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Megaexposição no CCBB traz "making of" do quadro mais famoso de Picasso

Luna D'Alama

Do UOL, em São Paulo

24/03/2015 07h00

Influenciado pelo pai, que também pintava, o espanhol Pablo Ruiz Picasso (1881-1973) começou a fazer seus primeiros desenhos aos 7 anos e, com 20, já expunha em Paris, onde fez sucesso fora de seu país pela primeira vez. Mas foi apenas três décadas depois, de uma carreira que durou até sua morte, aos 91 anos, que o mestre cubista criou sua obra-prima: “Guernica”.

Os esboços e desenhos que levaram à produção – em menos de dois meses – desse painel gigante, com 3,5 m x 7,7 m, estão presentes na megaexposição “Picasso e a Modernidade Espanhola", que entra em cartaz nesta quarta-feira (25) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo e fica até junho, quando segue para o Rio. Ao todo, serão apresentadas 45 obras de Picasso e mais 45 de outros artistas espanhóis – como Salvador Dalí, Joan Miró, Óscar Domínguez, Antoni Tàpies e Juan Gris –, entre gravuras, pinturas e esculturas, reunidas em cinco andares do prédio.

“Picasso mudou o conceito e as linguagens da arte, com uma fecundidade inigualável. Foi muito diverso e teve a qualidade de sobreviver, com criatividade e vitalidade. Podia ter parado em Paris, em 1901, mas continuou e se reinventou. Ele recuperou o classicismo, reconciliou a arte figurativa com a abstrata, foi para a fase azul, a rosa, a negra [africana], inventou o cubismo, vinculou-se ao surrealismo, viu a arte como compromisso político. E então fez Guernica”, resume o curador da exposição, Eugenio Carmona, professor de História da Arte da Universidade de Málaga, cidade onde nasceu o mestre espanhol.

Guernica era a capital e um centro emblemático da cultura basca, mas foi destruída por um bombardeio durante a Guerra Civil Espanhola, em 26 de abril de 1937, sob a ditadura de Francisco Franco. Segundo Carmona, nessa época, Picasso pintava muitos quadros cujo tema eram o artista e a modelo – ele mesmo e, em geral, alguma de suas várias amantes. “Mas, em meio à guerra civil, à Alemanha nazista e à Rússia de Stálin, ele não podia mais ficar pintando só  isso”, explica Carmona.

Até chegar à versão final, em tinta a óleo, Picasso mudou “Guernica” sete vezes. E, antes de se debruçar sobre a tela grande, fez mais de 40 desenhos menores que retratavam o Minotauro grego (ser mítico com cabeça de touro e corpo de homem), um cavalo e uma mulher destroçada. “Ele gostava de pintar variações dos mesmos temas. E essa foi sua única obra simbólica – nas demais, uma cabeça é uma cabeça e uma luz é uma luz. Picasso nunca tinha visto um bombardeio. Por isso, recorreu a seu próprio imaginário, àquilo que para ele era obscuro, sinistro. Sua tradição cultural o ajudou a expressar essa tragédia. O cavalo, por exemplo, simboliza o povo que sofria”, destaca o curador da mostra.

Reprodução
O painel "Guernica" (1937), obra-prima de Pablo Picasso Imagem: Reprodução

"Constelação" ao redor

De acordo com Carmona, há uma “constelação” de “Guernica” ao redor da obra principal, formada por produções, de certa forma, independentes. “Em algumas [presentes no CCBB], ele usou cores fortes [a versão final, vista acima, é toda em preto e branco, com alguns traços amarelados]. Aqui em São Paulo está reunido ‘Guernica’ segundo a cabeça de Picasso, dia a dia”, afirma. O painel final – feito para ser exibido na Exposição Internacional de Paris, em 1937 –, porém, não veio à capital paulista: está no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madri, desde 1981, após ter passado um longo período no MoMA (Museu de Arte Moderna) de Nova York, para onde foi levado “a salvo” durante a Segunda Guerra Mundial. A volta de "Guernica" à Espanha ficou conhecida pelo povo do país como o retorno do "último exilado".

Mesmo que o painel gigante não esteja presente, todo o seu processo de criação já é suficiente para atrair a curiosidade do público, que terá pelo menos dois andares do CCBB (o terceiro e o primeiro) para entendê-lo melhor. No terceiro piso, estão os esboços e, no primeiro, um vídeo de 5 minutos intitulado “Do Minotauro a Guernica” e uma projeção do quadro na parede com duas lanternas à disposição dos visitantes: à medida que uma parte da tela é iluminada, aparecem os rascunhos por trás dela, como Picasso os desenhou até concluir sua obra-prima.

Ao longo do tempo, "Guernica" também acabou ganhando uma dimensão mais universal, ao ser capaz de retratar as atrocidades e o impacto provocados por qualquer guerra, não apenas por aquela vivida pelos habitantes da cidade basca. Tanto que, quando os nazistas entraram na casa de Picasso e viram uma reprodução do quadro, perguntaram: “Foi isso que você fez?”, ao que ele respondeu: “Não, foram vocês”.

“Picasso queria fazer uma obra-prima que pudesse ser entendida pelas pessoas. E ele se mantém [vivo] porque as pessoas ainda se interessam, pois ele fala do drama e do prazer humanos”, analisa o curador. “Além disso, nunca se fez uma mostra como essa, tão didática”, diz Carmona, já prevendo o sucesso de público visto nas exposições anteriores do CCBB, como a dedicada ao Impressionismo, em 2012.

Outras influências

Além dos quadros do mestre cubista, a megaexposição reúne obras de dezenas de pintores e escultores espanhóis que viveram entre o final do século 19 e o início do século 21. São nomes que influenciaram Picasso ou foram influenciados por ele. “A mostra tem muitos olhares: o artista e a modelo, formas, natureza, Minotauro, tragédia, realidade e surrealidade. Queremos contar pequenas histórias que entrem na cabeça das pessoas e mostre como era a sensibilidade desses artistas”, espera o curador.

E já se antecipando a longas horas na fila, o CCBB também terá, na área externa, apresentações de música, teatro, circo, bonecos, dança e artes visuais que remetam ao universo dos modernistas espanhóis. “A ideia dessa mediação na rua é aproximar o público e contextualizar a exposição, para que as pessoas já entrem no clima”, ressalta a coordenadora pedagógica Karen Montija. Segundo ela, ainda foram criadas peças tridimensionais como uma réplica do cavalo de “Guernica” para que os espectadores possam tocar nelas e conhecê-las melhor. Para os deficientes auditivos que quiserem visitar a mostra, haverá uma intérprete de Libras à disposição, às segundas, quartas e sextas, das 10h às 16h.

Serviço
Mostra "Picasso e a Modernidade Espanhola"

Quando: De 25 de março a 8 de junho. De quarta a segunda, das 9h às 21h
Onde: CCBB-SP (Rua Álvares Penteado, 112 - Centro)
Quanto: Grátis
Mais informações: No site culturabancodobrasil.com.br ou pelo telefone (11) 3113-3651

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