Livros e HQs

Amyr Klink diz que Cem Dias Entre Céu e Mar é mais importante que travessia

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

28/09/2014 12h50

Às seis horas do dia 10 de junho de 1984, numa fria manhã de domingo, o navegador brasileiro Amyr Klink estava autorizado a deixar o porto de Lüderitz, na Namíbia. Aos poucos, o cais e as pessoas que lhe desejavam boa sorte desaparecem da paisagem. Focas e golfinhos surgiram para brincar em torno do barco a remo de 5,94 metros. Logo o comandante --e única pessoa a bordo-- do Paraty avistou uma colônia de pinguins, mas a calmaria durou pouco. O mar mudou subitamente. Enquanto a água inundava o cockpit de Amyr, parte de seu equipamento se perdia. A aventura de atravessar remando todo o Oceano Atlântico havia começado.

Divulgação
Uma das capas do livro "Cem Dias Entre Céu e Mar", de Amyr Klink Imagem: Divulgação

A saga, que está completando 30 anos, terminou no dia 18 de setembro de 1984, na Praia da Espera, na Bahia. Um amigo de Amyr alertou o navegador de que tudo aquilo não valeria nada se não virasse um livro. O conselho foi ouvido e, já no final de 1985, a viagem chegava às livrarias narrada em "Cem Dias Entre Céu e Mar", obra desde então reeditada constantemente e que caminha para alcançar a marca de 2 milhões de exemplares vendidos. "Para mim, escrevê-lo foi algo tão ou mais interessante que a própria viagem e hoje ele é mais importante do que a travessia", revela o autor ao UOL.

Durante a trajetória, ele fazia registros em um diário de bordo, mas nunca pensou que transformaria a aventura em um livro. Atualmente, além de navegador e escritor estabelecido, autor de títulos como "Mar sem Fim" e "Linha-D'Água", Amyr considera que "o atestado de incompetência de um cara é não conseguir escrever a própria história".

Não que sua primeira experiência na escrita tenha sido fácil. Ele relembra que o processo foi "tão turbulento quanto atravessar o Atlântico". "Sou exigente, não tolero textos esdrúxulos, prolixos, mal feitos". À época, questões financeiras, familiares e a pressão da editora para publicar o livro o quanto antes também lhe perturbavam. "O duro era resolver as dívidas, os processos. Escrever a viagem foi até uma válvula de escape para os problemas reais".

Parte de sua história pode ser vista até dia 2 de outubro em São Paulo na exposição Linha D'Água, que apresenta 30 fotos das expedições do navegador, dispostas em painéis com textos sobre as viagens. Além das imagens, a mostra apresenta o barco a remo I.A.T., que os visitantes poderão ver de perto.A mostra é gratuita e fica no Espaço Cultural Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, Bela Vista).

101 dias entre céu e mar

Amyr resume a sua travessia de maneira simples. "Só fazer força de um continente até o outro que você chega, não precisa de conchavos ou acordos". Mas a realidade foi mais complexa, como se observa em "Cem Dias Entre Céu e Mar". Anos de planejamento antecederam a viagem. Tudo precisou ser pensado: cada detalhe do barco, o que levar, a alimentação, a quantidade de água, a metodologia de trabalho. Investigou bibliotecas, debruçou-se sobre tratados de navegação e debateu com amigos para definir o melhor lugar para sair da África, onde aportar no Brasil e qual rota seguir, lembrando que "no mar, o menor caminho entre dois pontos não é necessariamente o mais curto, mas aquele que conta com o máximo de condições favoráveis", como escreve.

Trabalhava até 16 horas por dia, mas se sentia mais desgastado psicologicamente do que fisicamente. Ingeria diariamente 4.200 calorias com refeições desidratas e sem sal, para que pudesse usar a água do mar no cozimento e já como tempero, economizando sua água doce. Em seus momentos de lazer, escutava uma fita de música, sintonizava em alguma rádio ou lia "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez. Lamentou quando percebeu que o único item que esquecera era justamente seu travesseiro. Dormia encaixado no fundo da popa e, às vezes, ao acordar, divertia-se relembrando dos seus sonhos. Sozinho por 101 dias, era essencial lidar bem consigo mesmo.

