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Em novo livro, ex-menino-soldado retrata violência após o fim da guerra

Divulgação
O escritor leonês Ishmael Beah, que lança "O Brilho do Amanhã" Imagem: Divulgação

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

18/03/2015 06h00

 Antes de chegar à adolescência, Ishmael Beah já era um soldado, ou melhor, um menino-soldado, como eram conhecidas as crianças obrigadas a empunhar armas e matar para não morrer durante a guerra civil de Serra Leoa, que começou em 1991. O caminho mais óbvio para esses garotos era a morte, quase sempre a física, mas, em alguns casos, apenas a moral.

Acontece que Beah conseguiu trilhar um caminho diferente. Sobreviveu à guerra, mudou-se para os Estados Unidos aos 17 anos, concluiu os estudos e, em 2007, lançou o livro “Muito Longe de Casa: Memórias de um Menino-Soldado”, no qual retrata as memórias do terror que viveu. A obra lhe deu evidência. Recebeu prêmios, tornou-se embaixador da Unicef, membro do organização Human Rights Watch e presidente da Fundação Ishmael Beah.

Agora, um novo livro do escritor chega ao Brasil: “O Brilho do Amanhã”. Trata-se de uma parábola sobre a vida em Serra Leoa após a guerra civil e tem em seu cerne os males provocados pelo desenvolvimento inconsequente no país africano, que ignora costumes, atropela culturas locais e aniquila pessoas.

Para o autor, a situação pode ser tão violenta quando a própria guerra. “Tudo depende de como o desenvolvimento acontece. Se o desenvolvimento for do interesse das pessoas, ele não tem que ser violento. Mas muitas vezes não é esse o caso, ele acaba empurrando os homens para fora de suas casas, suas terras, para longe de sua cultura, causa transtornos psicológicos.”

Ishmael Beah

  • Algumas tradições têm que ser renovadas, não destruídas. Outras talvez não sejam mais úteis. O perigo da globalização e do crescimento é que muitas vezes não é levado em conta que as pessoas e as comunidades têm seu próprio modo de vida, não querem ser como o resto do mundo. A medição de felicidade não é definida por aquilo que é felicidade no Ocidente

    Ishmael Beah
No romance, os personagens Benjamim e Bockrie são dois amigos que retornam a Imperi após o fim da guerra. Encontram o vilarejo arruinado, mas, à medida que os antigos moradores regressam, conseguem começar a reerguer o local seguindo antigas tradições. Entretanto, a chegada de uma companhia mineradora faz com que os hábitos mudem completamente. O lugar passa a ser aplacado pelas mais diversas formas de violência, causada, sobretudo, pelas “promessas de oportunidades de crescimento rápido, que se transforma na desumanização da população”, explica o autor, por e-mail, ao UOL.

Segundo o Beah, é necessário encontrar um equilíbrio entre o desenvolvimento, a globalização e o respeito às culturas locais –que, por sua vez, eventualmente também precisam de uma reavaliação. “Algumas tradições têm que ser renovadas, não destruídas. Outras talvez não sejam mais úteis. O perigo da globalização e do crescimento é que muitas vezes não é levado em conta que as pessoas e as comunidades têm seu próprio modo de vida, não querem ser como o resto do mundo. A medição de felicidade não é definida por aquilo que é felicidade no Ocidente”, argumenta. “O mundo vai ser chato se todos nós olharmos, pensarmos e agirmos da mesma forma”, completa.

Em “O Brilho do Amanhã”, figuras como anciões e professores têm um papel central na busca de algum equilíbrio na sociedade em decadência, seja por meio da tentativa de uma educação formal, seja com histórias orais que têm ensinamentos como pano de fundo. “São eles que transmitem o conhecimento para todos, especialmente para os mais jovens”, diz Beah.

O escritor acredita que esse conhecimento pode ser encarado como uma espécie de remédio que prepara as pessoas para viver em sociedade e contribuir positivamente para aqueles que as cercam, além de ser um modo de despertar a imaginação. O que, por sua vez, leva à liberdade.

Trechos de "O Brilho do Amanhã"

  • "Separados para sempre"

    "Era a primeira vez que sua família tivera condições de cimentar as paredes da casa, podendo portanto pintá-la de preto na base, verde no contorno das janelas e amarelo até o telhado. Seus filhos, netos, marido e ela se postaram admirando o lar. Não sabiam que no dia seguinte abandonariam tudo e seriam separados para sempre."

  • "Última imagem de desespero"

    "O ancião, sentindo uma sombra atrás de si, disse: "Se você é um espírito, por favor, passe em paz. Estou fazendo este serviço para assegurar que, quando as pessoas voltarem a esta cidade, não vejam isto. Sei que os olhos delas registraram coisa pior, mas ainda assim vou poupá-las de uma última imagem de desespero".

A intrigante descoberta da linguagem
Essa é a primeira vez que Beah, que já escreveu contos, enfrentou a criação de uma longa ficção. A motivação principal era a vontade de explorar o que acontece com as pessoas após o final de uma guerra. Em comum com “Muito Longe de Casa”, ele diz que o maior desafio foi encontrar no inglês o equivalente para as diversas línguas faladas em Serra Leoa.

  Continuando o paralelo, lembra que as memórias lhe traziam limitações com relação a questões temporais, além de ser um relato extremamente pessoal e, portanto, “emocionalmente complicado de se reviver de modo a dar-lhe vida para os leitores”. Já a ficção, por sua vez, possibilitou que tivesse mais liberdade com os personagens e com o tempo da narrativa, ampliando as possibilidades da imaginação. Ao final, contudo, diz que escrever lhe traz alegria, independente de ser ficção ou não. “A descoberta da linguagem sempre me intriga.”

Após sair de Serra leoa para viver nos Estados Unidos, Beah começa a empreender o caminho de volta. Atualmente vive em Nouakchott, capital da Mauritânia, na região oeste da África. “Eu deixei meu país por causa da guerra. Queria permanecer vivo e conseguir estudar. Uma vez que isso foi feito, comecei a preparar a volta para casa ou para o continente africano”, diz.

Ishmael Beah2

  • A guerra nos faz desumanos para os outros e para nós mesmos. Sejam quais forem as razões ou explicações para a guerra, o ato em si é simplesmente matar o outro. E essa morte requer desumanizá-los e, no sentido inverso, acaba por desumanizar a nós mesmos

    Ishmael Beah

O escritor faz parte de uma série de autores que saíram de África e alcançaram o reconhecimento por meio da literatura, como Chimamanda Adichie –que acaba de lançar “Sejamos Todos Feministas” por aqui– e  Wole Soyinca. Contudo, não encara isso como algo uniforme. “Acho que alguns procuraram oportunidades que não existiam em nossos países. O movimento é mais estarmos procurando contar nossas próprias histórias, sobre nosso povo, nossas culturas e fazer com que uma nova luz brilhe em nosso continente”, argumenta elencando o ponto que o aproxima de outros nomes.

Ao olhar para as histórias que Beah carrega consigo, é impossível não retomar a questão do menino-soldado. Ao ser questionado o que a guerra significa para ele, define-a como uma completa loucura e barbárie. “Ela nos faz desumanos para os outros e para nós mesmos. Sejam quais forem as razões ou explicações para a guerra, o ato em si é simplesmente matar o outro. E essa morte requer desumanizá-los e, no sentido inverso, acaba por desumanizar a nós mesmos.”

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Imagem: Divulgação

 

Título: “O Brilho do Amanhã”
Autor: Ishmael Beah
Tradução: George Schlesinger
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 278
Preços: R$ 39,90 (físico) e R$ 27,90 (e-book)

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