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Livros e HQs

Mesmo sem deixarem o papel, livros viram aplicativos

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

03/12/2014 05h00

Em novembro chegou ao mercado "A Floresta Canta! Uma Expedição Sonora por Terras Indígenas no Brasil", de Magda Pucci e Berenice de Almeida. O livro apresenta a riqueza musical de tribos de índios de diferentes regiões do país, explicando como os sons são retirados das florestas, as tradições culturais e como transformam elementos naturais em canções. O principal objetivo é mostrar ao público infantil as riquezas da cultura indígena e, para tal, as músicas descritas na obra poderão ser ouvidas pelo celular, por meio da leitura de QRCode, ou no próprio site da editora.

A editora, no caso, é a Peirópolis, que desde 2004 vem investindo em tendências crescentes no país: o diálogo multimídia e novas possibilidades narrativas, como histórias contadas por meio de aplicativos. O mais recente deles, "A Trilha", de Roberta Asse, foi lançado há pouco mais de dois meses e apresenta Martim, um garoto que, de bicicleta, precisa passar por situações diversas. "A obra nasceu digital e está sendo recriada como livro impresso. A ideia principal foi evocar a memória do ambiente e das experiências que o leitor já conhece, seja através da vivência ou da imaginação, e resignificá-las através da leitura e tipografia, e da brincadeira interativa e sonora", diz a autora.
 
Roberta acredita que o principal ganho do leitor com o formato é a experiência de ter som e movimento integrados à leitura. Entretanto, Renata Borges, diretora editorial da Peirópolis, ressalta que a simples migração não significa muita coisa. "Transformar um livro em aplicativo é uma possibilidade tão vasta de escolhas estéticas, de navegação, de interatividade que é impossível decretar se o aplicativo originado dele pode ser uma leitura interessante ou não. Penso que a transposição de livros pode não trazer nada se a obra servir de apresentação das pirotecnias digitais e pode trazer tudo se a linguagem for bem usada no sentido de ressaltar a qualidade poética ou informacional da obra na qual se inspira".
 
Renata explica que essa é uma tendência que nasceu com a internet e se intensificou conforme os leitores passaram a dispender cada vez mais tempo à frente de seus computadores, tablets ou smartphones. A primeira experiência da editora juntando obras impressas com aplicativos foi em 2011, quando lançaram "Crésh", de Caco Galhardo, derivado de um livro de imagens do próprio autor. Em seguida veio "Meu Tio Lobisomem", de Manu Maltez, com direito a uma transformação do homem em lobisomem impossível de ser reproduzida no papel. "É preciso que o livro em papel transborde para as outras mídias e capte a atenção do leitor, não dizendo a ele o mesmo da mesma forma, mas atraindo para si por meio dos recursos de que cada plataforma dispõe", acredita a diretora.
 
Integração papel - internet

A integração entre livros e internet é algo que já vem sendo praticado há alguns anos no país. Na área, a editora Melhoramentos garante ter sido a pioneira ao lançar, em 2010, "O Menino da Terra", livro de Ziraldo que convidava os leitores a, após a leitura, acessarem um site com um jogo correspondente à obra. 

Da Melhoramentos, provavelmente o maior caso de sucesso de integração entre o livro impresso e as possibilidades digitais seja o "Club Penguin", um mundo virtual no qual crianças podem comandar pinguins interativos. Desse universo que surgiu uma coleção de livros que dialogam com o espaço virtual, permitindo que quem possui as obras tenha acesso a jogos exclusivos.

Linha semelhante, mas com uma proposta que foge completamente do universo infantil, segue "Sex And The Kitchen", de Alessander Guerra. A obra relaciona gastronomia com erotismo e tem o objetivo de envolver o leitor sensorialmente. Para tal, criaram uma rádio digital com as músicas que o autor escutava enquanto escrevia e um livro digital com as de 70 receitas ilustradas que convergem com a publicação. Ainda em novembro a editora lançou outra obra afim, "Por Uma Vida Mais Doce", de Danielle Noce, que terá diversos QRCodes que levarão o leitor a textos complementares e, principalmente, vídeos nos quais a autora mostra o passo a passo para o preparo de receitas.
 
A experiência do leitor
 
Se novas possibilidades surgiram com a internet e as ferramentas virtuais, esse movimento também faz com que os livros físicos procurem se reinventar. "O suporte tem suas características próprias e, assim como a cultura do papel está primariamente relacionada à memória e o arquivo da memória, a cultura digital está ligada visceralmente à efemeridade e à interatividade", diz Renata. 
 
Se outrora a interatividade do livro de papel podia se resumir a um castelo pulando de suas páginas ou algo do tipo, agora as propostas podem ser um tanto mais ousadas. É o caso de "O Livro que Não Pode Esperar", experiência da editora argentina Eterna Cadencia, feito com tinta especial que começa a desaparecer e some completamente 60 dias depois do livro ter sido aberto pela primeira vez. 
 
Menos arrojada, mas ainda proporcionando algo além da leitura em si, é a proposta de "1 Página de Cada Vez”, de Adam Kurtz, que provoca quem o lê para que reflita sobre a vida e exercite a criatividade propondo brincadeiras diferentes a cada página. Algo semelhante faz Keri Smith em “Destrua Este Diário" - que pede até para ser levado ao banho – e "Termine Este Livro", que conduz o leitor para que ele complete a história a ser desvendada.
 
Entretanto, independente da interatividade se restringir ao papel ou que se desdobrar para o virtual, o importante é a experiência que a obra pode proporcionar. "É divertido transitar entre tantos gêneros e suportes e saber que as pontes entre o papel e digital são invisíveis, como é invisível a atenção do leitor. Ou seja, estamos todos lidando com experiências imateriais, subjetivas e cheias de possibilidades, tanto quem produz quanto quem recebe", garante Renata.

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