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Livros e HQs

Mário de Andrade retrata o estado de SP em livro inédito que sai este ano

Fundo Mário de Andrade - Série Fotografia-IEB
Mário de Andrade em sua mesa de trabalho. Imagem presente na Ocupação Mário de Andrade, em cartaz de 28 de junho a 28 de julho de 2013 no Itau Cultural (Avenida Paulista, 149), com entrada gratuita. Imagem: Fundo Mário de Andrade - Série Fotografia-IEB

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

07/04/2015 06h01

Os 70 anos da morte de Mário de Andrade, completados este ano, não passarão em branco no circuito literário: além de receber homenagem da Flip 2015 (Festa Literária Internacional de Paraty), novidades de um dos principais nomes do modernismo brasileiro já chegaram e estão para a chegar nas livrarias brasileiras ao longo deste ano. Dentre os lançamentos, um é especial: o romance “Café”, obra inacabada e que ainda permanece inédita.

O livro sairá pela Nova Fronteira –casa que ainda detém os direitos do autor, que cairá em domínio público em 2016. A editora atuou em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, responsável pelo acervo de Andrade, em um projeto que já dura mais de dois anos. A obra, que o escritor dizia ser “um romance de oitocentas páginas cheias de psicologia e intensa vida”, deverá estar à disposição do público ainda este ano, sem data definida.

Segundo Priscila Figueiredo, professora de Literatura Brasileira na USP e autora de “Em Busca do Inespecífico”, sobre Andrade, o autor começou a conceber “Café” em 1929, aproveitando notas e esboços do romance “Vento”, que iniciara em 1925, inspirando-se em dois eventos marcantes: uma viagem que fez ao nordeste e a crise do café no final da década.

Ao longo dos anos 1930 e 1940, o autor parou, retomou e novamente deixou de trabalhar no romance. Contudo, alguns trechos foram publicados. Dentre eles, Priscila destaca a série “Vida de Cantador”, que saiu em 1943 na “Folha da manhã”, sobre “um famoso cantor que tinha deslumbrado o escritor durante a viagem ao nordeste e que ele ficcionalmente fazia vir a São Paulo tentar a sorte, tal qual fizera com Macunaíma”.

Entretanto, o personagem, apesar de sua importância, não é o principal da obra. “Em todo o 'Café', cujas partes nos chegam em diferentes graus de acabamento, ou inacabamento, o autor de fato intentou figurar a multiplicidade étnica e social que compunha, em suas palavras, a 'complexidade civilizada de São Paulo'”, explica a professora.

Com isso, Andrade utiliza a economia do café e o seu papel na sociedade para falar do estado e da “extrema fragilidade em que assentava a sua identidade e unidade”. Por conta da crise acerca do produto, que se estendeu para a sociedade como um todo, Priscila diz que a visão do autor com relação à burguesia “se torna ainda mais crítica do que já víamos em obras como 'Amar, Verbo Intransitivo', dos anos 20”.

Apesar do livro não ter sido concluído, a professora lembra que o projeto foi aproveitado parcialmente na ópera homônima composta por Andrade e teve um papel relevante na vida do escritor, que costumava conceder entrevistas e trocava cartas com amigos falando a respeito do romance. “Ele mesmo chegou a manifestar que se tratava da sua grande obra”, sublinha.

Priscila aponta diversas razões para “Café” ainda permanecer inédito, mas destaca o “inacabamento” do livro. “É uma obra instável, portanto, não-resolvida, acompanhada de inúmeras notas, esboços, planos, com partes em mais de uma versão e já abandonada em vida pelo autor, abandonada porque grandiosa demais e cujo adiamento mais e mais o torturava”.

Contudo, a professora pondera que o material deixado por Andrade tem grande valor e “sem dúvida ajudará a compreender obras mais 'estáveis', como 'Macunaíma'”, além de revelar muito do processo de criação do artista.

Reprodução
Capa do livro "Eu Sou Trezentos", de Eduardo Jardim Imagem: Reprodução

Graphic novel, ensaio biográfico, cartas e relançamentos

Como já dito, “Café” não vem só. A própria Nova Fronteira também lançará “Macunaíma em SP: O Nascimento de um Brasil”, adaptação de Izabel Aleixo e Kris Zullo para graphic novel de uma das obras mais famosas do autor, e a antologia de contos “O Melhor de Mário de Andrade”. Apenas em formato eletrônico, também recolocarão no mercado “Música de Feitiçaria”, “As Melodias do Boi” e “Pequena História da Música”.

No começo do ano, a Edições de Janeiro já havia lançado o ensaio biográfico “Eu Sou Trezentos”, do escritor Eduardo Jardim, que busca articular a maneira como a vida e a obra de Mário de Andrade se entrelaçaram. Por fim, a Edusp, em parceria com o IEB e com a PUC do Rio de Janeiro, lançará cartas que Andrade trocou com Lasar Segall e com Alceu Amoroso Lima.

Leia a íntegra da entrevista com a professora Priscila Figueiredo no blog Página Cinco.

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