Livros e HQs

Mafalda chega ao 50 anos sem perder atualidade; quadrinistas homenageiam

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

29/09/2014 04h00

"Papa?"
"O papai está trabalhando, Guile"
"Po quê?"
"Porque gente grande precisa trabalhar"
"Po quê?"
"Porque senão não dá para comprar comida, nem roupa, nem nada"
"Po quê?"
"Porque o mundo está organizado assim, Guile"
"Po quê?"
"Um ano e meio, e já é candidato às bombas de gás lacrimogênio".

Os desenhos que ilustram a história acima são até dispensáveis para mostrar como continua atual o universo que rodeia Mafalda, clássica personagem de Quino e que nesta segunda-feira (29) completa 50 anos. A garotinha de cabelos negros ornados por uma fita e rosto gorducho ficou conhecida por causa de suas contestações e inconformismo com o mundo que lhe serviu de palco durante 1964 e 1973.

Divulgação
Mafalda mostra o seu ódio por sopas. Segundo Quino, uma alegoria dos governos militares. "Algo que ela não gostava, mas que tinha que suportar" Imagem: Divulgação

Filha de pais de classe média, Mafalda nunca se limitou a problemas típicos da infância e levou o olhar crítico e apurado para questões econômicas e sociais de todo o planeta. Demonstrava ojeriza às desigualdades, às injustiças e à violência da mesma forma que repudiava um prato de sopa. Na direção oposta, colocava Beatles no mais alto dos patamares.

"Mafalda é uma heroína 'enraivecida' que recusa o mundo tal qual ele é. (...) Já que nossos filhos vão se tornar --por escolha nossa-- outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real", cunhou o escritor Umberto Eco em "Mafalda ou A Recusa", texto publicado em 1969 e que ajudou a torná-la famosa mundialmente.

Em sua cidade natal, Buenos Aires, Mafalda virou praça e estátua, uma das atrações preferidas de muitos turistas para as fotos. Mas ela representa muito mais que isso: apesar de ter vivido somente nos desenhos e tirinhas --e uma brevíssima incursão pelo desenho animado--, tornou-se uma referência de seu país, uma das dez figuras argentinas mais conhecidas em todo o mundo no século 20.

"Olhando em perspectiva, há dois aspectos importantes sobre Mafalda: o primeiro foi o diálogo com fatos da época, algo inovador em tiras sul-americanas; o segundo, foi o diálogo estabelecido com o leitor adulto. Hoje, muitos se esquecem de que a série foi produzida num momento político bastante delicado da Argentina e que os adultos eram o público-alvo prioritário das histórias. Esse fato direcionou a produção de tiras nos jornais argentinos a partir da década de 1970 e é sentido até hoje", explica Paulo Ramos, jornalista especialista em HQs e blogueiro do UOL, autor de "Bienvenidos - Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos".

Um capricho no RG

Mafalda completa 50 anos neste 29 de setembro por capricho de seu criador. Na verdade, a menina surgiu em 1963 para uma campanha publicitária, mas Quino, então com 38 anos e já um dos principais desenhistas de humor do seu país, optou por considerar sua data de nascimento o dia em que ela estreou em uma tira independente, publicada no "Primeira Plana", semanário importante da Argentina na época. O pedido do veículo era para que Quino tivesse uma colaboração regular com ênfase na sátira, e o sucesso veio rápido: em 1966, as tirinhas de Mafalda já eram veiculadas em diversos jornais da América Latina e a garotinha começava a despontar para o mundo.

Quino é o nome artístico de Joaquín Salvador Lavado, que nasceu em 1932 em Mendoza, no oeste da Argentina. Assim como sua personagem, ele veio de uma família de classe média. Começou a desenhar influenciado por um tio pintor e publicou sua primeira tira em 1954. Exilou-se em Milão, na Itália, em 1976 por conta da situação política de seu país, que se encontrava sob ditadura militar. Mais tarde, passou a viver entre Madrid --tornou-se cidadão espanhol em 1990-- e Buenos Aires. Neste ano, ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias. O júri destacou o valor educacional e as características universais de sua obra.

Foi a universalidade que fez com que Mafalda extrapolasse a Argentina e virasse uma personalidade mundial. Até hoje faz bastante sucesso em países mais diversos, até mesmo do extremo oriente, como China e Japão. "É difícil precisar uma data de quando teria sido a primeira publicação de Mafalda fora da Argentina. No Brasil, ocorreu no comecinho da década de 1970. O eco se tornou maior quando chegou à Europa. O texto de Umberto Eco feito para a contracapa de 'Toda Mafalda', que reúne tiras da personagem, seguramente ajudou a dar o empurrão final. O escritor se referia a ela como 'contestadora'", registra Ramos.

