! Com segundo livro, Raphael Montes quer ser referência de escritor policial - 03/09/2014 - UOL Entretenimento

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Com segundo livro, Raphael Montes quer ser referência de escritor policial

Bel Pedrosa/Companhia das Letras
31.jan.2014 - O escritor brasileiro de romance policial Raphael Montes em sua casa, no Rio Imagem: Bel Pedrosa/Companhia das Letras

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

03/09/2014 07h00

Raphael Montes vive um momento raro para um jovem escritor brasileiro. Aos 23 anos, ele teve seu segundo livro, "Dias Perfeitos", publicado com uma tiragem inicial de 10.000 exemplares e, em três meses, viu uma nova impressão ser feita com mais 3.000 volumes. E os direitos de publicação do livro foram vendidos para nove países, entre Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Portugal.

Tanto "Dias Perfeitos" quanto "Suicidas", seu primeiro romance --finalista do Prêmio Machado de Assis de 2012 e do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013-- tiveram seus direitos vendidos ao cinema. Scott Turow, renomado autor de romances policiais, diz que Raphael "certamente vai redefinir a literatura policial brasileira e surgir como uma figura da cena literária mundial", declaração estampada na capa do recente trabalho do jovem.

"É engraçado como o reconhecimento de um estrangeiro por um jovem brasileiro cria reconhecimento aqui. Isso se aplica para muitas coisas, alguém de fora precisa falar que é legal. É o complexo de vira-lata em pessoa", diz o carioca Raphael ao UOL.

Do fracassado roteiro ao sucesso do livro

O enredo de "Suicidas" nasceu quando um amigo pediu a ele um roteiro de filme para ser feito com baixo orçamento e em locações internas, com um elenco de jovens artistas que aceitassem trabalhar de graça e nada de efeitos especiais. Para Raphael, seria clichê demais colocar os personagens dentro de uma casa com um assassino, então criou uma história na qual as pessoas se matam e o mistério está no por que dos suicídios. Ele não gostou do resultado como roteiro, mas viu que o texto poderia virar uma obra literária.

"É um livro destemido, inocente mesmo, com todas as vantagens e desvantagens que isso traz. Quando terminei de escrevê-lo, sabia que tinha um bom livro de literatura policial". Essa confiança fez com que o escritor, sem contatos no meio editorial, tentasse a sorte junto às grandes editoras. Não obteve resposta de nenhuma delas e mudou de estratégia: resolveu se arriscar nos prêmios literários. Chamou atenção já no primeiro que se inscreveu, da editora Benvirá, em 2010, que lhe rendeu um contrato para publicação.

Aos 20 anos, Raphael alcançava o que desejava desde a época da escola, quando percebeu que não tinha talento para o teatro e mudou seu foco para a literatura. Escreveu um conto, passou para um colega de sala e percebeu que a história começou a circular. "Vi que tinha feito algo que destoava, que era mais legal do que os outros faziam. Então passei a ser escritor. Tem até a ver com o ego. Eu, que nunca fiz sucesso com futebol, comecei a aparecer assim".

Raphael fazia fan-fictions de Sherlock Holmes e lia muito Agatha Christie, o que foi delineando o gênero que seguiria no futuro. Da inglesa, aprendeu muito de processo criativo, como marcações de viradas, planejamento de surpresas, fichas de personagens e o "esquema racional da criação". Porém, rejeita a comparação com a rainha do crime ("Ela é muito menos violenta do que eu") e diz que tem mais a ver com Stephen King.

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Sinceridade de um escritor policial

A comparação com Stephen King fica evidente em "Dias Perfeitos", que apresenta claras semelhanças com "Misery", obra de King que deu origem ao filme "Louca Obsessão" (1990), de Rob Reiner. O livro de Raphael conta a história de Téo, um estudante de medicina que, em uma festa, conhece e se apaixona por Clarice. O amor repentino se torna doentio e o garoto utiliza os conhecimentos que aprendeu na faculdade para ter a menina ao seu dispôr, ainda que contra a vontade dela. Passando por cenários do Rio de Janeiro, Teresópolis e Ilha Grande, a relação entre Téo e Clarice se constrói em experiências extremas e violentas.

