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"Selfies" dominam estreia da mostra Ron Mueck na Pinacoteca de São Paulo

Guilherme Solari

Do UOL, em São Paulo

20/11/2014 17h51

Um curioso fenômeno está mudando a maneira como o público interage com as obras de arte nos museus: o bom e nada velho "selfie", autorretrato feito com o celular, prontinho para divulgação nas redes sociais. Afinal, se as pessoas gostam de tirar fotos de si próprias mostrando o que comem no café da manhã ou até quando estão na cama, preparando-se para dormir, por que não junto de uma obra de arte? Imagine então quando essa obra de arte é a escultura de uma enorme cabeça adormecida ou de um casal de idosos gigantes tomando sol.

A exposição de Ron Mueck, que estreou nesta quinta (20) na Pinacoteca de São Paulo, mostra que os smartphones, seja fotografando as esculturas ou sendo usados para "selfies" com as obras ao fundo, são onipresentes. De crianças a idosos, a grande maioria do público que esteve na abertura da mostra andava de obra em obra do escultor australiano hiper-realista com os celulares firmes na mão, como se fossem uma extensão do próprio braço.

Junior Lago/UOL
Os irmãos Gustavo e Graziele Queiroz Imagem: Junior Lago/UOL

Enquanto conversava com os visitantes, até mesmo a reportagem do UOL foi abordada e "intimada" por um senhor idoso a tirar fotos de um detalhe da obra "Casal Debaixo do Guarda-sol". "Jovem, o meu joelho já não é mais o mesmo, você poderia se ajoelhar e fotografar os pés deles perto do chão?", pediu o senhor, que foi atendido pelo repórter. "Tira umas cinco para pegar bem o foco", completou.

Já o casal Gustavo e Aline, que não quis revelar seus sobrenomes, disse que a mania de fotografar tudo com o celular é uma forma de prolongar a experiência da exposição. "Chegamos aqui às 10h30. A gente ficou duas horas na fila e só vai poder ter alguns minutos com cada obra", falou Gustavo. Aline concordou: "A foto ajuda a gente a ficar mais tempo com elas [esculturas]".

Fila de duas horas

O tempo no local foi, de fato, mencionado por todos os visitantes com quem a reportagem conversou. A fila de, que durava em torno de duas horas, fazia com que as pessoas entrassem no museu cansadas e mal-humoradas. Mas elas iam relaxando conforme viam --e fotografavam-- as peças. Em frente à obra "Máscara 2", que retrata uma grande cabeça dormente e é a primeira escultura que os visitantes encontram ao chegar, houve até um breve bate-boca, quando algumas pessoas acusavam outras de terem "furado a fila". Logo, funcionários da Pinacoteca intervieram e esclareceram que não havia fila dentro dos salões da exposição.

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De certa forma, as obras de Mueck, que congelam momentos banais e cotidianos, parecem ainda mais curiosas quando cercadas hordas de fotógrafos amadores. Isso fica particularmente evidente em "Jovem Casal", que mostra dois adolescentes lado a lado em momento de aparente intimidade, sendo clicados como se fossem estrelas pop. 

"O 'selfie' ajuda a divertir, mas não consegue capturar como a obra é impressionante ao vivo", disse o gerente de contas Mario Francisco, que mesmo assim, tirava diversas fotos de si mesmo e da família junto das esculturas. "Tem muitos detalhes que não ficam aparentes numa foto, como os fios de cabelo, a barba, até os poros da pele."

Os detalhes minuciosos também foram apontados por Ana Valentim e Tamires Paes, que, depois de tirarem o seu "selfie", ficaram impressionadas com os pormenores das obras de Mueck. "Dá para ver até os dentes", falou Tamires, sobre a obra "Máscara 2".

Todas as peças da mostra eram fotografadas à exaustão, principalmente as mais impactantes. Mas a reportagem não testemunhou quase nenhuma "selfie" ao lado do frango depenado de "Natureza Morta", por exemplo, ou com o banhista de "À Deriva". Já "Casal Debaixo do Guarda-sol" e "Máscara 2" faziam os visitantes se acotovelarem para encontrar espaço e garantir o seu autorretrato. Em meio a essa disputa, "Máscara 2" levou um menino de cerca de oito anos se esconder atrás das pernas da mãe. Apesar de encorajado pelos pais a avançar, o garoto não quis arriscar. "Parece que ele vai acordar", disse o menino, sobre a enorme cabeça.

Mas os mais entusiasmados com o "selfie", na abertura da exposição, eram, sem dúvida, os irmãos adolescentes Gustavo e Graziele Queiroz, que visitavam a Pinacoteca junto de uma excursão de escola. "Acho muito legal tirar fotos, é uma forma de participar mais, dividir com os amigos", disse Graziele, que arrastava o irmão em torno de uma peça em busca do ângulo perfeito. "A guia falou que a melhor foto fica na cabeça, e isso até é verdade. Mas esta foto aqui no celular eu vou ter para sempre", concluiu Gustavo.

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