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Tomie Ohtake "assina" um largo período da arte feita no Brasil

Teixeira Coelho

Especial para o UOL*

12/02/2015 22h51

Na passagem para o século 21, entre 1999 e 2000, terminávamos a ampla reforma arquitetural e museológica do Museu de Arte Contemporânea da USP, na Cidade Universitária. Seu “Jardim de Esculturas” também foi todo refeito, e não demoramos nada para escolher a artista que marcaria o novo cenário.

Tomie Ohtake, com seu interesse e generosidade de sempre, aceita o convite e nos propõe, com “Ultramarinho”, um gesto escultórico que paira no ar sem ligação física aparente com a terra e que, visto de frente, “assina” a nova fachada do museu e, por extensão, toda a reforma que acabávamos de fazer e todo o museu, cuja coleção está, no entanto, repleta de obras de forte significado histórico e estético.

“Assinar” um museu desse modo, no sentido que dou à palavra, é um gesto forte, e a declaração de que ela “assim assinava o museu” é igualmente pesada. Mas é disso que se trata, e não hesitei em dizê-lo a Tomie à época. E, se começo este texto em homenagem a ela com esta história particular, é porque quero usar essa imagem da assinatura para lembrar que Tomie “assina” todo um largo período da arte feita no Brasil, em particular da arte pública feita no Brasil. A palavra “assinar” é aqui usada em sua significação plena e múltipla de apresentar, responder por e legitimar. Quem assina, enuncia; assume a responsabilidade pelo que circunscreve; e lhe confere autenticidade. 

Reprodução
Obra de Tomie Ohtake no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (2004) Imagem: Reprodução
Não há exagero nessa imagem. Tomie é uma face marcante da arte feita nesse largo momento por ela vivido, na arte em geral e naquela pela qual me interesso em particular, por seu significado para a cidade: a arte pública, a arte na rua, nos espaços abertos, nos locais de passagem ou de parada temporária das pessoas e que dá a esses lugares uma dignidade que nem sempre a arquitetura por si só é capaz de lhes conferir. A lista da presença de Tomie pela cidade é extensa, além do MAC USP inclui o Memorial da América Latina, o Sesc Vila Mariana, a estação Consolação do metrô, átrios de edifícios privados, o aeroporto de Guarulhos, o hall do Auditório Ibirapuera... São Paulo está marcada e ocupada por Tomie, embora não seja a única cidade que lhe serve de cenário.

A simples quantidade de obras por ela transformadas em realidade já é, em si, índice decisivo para a compreensão de seu papel na história da arte. Não é de fato pouca coisa, não está limitada a uma solução de estilo nem a um tipo de “cliente” ou um setor: é uma respeitável ocupação física do espaço mais amplo à qual a maioria dos artistas legitimamente aspira. Não se trata, porém, apenas de quantidade: a proposta para o hall do Auditório Ibirapuera é uma das peças tridimensionais mais belas e convidativas que já vi em qualquer lugar do mundo e que serve como índice da contemporaneidade plena de Tomie: ali, para onde o século 19 ainda teria pensado numa grande tapeçaria ou uma tela, e o século 20, um mural, Tomie apresenta uma solução em três dimensões e de uma audácia plástica única. O auditório, de Oscar Niemeyer, é uma das obras marcantes do arquiteto, por fora e por dentro. Sem a presença de Tomie, no entanto, aquele hall seria de uma frieza aflitiva em sua grandiosidade imperial. Esse é o traço que Tomie acrescenta aos espaços que a recebe: a emoção cálida.

Teixeira2

  • Gabo Morales/Folhapress

    Tomie assina, com seu nome próprio, um vasto período da arte brasileira marcada exatamente por essas duas tendências, o construtivo e o informal, que ela funde num espírito em tudo contemporâneo. O peso de sua herança, construída numa fase em que o resíduo material da obra de arte ainda importava, é inquestionável

    Teixeira Coelho

Sua filiação construtiva é evidente. Tomie, porém, não se deixa esgotar no exercício frio da geometria. A perfeição da solução matemática é, sem dúvida, de uma evidente beleza em si mesma, e, não por nada, Beethoven afirmou que a ciência e a arte são as duas maiores criações do homem. Nada além disso, só  ciência e a arte. Uma demonstração matemática perfeita, pura e eloquente em seu estilo, é uma beleza para sempre. E isso Tomie domina. A isso, porém, Tomie acrescenta a abertura para o incerto e o indefinido como fica claro, outra vez, no Auditório, uma abertura que ao mesmo tempo completa o esquema matemático e o renega na direção de algo maior do que qualquer das duas partes isoladas.

Por isso Tomie assina, com seu nome próprio, um vasto período da arte brasileira marcada exatamente por essas duas tendências, o construtivo e o informal, que ela funde num espírito em tudo contemporâneo. O peso de sua herança, construída numa fase em que o resíduo material da obra de arte ainda importava, é inquestionável. E não foi necessário esperar que ela, em sua pessoa, saísse de cena para que isso ficasse claro. Como um bom vinho DOC, Tomie torna-se melhor com o tempo: sua peça para o Auditório é de 2004, quando ela tem 91 anos. Em 1994, propõe ao Instituto de Estudos Brasileiros a metáfora hoje visível em sua entrada, e ela está com 81; quando faz o mural do metrô, em 1991, ela conta 78. Para os mestres, a limitação física do tempo, em termos de criação, é pura ficção.

Neste texto, todos os tempos verbais relativos a Tomie estão no presente, não no passado. É a praxe com os grandes mestres: a eles nos referimos como estando  aqui e agora à nossa frente propondo temas de deslumbramento.  Não fazemos isso por retórica, mas por reação natural: o artista cria e continua criando, Simplesmente não há passado para Tomie.

*José Teixeira Coelho Netto é professor universitário e museólogo, ex-curador-coordenador do Museu de Arte de São Paulo- Masp e ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea - MAC USP. É professor-titular da USP, aposentado, foi professor de teoria da informação e percepção estética e de história da arte da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. É especialista em política cultural.

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