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Inspirado pela Lava Jato, artista faz pinturas de Graça Foster e Cerveró

Divulgação
Retratos de executivos da Lava Jato viram obras de arte Imagem: Divulgação

Fabíola Ortiz

Do UOL, em São Paulo

15/04/2015 10h38

Os recentes escândalos de corrupção que envolvem figuras de políticos e nomes de empreiteiras no Brasil serviram de fonte de inspiração para um artista plástico carioca radicado nos Estados Unidos. Gabriel Jaguaribe Giucci, 28 anos, pintou uma série de retratos de Graça Foster, ex-presidente da Petrobras; Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia; e Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras.

Inspirado em artistas como o espanhol Francisco Goya e o irlandês Francis Bacon, Giucci criou o projeto “Operação Retrato” em referência à Operação Lava Jato da Polícia Federal, que, desde março de 2014, vem desvendando um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Morando há dois anos em Nova York, o carioca de Ipanema se mostra antenado com o noticiário brasileiro e tem acompanhado com muita frequência em sites jornalísticos os nomes dos envolvidos no esquema de corrupção.

“Foi difícil escapar do noticiário, que evidenciou com muita força a corrupção. Depois de tanto ver as caras dos envolvidos nesse escândalo, percebi que havia certas facetas com muita expressividade. Todo o mundo fica indignado, mas eu também quero que, nestes retratos, fique registrada a plasticidade destes rostos”, disse Giucci ao UOL.

Rosto “fascinante” de Graça Foster

O artista conta que a ideia surgiu no dia 5 fevereiro, quando Graça Foster renunciou à presidência da Petrobras. “Eu imaginei a tensão que essa mulher poderia estar vivendo, a pressão e o desgaste que estaria passando, além da enorme responsabilidade de liderar a maior empresa do país. O rosto dela demonstrava todo esse peso do poder. Pensei, inicialmente, em fazer uma série de retratos dela. A Graça tem uma cara fascinante”, analisou.

Ao longo de um mês, o artista pesquisou e selecionou fotos que mostravam as caras de inúmeros envolvidos na investigação da Lava Jato até chegar à sua seleção final. Considerou pintar os rostos de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, e até do doleiro Alberto Youssef, apontado pela PF como o chefe do esquema.

Esta foi a primeira vez que Giucci decidiu explorar esse novo campo de possibilidades na arte inspirado em temas políticos. Não descarta a continuação do projeto. Segundo ele, a "Operação Retrato" é uma tentativa de registrar um momento particular na história do país, mas que ultrapasse a barreira puramente documental.

“Assim como outros pintores pintaram reis, rainhas, políticos e momentos históricos no passado, o artista também tem uma obrigação com o seu tempo e a responsabilidade de registrá-lo de uma forma interessante. A televisão e a internet não impedem o artista de hoje representar eventos importantes, muito pelo contrário, a pintura humaniza o noticiário”, salientou.

A escolha dos personagens para as telas não foi aleatória, garante o artista. “Fiz uma seleção cirúrgica, optei por certas fotos que transmitissem um sentimento mais pesado. Além da expressividade humana, a foto tinha que ter qualidade na sua composição. Queria criar algo intimista, nada escandaloso e que mostrasse o lado humano”, explicou.

No retrato de Cerveró, Giucci se inspirou no quadro de Goya “Dois velhos comendo sopa” da série das “Pinturas Negras” que fez parte da decoração dos muros de sua casa em 1819. A face de Cerveró se assemelhava à postura de um dos personagens pintados pelo artista espanhol, comentou o brasileiro.

Já Graça Foster, utilizou como referência a série de retratos dos papas pintados por Bacon – especialmente o “Estudo do Retrato do Papa Inocêncio X segundo Velázquez”, de 1953.

De acordo com Giucci, enquanto o rosto de Foster aparentava “força nas suas expressões”, o de Ricardo Pessoa definia “grandeza” e o olhar de Néstor Cerveró aludia a uma “tradição pictórica”, lembrando inclusive movimentos artísticos como o cubismo de Pablo Picasso.

“Um olhar sinistro”

Giucci se preocupa em não tomar partido ou se envolver em qualquer discussão política. “Não faço crítica partidária, não pinto político corrupto, só pinto executivo. E esse trio de personagens compõe uma série de retratos que conversam entre si, dá um certo olhar sinistro.”

A “Operação Retrato” resultou em pinturas a óleo de 30 por 33 cm. Foram cerca de quatro horas pintando a tela de cada um dos personagens.

Ele frisa que seu compromisso é com a arte e não quer que seu trabalho seja apenas relacionado ao fato historicamente datado dos casos de corrupção. Giucci almeja conquistar o público pelas qualidades estéticas. “O meu projeto tem até um pouco de tom humorístico, mas tenho uma preocupação visual de resgatar o gênero do retrato na arte contemporânea, que está bastante esquecido.”

Por enquanto, não pensa em dar continuidade ao projeto e produzir mais retratos. Diz ter ficado surpreso com a repercussão que seu trabalho teve no Brasil. Ele adiantou que pretende expor as obras, mas não comercializá-las.

“Quero deixar claro que isso faz parte de um projeto muito maior sobre retratos. Fico feliz ao saber que as pessoas estão vendo meu trabalho. Gosto da receptividade, mas tenho receio de que pensem que estou a favor de um ou outro partido. Quero mostrar que a cara das pessoas é única, e a arte está para lembrar um outro lado mais fantástico da realidade”, disse.

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