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Obra da Bienal de SP mostra como PM identifica manifestantes pelos sapatos

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Cena da video-instalação "Não é Sobre Sapatos", de Gabriel Mascaro Imagem: Divulgação

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

30/09/2014 04h00

As manifestações de 2013 trouxeram um novo tipo de cobertura jornalística graças às imagens registradas em vídeo por grupos de mídia livre, que inundaram as redes sociais e muitas vezes denunciaram a ação opressora da Polícia Militar. Conhecido por dirigir documentários que cutucam as feridas ao mostrar problemas sociais, o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro decidiu entrar no assunto, mas pelo ponto de vista da PM. O resultado virou a videoinstalação "Não É Sobre Sapatos", exposta na 31ª Bienal de São Paulo, em cartaz até o dia 7 de dezembro deste ano.

A obra traz vídeos supostamente feitos por policiais militares que, antes do início das manifestações, filmam os rostos e os pés dos manifestantes. Quando os protestos começam, os rostos são cobertos, mas os sapatos não são trocados. Dessa forma, o aparente anonimato é desfeito, e a PM consegue identificar o manifestante mascarado.

Ao lado do vídeo, Mascaro também expõe um documento com instruções dadas a policiais à paisana. "Em caso de porte de câmera de vídeo na atividade de registro, chegar na manifestação antes do horário previsto. Iniciar o registro mapeando o rosto dos manifestantes em conversas informais e fundamentalmente registrar os sapatos", diz um dos tópicos do documento obtido por Mascaro.

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Cena da videoinstalação "Não é Sobre Sapatos", de Gabriel Mascaro Imagem: Divulgação

Ao UOL, Mascaro disse que os movimentos políticos hoje têm a proposta de serem mais despersonificados, internacionalistas e, em geral, pregam o anonimato a partir do uso de máscaras ou do lenço na cara. "Mas esta pesquisa aqui se lança para os pés, já que os sapatos revelam paradoxalmente esta singularidade que se esconde por trás deste rosto comum." 

Ao mesmo tempo em que os vídeos "desnudam" os manifestantes, Mascaro devolve o anonimato a essas pessoas ao esconder seus rostos com bolas pretas, toda vez em que aparecem. "O meu principal gesto político e estético foi cobrir com uma bola preta todos os momentos em que os rostos dos manifestantes são passíveis de identificação. No vídeo, percebemos como são muitos estes momentos de mapeamento e, com as bolas negras sobre a face, eu gesticulo uma devolução deste anonimato fisgado, ao mesmo tempo que evidencio algumas destas fragilidades que estão no entorno das ações diretas e do enfrentamento politico destes movimentos", disse o diretor, por e-mail, ao UOL.

A reportagem já havia encontrado pessoalmente com o cineasta durante o 47º Festival de Brasília, onde Mascaro estreou na ficção com "Ventos de Agosto". Na ocasião, ele afirmou que "Não É Sobre Sapatos" é uma obra delicada juridicamente. Mesmo por e-mail, Mascaro não contou como obteve as imagens ou se sofreu represálias.

Trajetória do artista

Formado em comunicação social pela Universidade Federal de Recife, Mascaro já havia chamado a atenção com suas obras cinematográficas. Em seu documentário mais famoso, "Doméstica", colocou a câmera na mão de adolescentes que registraram todos os passos de suas empregadas, expondo como a relação familiar afeta o trabalho dessas mulheres.

Em "Um Lugar ao Sol", Mascaro mostra a vida dos habitantes de coberturas de prédios em algumas capitais do país. Em outro longa, "KFZ-1348", assinado com Marcelo Pedroso, o diretor mostra as diferenças sociais de todos os donos de um mesmo Fusca.

Em "Ventos de Agosto", vencedor dos prêmio de melhor atriz para Dandara de Moraes e melhor fotografia no Festival de Brasília, Mascaro afirma que encontrou um espaço para se reinventar ao estrear na ficção. "Em 'Ventos de Agosto', passo para questões mais existenciais, como vida e morte, mas também falo de um país emergente que sofre pelo abandono."

Com isso, Mascaro foge de rótulos que quase grudaram nele no início de sua carreira. Com documentários impactantes, chegou a ser comparado com Eduardo Coutinho --diretor de filmes premiados, como "Cabra Marcado para Morrer" e "Edifício Master", morto em fevereiro deste ano. "Dizem que ele tinha uma singeleza, mas o que mais me chama a atenção [na obra de Coutinho] é a vontade que ele tinha de fabular e inventar", disse. 

Urs Flueele/EFE
8.ago.2014 - Gabriel Mascaro exibe "Ventos de Agosto" no Festival de Locarno Imagem: Urs Flueele/EFE

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