Os encontros com animais foram muitos: gaivotas, golfinhos, focas, um cardume de dourados que o seguiu durante muitos dias --observando com atenção, Amyr passa até a reconhecer um deles, de cor menos intensa, que batiza de Alcebíades. Mais tarde descobrira que aqueles peixes não eram apenas companheiros de viagem, mas amigos cuja ausência indicava a presença de temidos tubarões, que em algumas oportunidades se aproximaram atraídos pelos crustáceos grudados no fundo do barco.

Pelos relatos, os momentos mais mágicos da travessia se deram junto de gigantes. Certa noite, ao acordar com a embarcação sendo abalroada, Amyr teve uma visão rara: "uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo". Paralisou-se diante do espetáculo "belo e assustador ao mesmo tempo". Já próximo do Brasil, passou por uma "creche" de baleias e se deparou com as grandalhonas pulando no mar --por um instante achou que fosse algum exercício de guerra com disparos de bombas. Por isso, conclui que entre a África e o Brasil encontrou "tudo, menos solidão".

O final do relato é singelo. Sem as grandes festas e pompas que sucederam o sucesso da travessia, Amyr opta por encerrar a narrativa exatamente quando chega ao Brasil e encontra pescadores. Eles primeiro perguntaram como havia sido a pesca e, em seguida, pediram que mandasse um recado a um tal de Doró. Quando chegou em terra firme, outro pescador, solidário, ao vê-lo de mãos vazias, oferece-lhe duas sardinhas para que pudesse comer: era Doró. "Muita gente ficou frustrada com o livro acabar dessa forma. A reação daquelas pessoas foi muito mais profunda e impressionante do que todo o barulho que veio depois. O contato com os dois primeiros pescadores e com o Doró, com quem convivi nos dois ou três anos seguintes, antes de ele morrer, era tudo o que eu queria", relembra o navegador.

Amyr e a literatura

O escritor conta que, durante o trabalho, optou por deixar de fora eventos que considera fantásticos, mas que pouco tinham a ver com a travessia em si, como dificuldades burocráticas enfrentadas ou polêmicas com outras pessoas. Recentemente tentou reler a obra, mas encontrou dificuldades. "Dá vontade de mudar tudo, fazer de outro jeito. Seria mais conciso, gosto da escrita simples, contundente e intensa. Construiria as cenas com mais força. Mas, pra falar a verdade, prefiro mesmo ler outros autores".

Amyr se mostra exigente até para escolher outros autores. "O exercício de escrever é muito interessante e hoje as pessoas escrevem muito mal. Dos 50 maiores nomes da literatura brasileira, só se salvam uns quatro ou cinco. Mas temos nomes impressionantes, uma nova geração de sujeitos que escreve bem pra caramba, como o Antonio Prata".

Apesar de ter crescido em Paraty, à beira da praia, foi graças à literatura que Amyr descobriu de verdade o mar. Primeiro vieram livros de autores como Conrad e Jack London. Em seguida, quando cansou da ficção, apaixonou-se pelos relatos de viagem. Lendo sobre a Antártica, chegou à conclusão que todos os protagonistas das principais expedições ao continente, nomes como Robert Falcon Scott e Roald Amundsen, também foram grandes escritores.

Agora, ele espera que seus livros sirvam de estímulo para que as pessoas passem a fazer relatos de suas vidas. "Nas primeiras viagens que fiz aos 16, 17 anos, fiquei impressionado como os meninos e meninas da Europa tinham o hábito de fazer seu diário. Escrever sobre as próprias experiências é algo extremamente valioso, e no Brasil não temos esse costume. Infelizmente não temos a cultura de registrar o nosso dia a dia, e acho importante estimular as pessoas a escreverem sobre a própria vida. O Brasil é rico em histórias, mas pobre em relatos". Foi graças a esse incentivo que Laura, Tamara e Marina, filhas de Amyr, lançaram em 2010 o livro "Férias na Antártica". "Hoje elas concorrem comigo, acho isso muito divertido".

Hoje Amyr se dedica a construir "barcos malucos", com experiências e propostas diferentes, como um anfíbio, e planeja uma viagem para o Ártico. Continua escrevendo textos diversos, mas sequer sabe se eles serão publicáveis. "A escrita é fisicamente árdua, não só intelectualmente. No ritmo que estou, não tenho condições de chegar bem no final desse processo".

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