"A literatura policial tem três elementos: crime, criminoso e investigação. A investigação parece estar morrendo e no Brasil, com descrédito absoluto na polícia e na justiça, é quase vital que ela não seja importante. Então, a questão do livro vira outra. O elemento crime me interessa muito: o que leva alguém a cometê-lo? Quais as consequências que isso traz? O que leva um sujeito ordinário a se envolver em uma situação de crime? Quais as consequências emocionais e dramáticas de um episódio de violência?", questiona-se.

Nas aparições públicas que se intensificaram após o lançamento de "Dias Perfeitos", Raphael é apresentado como um "escritor policial". "Digo que sou policial porque sou sincero, acredito que é o que faço, tenho um carinho pelo gênero. Queria ser o escritor policial brasileiro, que associassem meu nome ao suspense, ao mistério".

De seus colegas de gênero, considera que Tony Belloto "ocupa um espaço que, por enquanto, é só dele, com um romance de linguagem absolutamente simples, com uma pegada de entretenimento, reviravoltas, num viés que vai pelo noir americano". Já Luiz Alfredo Garcia-Roza, Raphael acha que "é mais clássico, com o romance-enigma tradicional". E Patrícia Mello, para ele, "é o futuro da literatura policial, com livros onde o que interessa é a psicologia por trás de tudo, como o crime afeta as pessoas".

Atrás de novidades

Raphael sabe que a única maneira de se manter em destaque é apresentando novos trabalhos, que, de preferência, sejam sempre melhores que seus antecessores. "Sei que agora fui a novidade, mas no próximo não sou mais, sou só a continuação da novidade. Mas isso não me preocupa". O sucesso de "Dias Perfeitos" lhe rendeu dinheiro suficiente para dar um tempo nos estudos --ele é formado em direito e estudava para prestar concursos públicos-- e se dedicar à literatura. "Se o padrão se mantiver, consigo viver de escrever, o que sempre foi minha vontade".

Bel Pedrosa/Companhia das Letras
Imagem: Bel Pedrosa/Companhia das Letras

O escritor participará de uma antologia de contos organizada por Tonny Belloto que se chamará "Rio Noir", na qual cada convidado escreveu um conto policial ambientado em um bairro carioca. Raphael ficou com Copacabana e sofreu muito para dar conta da encomenda. "Só aceitei que estava bom quando umas dez pessoas leram e elogiaram". É que o gênero não é a sua praia. Considera que "suas ideias são mais complexas do que o que cabe num conto. Penso mais em causas e consequências do que em situações".

Ele também trabalha em dois novos romances, um que marcará a estreia de seu primeiro personagem fixo, um padre católico que será uma espécie de detetive ou delegado e que Raphael deseja emplacar também em uma série televisiva. O outro trabalho, que pretende publicar no final de 2015, traz a história de quatro amigos que saem do interior do Nordeste e vão para o Rio de Janeiro fazer faculdade. Em meio a dificuldades rotineiras, como levantar o dinheiro para o aluguel, iniciam sem querer um negócio ilegal que os deixam muito ricos. "A história do livro está na ascensão e queda, uma espécie de 'Breaking Bad' no Brasil com personagens jovens".

Além disso, engatinha com as adaptações de suas obras para o cinema, que ainda não têm previsão para serem lançadas. Nas telonas, espera que seus trabalhos se tornem bons filmes, não boas adaptações de livros. E abre mão de indicar qualquer ator para interpretar seus personagens. "Me coloco no meu lugar, sou só o cara que criou a história, a escolha do elenco cabe ao diretor".

Referência para jovens escritores, Raphael transmite suas experiências em vídeos na internet, mas planeja, para o final do ano, ministrar oficinas literárias no Rio de Janeiro e em São Paulo, nas quais focará a produção de romances, mas inevitavelmente falará também de mercado literário. "Acho legal ter virado referência para novos autores. Isso aconteceu sem eu conhecer ninguém de lugar nenhum, é um caminho possível de se trilhar naturalmente".

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