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Método de Marina Abramovic ensina participantes a "ouvir o silêncio"

Flávia Guerra

Do UOL, em São Paulo

10/03/2015 10h46

A regra era clara. Só participaria da conversa que a artista plástica sérvia Marina Abramovic teria com a imprensa na tarde de segunda-feira (9), para conversar sobre a mostra Terra Comunal, que abre nesta terça para o público no Sesc Pompeia, quem experimentasse seu famoso Método.

Dinâmica criada por ela para despertar a introspecção e a concentração, o método exige duas horas e meia dos participantes, dispostos a fazer uma série de exercícios que ampliam os sentidos e os limites da consciência e do corpo para, assim, apreciar melhor as obras e as performances de Terra Comunal. Apesar de o simples termo "atividade interativa" ser suficiente para afugentar os mais tímidos ou desconfiados, 71 jornalistas curiosos se reuniram para passar por uma dinâmica um pouco reduzida de "apenas" 1h15min.

Antes de entrar no espaço onde até 10 de maio realizadas cinco sessões diárias do Método com o público, no hall Sesc Pompeia, era preciso deixar tudo para trás. Bolsa, carteira, celular, brincos, pulseiras... Tudo que pudesse atrapalhar a imersão em um universo em que o silêncio é a maior matéria-prima. Por falar nisso, para "ouvir" melhor o silêncio, recebemos um par de fones de ouvido que cancelam ruídos. Não era possível ouvir nem mesmo o barulhinho bom da água correndo pelas pedras das fontes que se espalham pelo espaço.

Mas antes de ouvir o silêncio, era necessário passar por uma preparação de trinta minutos (reduzida para 15 minutos para a quase sempre apressada imprensa). “Espalhem-se pelo local, tomem distância. E vamos agora assistir a um vídeo”, comandou um dos facilitadores, que conduzem o público durante toda a dinâmica.

Despertar os sentidos e criar energia

Distância tomada, diante de três TVs, os participantes veem surgir a imagem de Marina. Ela, que não ministra o método desta vez ao vivo, apresenta os princípios básicos do conjunto de técnicas que ela condensou em décadas de pesquisa. Enquanto isso, a colaboradora Lynsey Peisinger faz os movimentos propostos.

“Desde muito cedo entendi que a ferramenta que tenho para mostrar minha arte é meu corpo. Para fazer isso é preciso entender o corpo e os limites dele. Vivi um ano em uma tribo aborígene na Austrália, sem dinheiro, só com o que havia ali. Fui para a Indonésia para ver as pessoas que andam sobre o fogo, passei 25 anos trabalhando com os monges tibetanos, fiz pesquisa na floresta e aqui no Brasil com os xamãs, aprendi muito com eles”, contou Marina.

“Temos de entender os limites do corpo. Nos meus 40 anos de carreira, aprendi muitas coisas e escolhi as mais fáceis de mostrar para as pessoas. Foi assim que eu criei o método ”, revelou a artista, na conversa após os exercícios.

Mas antes era preciso aprender que coisas eram essas. Para começar, nada mais simples que despertar os sentidos. Alongar os braços, esfregar as mãos para criar calor e energia, tocar os olhos e estimular os músculos oculares para perceber melhor tudo que está à frente, puxar os lóbulos das orelhas e tocar os ouvidos para abrir a audição, botar a língua para fora...

Depois de também tocar olhos, nariz, boca, queixo, era hora da "respiração do guerreiro". Pernas bem firmes no chão, mãos levadas até a cintura em punho e, depois, braços esticados. Em seguida, era vez de chacoalhar. Braços, cabeça, pernas, tudo. Houve até quem perdesse o equilíbrio e caísse em uma "overdose" de oxigenação.

Objetos Transitórios

Depois de limpar o corpo e a mente, finalmente,  estávamos prontos para encarar os Objetos Transitórios. Camas com cabeceiras de grandes cristais encrustados, cadeiras que miram a parede branca, totens com mais cristais dispostos na direção de vários shakras. Podia quase tudo. Deitar e até dormir, sentar e observar o nada ou divagar em seus próprios pensamentos. Ficar de pé, tocar e até se apoiar nos cristais. Só não podia falar. “Fiz o Cleaning The House com os artistas brasileiros que farão performance aqui. Para eles foi mais fácil ficar sem comer do que sem falar. Mas eles conseguiram e foi ótimo”, contou Marina, mais tarde.

Os jornalistas também conseguiram. O silêncio era total até mesmo no mais difícil e interessante dos desafios: andar em câmera lenta. Liderado pelos facilitadores, um grupo de participantes caminhava a passos lentíssimos pelo espaço enquanto outros deitavam, sentavam, ficavam de pé.

Parece fácil a arte de só se tirar um calcanhar do chão quando a sola toda do outro pé já está no chão. Mas não é. Os 15 minutos de caminhada em slow motion pareceram uma eternidade para quem está acostumado a sempre andar com pressa em São Paulo. Ainda mais se o passeio é feito de mãos dadas com alguém estranho. O eterno desafio de entender o ritmo do outro e caminhar junto na mesma direção.

E o que dizer do desafio de mirar a parede e tentar não divagar sobre as tarefas do dia e nem cochilar? Ou de deitar e não dormir, sempre atento a tudo e, ao mesmo tempo, concentrado em si mesmo? Para os mais impacientes, ou mais céticos, isso já foi visto em muitas aulas de ioga e meditação. Para os que embarcam em um método que vai do simplório ao sublime em questão de segundos, mesmo que em passos em câmera lenta, o método é um mergulho no silêncio que perdemos.  Curioso e divertido.

Serviço
"Terra Comunal – Marina Abramovic + MAI"

Quando: De 10 de março a 10 de maio, de terça a sábado, das 10h às 21h, e domingo, das 10h às 18h
Encontros com Marina Abramovic: 11 e 26 de março; 1º, 2, 8, 15, 22 e 30 de abril, às 20h
Onde: Sesc Pompeia (Área de Convivência, Galpão e Teatro - Rua Clelia, 93, Pompeia)
Quanto:
 Gratuito
Classificação: Não recomendado para menos de 12 anos
Mais informações: sescsp.org.br/pompeia e http://terracomunal.sescsp.org.br/

"Metrópole" entrevista Marina Abramovic

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