis

  • Facebook/Divulgação

    Esse é cada vez mais o physique du rôle [físico adequado para o papel] da mocinha, ela tem que ser bonita, muito bem apresentável. Grandes cantoras que não prestam atenção nisso acabam perdendo trabalhos

    Mezzo-soprano carioca Adriana Clis, 40 anos

Para Adriana, a perda de peso não teve a ver com a profissão em si, mas com uma questão de saúde e para ela se sentir mais bonita. Mas os resultados da reeducação alimentar e de uma rotina de exercícios aeróbicos e musculação foram vistos também na carreira. “O problema todo é manter o corpo, mas hoje pratico muay thai, sou rata de academia. E abri mão das refeições à noite, o que é muito comum entre os cantores de ópera, pois sempre tem uma festinha depois da peça, aí você dorme com a barriga cheia, rezando para não ter refluxo e prejudicar a voz”, diz a mezzo-soprano.

A recepção do público em relação a seu novo peso foi ótima, revela Adriana. “As pessoas só têm elogios. Quando perguntam a minha profissão, muitos estranham, porque logo imaginam alguém gordo. Além disso, os diretores cênicos hoje pensam muito mais em teatro que apenas na voz, estão cada vez mais ousados e exigentes. Então precisamos estar preparados”, destaca. “E tenho visto uma reviravolta, todos estão prestando mais atenção na estética, na saúde. Afinal, somos atletas da voz, precisamos ter pique, resistência. E quem não gosta de admirar uma beleza?”, acrescenta.

Na opinião de Adriana, cantores magros e bonitos realmente levam vantagem nas seleções. “Se a pessoa estiver mais apresentável, sempre estará um passo à frente das outras”, afirma a carioca, que vive em São Paulo, fez sua primeira ópera (“Artemis”, de Alberto Nepomuceno) aos dez anos de idade e, desde então, já atuou em “Rigoletto”, de Verdi, “A Menina das Nuvens”, de Villa-Lobos, “As Valquírias”, de Wagner, “Ariadne em Naxos”, de Strauss, e “A Carreira do Libertino”, de Stravinsky, entre outras produções.

Peso x qualidade vocal

Segundo a soprano mineira Edna D’Oliveira, que dá aulas de música lírica na Escola Municipal de Música de São Paulo, vinculada ao Theatro Municipal de São Paulo, há cerca de 30 anos ainda se acreditava que o peso exercia influência sobre a qualidade e a densidade da voz e sobre a capacidade de retenção de ar pelos pulmões. “Como os cantores gordos são maiores, pensava-se assim. Mas estudos recentes mostram que os cantores precisam de músculos fortes e resistência, e não de gordura. Quem for mais atlético vai conseguir captar mais ar e respirar melhor. O corpo precisa suportar essa voz”, explica Edna.

Essa falta de relação entre excesso de peso e voz vai se evidenciando, segundo ela, com o passar dos anos, quando os músculos do corpo – incluindo os da laringe e faringe – vão ficando flácidos, e a voz "balança". “No caso da Deborah Voigt, eu a vi no ano passado e senti uma diferença enorme na voz dela, realmente o brilho mudou. Isso porque a redução de estômago é muito drástica, perde-se tudo, não só gordura, e o músculo não resiste. É por isso que a classe artística tem tanto medo dessa cirurgia”, ressalta a soprano mineira.

Edna D'Oliveira

  • Facebook/Divulgação

    Estudos recentes mostram que os cantores precisam de músculos fortes e resistência, e não de gordura. Quem for mais atlético vai conseguir captar mais ar e respirar melhor. O corpo precisa suportar essa voz

    Soprano mineira Edna D'Oliveira, 48 anos

Para Edna, a preocupação com o peso e a saúde no universo da música lírica atinge tanto as mulheres quanto os homens. “Antigamente, o acesso ao canto lírico era muito menor, não tinha internet. Hoje as pessoas estão mais bem informadas, e a concorrência do mercado aumentou – apesar de no Brasil ainda ser restrito. Mas é claro que, se um diretor estiver em dúvida entre duas cantoras com a mesma qualidade vocal, vencerá aquela que estiver em melhor forma, pois o dinamismo no palco é muito grande. É preciso correr, cantar de cabeça para baixo, são exigidas cenas mirabolantes”, aponta a soprano, que se prepara com 1h15 de exercícios diários para estrear em junho a ópera “Falstaff”, de Verdi, no Theatro São Pedro, na capital paulista.

