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Livro póstumo de Saramago não passou por edição, diz viúva do escritor

Danilo Verpa/Folhapress
13.ago.2013 - Retrato de Pilar del Rio, viúva de José Saramago, no Brasil Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

01/10/2014 05h00

"É um texto apurado, maduro, pleno de vida e humor: está entre as melhores páginas de José Saramago. Como responsável pela publicação, sinto que era uma obrigação e é uma honra entregá-lo aos leitores, que têm o direito de ler essas páginas. Quem poderia lhes retirar esse direito? Em nome de quê?". A afirmação é de Pilar del Rio, viúva do escritor e presidente da Fundação José Saramago, justificando a publicação de "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", livro que traz as páginas que o português havia escrito do seu então próximo romance, interrompido pela sua morte em junho de 2010.

A história incompleta --a narrativa, de fato, possui apenas três capítulos e ocupa 42 páginas numa diagramação bastante generosa-- está sendo lançada no Brasil pela Companhia das Letras e encerra as publicações do Nobel de 1998. "Com 'Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas' a obra de José Saramago está completa", garante Pilar, em entrevista ao UOL.

Divulgação
Capa do livro "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", de José Saramago Imagem: Divulgação

O livro apresenta o começo da história de Artur Paz Semedo, funcionário há quase 20 anos do setor administrativo da Produções Belona S.A., histórica fábrica de armamentos que carrega em sua razão social o nome da deusa romana da guerra. O protagonista é um amante das armas de fogo, ainda que jamais tenha disparado um tiro; adora filmes como "Apocalypse Now", "Cartas de Iwo Jima", "Pearl Harbor" e "O Resgate do Soldado Ryan", mas nunca se sente plenamente satisfeito com eles --qualquer pandemônio sempre parece insuficiente.

Após assistir ao filme "L'Espoir" e ler a obra homônima do francês André Malraux, Artur fica incomodado com uma referência a operários que foram fuzilados após sabotarem armamentos. Resolve dividir aquilo com Felícia, sua ex-mulher, pacifista que o largou por não suportar conviver com um homem entranhado no mercado de armas --via nisso uma incoerência com sua ideologia.

Ela o incentiva, então, a investigar os arquivos da empresa onde trabalha para averiguar se, entre 1930 e 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, a Belona comercializara armamentos aos fascistas. "E o que ganharia com isso?", questiona Artur. "Nada, mas aprenderias mais alguma coisa do teu trabalho e da vida", devolve Felícia. Temos o início dessas investigações, mas logo a história é interrompida.

Pilar aponta que o texto é uma forma de repúdio à violência, uma crítica aos problemas que a apatia ou a indiferença podem trazer. "Talvez a violência das sociedades não se deva apenas pela intervenção dos 'maus', mas também pela cumplicidade silenciosa de quem se omite. Na publicação do livro, insistiremos no que Saramago apresentou em toda sua obra: a reflexão sobre o poder e a responsabilidade". Fazendo uma conexão com títulos como "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Caim", ela ainda aponta que esse poder pode vir de preceitos religiosos, com suas ameaças e punições, ou das próprias armas.

Direto de Saramago

Segundo Pilar, o texto publicado está exatamente como Saramago o deixou. "Quando ele colocava um ponto final em um capítulo, era porque estava acabado. O texto não passou por nenhuma edição, está como ele havia escrito". Isso coloca o leitor de forma próxima ao escritor. Até possíveis equívocos, que provavelmente seriam corrigidos em uma revisão do autor, são revelados, por exemplo quando escreve que bolivianos e uruguaios entraram em conflito na Guerra do Chaco, que na verdade se deu entre bolivianos e paraguaios, como corretamente cita em todas as outras oportunidades.

Mas o que aproxima ainda mais o leitor do escritor são as notas publicadas após o final do texto, em pequenas reflexões sobre o próprio andamento do livro. Numa delas, de 16 de setembro de 2009, por exemplo, Saramago revela que terminaria a obra com "um sonoro 'Vai à merda'" proferido por Felícia. "Isso é estupendo. José Saramago sabia por que acabar com um 'vai à merda'. Talvez seja o melhor que se pode fazer quando se trata de armas, guerra, violência e falta de respeito para com os outros. Se todos disséssemos 'vá à merda' cada vez que se ensaia ou se propicia a violência...", pondera Pilar.

Em outros momentos interessantes, ele revela preocupação com o andamento do trabalho ("Por este andar talvez haja livro em 2020") e que a obra primeiro se chamaria "Belona" e, depois, "Produtos Belona S. A.". Somente no dia 2 de fevereiro de 2010 o escritor chegou ao nome derradeiro. A princípio, "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", citação retirada de "Exortação da Guerra", de Gil Vicente, seria a epígrafe do livro.

Lucidez na doença

Quando trabalhou nas páginas agora publicadas, a saúde do escritor já estava debilitada em virtude de sua leucemia. Entretanto, Pilar diz que isso não pode ser notado no texto, que apresenta "o humor e a ironia que caracterizaram a obra de Saramago, com as referências mais atuais e precisas. É um livro de maturidade lúcida, de sabedoria".

No ensaio que sucede os escritos do português, o espanhol Fernando Gómez Aguilera, organizador do livro "As Palavras de Saramago", toca no assunto: "É admirável a tenacidade com que, à beira do grande abismo, o escritor se agarrou à literatura".

O livro também apresenta outros dois textos, um do jornalista italiano Roberto Saviano, autor de "Gomorra", que compara Artur, o protagonista, a jornalistas investigativos como Tim Lopes, por conta de arriscadas buscas por histórias, e outro de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e cientista político ligado a questões de segurança pública. No ensaio, Soares confessa "que não havia sentido tão fortemente a ausência de José Saramago quanto no contato com esta obra inacabada".

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