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Um dos mais esperados do ano, livro de David Foster Wallace chega ao Brasil

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O escritor David Foster Wallace, que cometeu suicídio em 2008 Imagem: Divulgação

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

29/11/2014 06h00

 Uma das obras mais aguardadas do ano no meio literário, “Graça Infinita”, de David Foster Wallace, já está nas livrarias brasileiras. Tijolo de 1.144 páginas, o romance narra a história dos irmãos Hal, Orin e Mario Incandenza, que precisam cuidar do legado deixado pelo pai, James, cineasta que se suicida após produzir um filme que leva espectadores à inanição e à morte –o que chama a atenção de diversas organizações que veem na obra uma espécie de arma letal. Tudo isso se passa num mundo no qual Estados Unidos e Canadá viraram a Onan (Organização de Nações Norte-Americanas), uma parte do continente se tornou depósito de lixo tóxico e a contagem dos anos foi vendida às grandes corporações.

Segundo romance de Wallace –o primeiro foi “The Broom of the System”, de 1987-, o livro foi publicado nos Estados Unidos em 1996. O autor o escreveu quando tinha 33 anos e procurava a melhor maneira de transformar em arte a sua criatividade literária e narrativa. “É a sua obra central. Posso até achar que o que ele escreveu depois, em certos aspectos, supera este livro. Mas em abrangência, em pretensão, força bruta e poder, nada se equipara a 'Graça Infinita'”, diz Caetano Galindo, o tradutor do título no Brasil.

Com uma visão bastante crítica sobre o entretenimento e o modo de vida norte-americano, o livro logo conquistou fãs em seu país natal e ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que Wallace se tornou um dos autores mais cultuados das últimas décadas. O escritor Marcelo Rubens Paiva, por exemplo, quando leu outra obra do norte-americano, “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo”, em 2012, escreveu em seu blog: “Sua neurótica meticulosidade e a capacidade de descrição lembram o nosso Renato Pompeu (‘Memórias de uma Bola de Futebol’). A precisão em descrever o sofrimento de uma lagosta cozida viva, uma privada a vácuo, uma jogada de Federer, com tantos detalhes, humor e como somos ridículos […], colocam o cara na lista daqueles poucos escritores que pretendemos ler tudo!”.

A tradução

Feito em um ano, o trabalho de Galindo em “Graça Infinita” foi denso. Precisou encarar 1.700 laudas de tradução (cerca de 3.570.000 caracteres). Mas não foi a primeira vez que superou esse tipo de desafio. Poucos anos atrás, já havia vertido para o português um dos grandes clássicos da literatura britânica: “Ulysses”, catatau do irlandês James Joyce, lançado no Brasil em 2012. “Os dois são romances intensos, na medida em que abusam dos recursos clássicos do gênero. Assim, representam experiências profundas de tradução, em que tudo que há de difícil num romance parece ser concentrado”, diz, mostrando as convergências de seu trabalho nos livros de Joyce e Wallace.

Galindo aponta que as maiores dificuldades de traduzir o autor de “Graça Infinita” são “manter a sanidade ao trabalhar com o tempo de imersão em certas mentes pesadas e tortuosas que ele cria e lidar com o tom da prosa dele, uma curiosa mistura de alto e baixo, oral e refinado, em frases que não necessariamente fecham em termos sintáticos, ou seja, criar uma versão disso”.

Como exemplo dessas construções na obra, ele cita o trecho abaixo:

Graça

  • O estresse de todas as complexidades e prioridades que é necessário triar e aí ponderar contrastivamente tira Charles Tavis da cama na Casa do Diretor num horário desgraçado quase todo dia, com seu rosto ainda inchado de sono se contorcendo com permutações. Ele fica parado de chinelinhos de couro à janela da sala de estar, olhando para o sudeste, para além das Quadras Oeste e Centrais, vendo o grupo de jogadores das equipes a se reunirem lentos naquele brilho cinzento, carregando equipamento de cabeça baixa e alguns ainda dormindo de pé, com o primeiro pedacinho da fuça do sol protuberando através do horizontezinho da cidade bem longe deles, os reflexos alumínicos de rio e mar, a leste, as mãos de Tavis se mexendo nervosas em volta da xícara de descafeinado de avelã que lhe fumega rosto acima, cabelo descomposto e caindo num lado, testa alta contra o vidro da janela de modo que ele sente o frio cruel da manhã lá fora, com os lábios se mexendo levemente e sem som

    David Foster Wallace, em "Graça Infinita"

Apesar da dificuldade, Galindo garante que gostaria de traduzir tudo o que o autor escreveu, “precisamente porque os desafios são grandes, e do tipo que me interessa. Deve ser igual um esquiador que prefere descer uma pista difícil”. Se aventurando em outra pista de Wallace, já começou a traduzir “Pale King”, um romance inacabado do autor.

Depressão e reconhecimento

Galindo aponta o escritor como “o maior prosador da língua inglesa depois de Thomas Pynchon. E talvez o maior expoente do romance como laboratório ético desde Tolstoi”. Não é pouco. Wallace se formou nas faculdades de filosofia e letras e permaneceu no ambiente acadêmico, principalmente lecionando, durante boa parte de sua carreira. Em seus textos e discursos, falava muito sobre questões morais da vida, das engrenagens e interesses que movem –e muitas vezes deterioram- a sociedade e o modo como cada indivíduo é impactado e, ao mesmo tempo, fomenta esse sistema. Toda essa complexidade lhe causava grandes perturbações, tanto que passou cerca de 20 anos em depressão, consumindo drogas, antidepressivos e procurando tratamento em clínicas psiquiátricas. Pôs em prática uma solução derradeira para os seus problemas no dia 12 de setembro de 2008, quando, aos 46 anos, enforcou-se em sua casa.

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Capa de "Graça Infinita", de David Foster Wallace Imagem: Divulgação

A partir de então, o reconhecimento à sua obra apenas aumentou, e Wallace passou a ser cultuado ao redor do mundo. “Ele é uma presença enorme. E até por isso que neste exato momento a influência dele nem é muito mencionada. Ele virou o cara que precisa, ainda, ser superado. Ele é o cara que, se você não leu, foi lido por alguém que você lê”, aponta Galindo. O tradutor acredita que internacionalmente o espaço destinado a Wallace encolhe na medida em que o escritor ganha um novo patamar de importância, mas que o interesse por ele no Brasil está “definitivamente ascendente”.

A prosa de Wallace está longe de ser das mais simples que há –não é raro se deparar com notas de rodapé que preencham uma página inteira, por exemplo. Caso um leitor queira se habituar progressivamente ao estilo do autor, um caminho possível, para ficarmos nos livros já lançados no Brasil, deve começar com “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo” (Companhia das Letras), volume que reúne matérias que o norte-americano escreveu para veículos diversos, além de um famoso discurso de formatura. Em seguida, a opção é o livro de contos “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” (Companhia das Letras), para depois, enfim, chegar ao mais recente lançamento. Mas também há a via defendida por Galindo: “abrir a primeira página de 'Graça Infinita' e meter a cara mesmo, ir em frente”.

Título: “Graça Infinita”
Autor: David Foster Wallace
Tradutor: Caetano Galindo
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 1.144
Preço: R$111,90
 

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