Além de fazer atividade física, Edna conta que os cantores líricos precisam beber no mínimo dois litros de água por dia e manter uma dieta balançeada, com proteínas, carboidratos, frutas e verduras. “Eu já fui atleta, jogava handebol, vôlei, nadava, corria, mas parei e engordei 12 kg. Agora voltei a me mexer, e isso é importante porque, com as mudanças hormonais da idade, a menopausa, a voz também vai sofrendo alterações, perdendo agudos e ficando cada vez mais grave”, afirma. É por isso que há casos de sopranos que, após a última menstruação, viram mezzo-sopranos.

A irmã mais nova de Edna, Edineia de Oliveira, 41 anos, também é cantora lírica e está em um processo de reeducação alimentar, por meio do qual já eliminou 17 kg. “Ela também jogava handebol, mas parou, engordou, e começou a se sentir cansada, perder resistência. Agora está indo muito bem, e vai continuar”, torce Edna, que trabalha na área há 30 anos, dá aulas de canto há 20 e já se apresentou em São Paulo, Rio, Manaus, Miami e na Alemanha, com óperas como “Rigoletto”, de Verdi, “A Flauta Mágica”, de Mozart, “O Elixir do Amor”, de Donizetti, “O Morcego”, de Johann Strauss, e “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár.

Mulheres são mais cobradas

Na opinião do cantor paulistano Saulo Javan, 50 anos, sua posição – de baixo – não é das mais cobradas esteticamente na música lírica. “Tenho sorte de ser baixo, e é mais comum ver homens acima do peso. As mulheres recebem muito mais exigências, pois seus papéis mencionam a beleza das personagens, como são lindas, magras, se movem delicadamente. A Dalila, por exemplo, usa todo um jogo de sensualidade para enlouquecer o Sansão, a Carmen também. E a Violetta de La Traviata e a Mimì de La Bohème são tuberculosas, precisam ser magras”, enumera Javan.

O cantor está na categoria dos artistas líricos mais cheinhos. “Mas pratico exercícios para ficar bem, e já está na hora de emagrecer. O problema é a agenda muito atrapalhada, faço uma ópera à noite e ensaio outra durante o dia, como sempre fora de casa e muito tarde”, argumenta Javan, que engordou 10 kg nos últimos três anos e atualmente pesa 110 kg em 1,75 m de altura.

Saulo Javan

  • Cassiano Grandi

    As mulheres recebem muito mais exigências, pois seus papéis mencionam a beleza das personagens, como são lindas, magras, se movem delicadamente. A Dalila, por exemplo, usa todo um jogo de sensualidade para enlouquecer o Sansão, a Carmen também

    Baixo paulistano Saulo Javan, 50 anos

“Quanto melhor estou, melhor eu canto. Se fico muito acima do peso, complica para correr, falta fôlego. E preciso de agilidade nas performances. Por isso, faço caminhadas regulares e me preocupo mais com as retomadas de ar, antes era algo automático”, diz o cantor, que em 20 anos de carreira já atuou em “O Elixir do Amor”, de Donizetti; “As Bodas de Fígaro”, “Don Giovanni” e  “A Flauta Mágica”, de Mozart; “Don Pasquale”, de Donizetti; e “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, entre outras óperas.

“Quando pensamos em um tenor, vem à cabeça um cara gordinho, meio careca, com cavanhaque e lenço na mão. É o Pavarotti. Mas isso está mudando, e o público está exigindo mais [do visual]”, avalia Javan, que também dá aulas de canto lírico, faz dublagens e produções musicais para eventos corporativos.

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