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"Tomie acreditava que sua obra estava completa", diz curador de Instituto

Do UOL, em São Paulo

12/02/2015 14h49Atualizada em 12/02/2015 17h51

Tomie Ohtake morreu acreditando que sua obra já estava completa. A afirmação é de Paulo Miyada, curador do Instituto de São Paulo que leva o nome da artista que morreu nesta quinta-feira (12) por complicações decorrentes de uma parada cardíaca. Tinha 101 anos e por quase seis décadas desenvolveu seu trabalho como pintora, gravadora e escultora.

"Nos últimos dois meses, ela começou a dizer que sua obra estava pronta, que tinha feito muita coisa e que merecia descanso. Da mesma forma é para a cultura brasileira. Ninguém pode se ressentir de uma obra inacabada. Ela deixou grandes coleções públicas e privadas, em espaços de convivência, ruas, aeroportos, metrôs. Essas obras que já são um estímulo à sensibilidade no cotidiano agora também vão fazer a gente se lembrar dela", disse o curador.

Próximo da pintora, Miyada ainda contou que a família e o trabalho a motivaram até o final da vida. "Completou o centenário trabalhando, fez duas exposições só com obras novas. Ela se manteve engajada, vívida e dizia que fez cem anos por causa da sua família e do trabalho. Sem as duas coisa, ela não teria forças para viver tanto. Como uma pessoa sábia e simples, ela conseguiu perceber que tinha chegado o momento da despedida".

Tomie estava internada no hospital Sírio Libanês desde o dia 2 de fevereiro. Ela receberia alta no dia 10, mas engasgou com um gole de café, teve bronco-aspiração e, em seguida, parada cardíaca. Seu corpo será velado no Instituto Tomie Ohtake, na sexta-feira, das 8h às 14h. O velório será aberto ao público. O corpo será cremado posteriormente em cerimônia restrita à família.

Veja mais repercussão

"Lamentamos a morte da incrível artista Tomie Ohtake. Tomie era uma síntese de SP e continuará viva em suas obras" - Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, via Twitter

Trajetória da artista

Conhecida pelo abstracionismo informal, pelo cromatismo vivaz e por suas esculturas públicas em grandes dimensões, a artista participou de oito edições da Bienal de São Paulo e pintou até o final da vida.  Deixa dois filhos - o arquiteto Ruy Ohtake e o administrador cultural Ricardo Ohtake, que estavam em sua presença quando ela morreu - além de um prestigiado instituto de arte contemporânea que leva seu nome.

Tomie tornou-se amplamente conhecida pelas esculturas públicas em grandes dimensões, _são cerca de 30, espalhadas pelas principais cidades brasileiras. Em São Paulo, destacam-se os grandes painéis que fez para a Estação Consolação do Metrô, o Monumento à Imigração Japonesa na avenida 23 de Maio e as esculturas em diferentes pontos da Cidade Universitária.

De sua autoria também estão o painel em tapeçaria de 800 m² localizado no auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina. Este painel, que foi parcialmente destruído em um incêndio em 2013, estava sendo restaurado pela artista.

Nascida em Kioto, no Japão, Tomie foi educada para ser dona de casa. Em 1936, viajou ao Brasil para visitar um irmão, mas acabou se casando com o engenheiro agrônomo Ushio Ohtake (morto em 1977) e se estabelecendo no bairro paulistano da Mooca.  Foi apenas aos 39 anos, com os filhos já crescidos, que começou a pintar, montando e desmontando seu cavalete em um espaço diminuto da sala de jantar.

Em 1953, integrou o Grupo Seibi, formado pelos artistas de origem nipônica Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, Flavio Shiró e Tadashi Kaminagai, mas seu trabalho só viria se a tornar conhecido a partir dos anos 1960.

Neste período, naturalizou-se brasileira e afirmou-se como artista devido a seu estudo das relações entre forma e cor que marcaria toda sua carreira, passeando entre formas ovais, quadradas, retangulares e cruciformes.

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