Essa contestação se voltava a assuntos como a guerra no Vietnã, a situação econômica argentina e o futuro da humanidade. Pela postura, em 1977 Mafalda foi adotada pela Unicef (Fundos das Nações Unidas para a Infância) para ilustrar e comentar a Declaração dos Direitos da Criança. Por causa de suas ideias fortes, certa vez o escritor Julio Cortázar declarou: "O que eu penso da Mafalda não importa. O importante é o que a Mafalda pensa de mim".

Apesar de todo posicionamento crítico, ela conseguiu escapar da censura de seu país em uma época que os militares procuravam calar qualquer voz que destoasse das posições oficiais da nação. Quino acredita que isso possa ter acontecido porque as tiras eram percebidas como algo menor, um mero entretenimento --algo evidentemente equivocado.

"Cresci com ela e, cada vez que a lia, entendia de novas formas. Sinto que ela também foi crescendo comigo. São quadrinhos reflexivos e com altos voos poéticos. Mafalda representa a todas as pessoas que sonham com um mundo melhor", diz Gervasio Troche, quadrinista que nasceu na Argentina, mas se tornou cidadão uruguaio.

Colegas de Mafalda e Quino

O sucesso de Mafalda é dividido também com seus colegas de tiras, personagens que em muitas ocasiões foram fundamentais para que a inteligência da garota se destacasse. Depois do pai, que adora cultivar plantas, e da mãe, dona de casa vista como medíocre, o primeiro a aparecer, no começo de 1965, foi Felipe, um rapaz magro, de dentes projetados e personalidade bastante introspectiva.

Aos poucos foram surgindo outros, como Manolito, um gorducho que coloca o dinheiro acima de todas as coisas; Susanita, garota de rosto alongado e marcada pela futilidade; e Miguelito, um menino mais novo que costuma levar tudo ao pé da letra; além de Guile, o irmãozinho mais novo de Mafalda. "Admiro como Quino refletiu a sociedade nas diferentes personalidades de seus personagens”, diz Troche.

O sucesso das tiras fez também com que toda obra de Quino fosse observada com atenção. O próprio Troche conta que foi graças à garotinha que conheceu os outros trabalhos de autor. "O livro que mais influenciou a minha carreira foi 'Gente En Su Sitio'. Eu era um adolescente e buscava uma forma de me expressar com desenhos. Quando o li, senti uma emoção gigante e encontrei o que gostaria de fazer".

Quem segue linha semelhante é o quadrinista brasileiro André Dahmer. "Assim como [Robert] Crumb e [Charles] Schulz, Quino é uma escola dentro dos quadrinhos e da arte gráfica. Mafalda é icônica, brilhante e exata. Acho o trabalho de cartum do Quino mais importante e interessante, mas fica aqui o registro da invenção de um clássico".

A declaração de Allan Sieber, outro quadrinista nacional, vai ao encontro à de Dahmer. "Na verdade, fui mais influenciado pelos cartuns do Quino do que pelas tiras. E reza a lenda que ele acabou com a Mafalda porque o Jaguar falou que era uma m...".

Aposentadoria precoce

Ao longo de sua história, Mafalda passou por algumas publicações argentinas, mas em meados de 1973 seu criador decidiu que era hora de encerrar as tirinhas com a personagem. Dizia estar cansado de fazer sempre a mesma coisa, que encontrava dificuldades em não se tornar repetitivo. Apesar de desenhá-la novamente em uma situação específica ou outra, colocava ali um ponto final nas tramas da garota e seus colegas. Mas Mafalda continuou sendo lida e muito bem quista pelas décadas e gerações seguintes.

Em recente entrevista à agência de notícias EFE, Quino disse ser "como um carpinteiro que fabrica um móvel, e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho".

Por mais que tente transformar a garotinha em um mero objeto, o cartunista jamais conseguiu desvincular seu nome do de sua criatura. "Não sei dizer se, na época, ele tinha dimensão do ícone que iria ser criado a partir de então. Assim como Che Guevara, Evita Perón, Carlos Gardel, Mafalda foi inserida no rol de personagens míticos da cultura argentina, que saíram de cena no auge de suas diferentes atuações. Mafalda é uma filha que Quino carrega até hoje", diz Ramos. "É uma dessas obras que atravessaram o tempo. Cada artista reflete a sua época, mas há obras que perduram porque foram feitas para transcender", completa Troche.

Quino vence prêmio Príncipe das Astúrias

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