Livros e HQs

Evento com vlogueiras atrai centenas de pessoas e causa tensão na Bienal

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

25/08/2014 07h00

Ninguém esperava tanta gente para acompanhar a mesa com as vlogueiras Pâm Gonçalves, do canal Garota It, e Tatiana Feltrin, de Tiny Little Things, na noite de sábado (23) na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O evento era para acontecer em um espaço que comportava 80 pessoas, contudo, como aproximadamente 400 fãs queriam ouvir as garotas, o papo rolou de forma improvisada no estande do Espaço Imaginário. 

Pâm, de 23 anos, e Tatiana, de 32, são garotas que fazem vídeos veiculados no Youtube nos quais falam de literatura. A quantidade de pessoas dispostas a ouvi-las na Bienal apenas comprova o sucesso que ambas fazem junto ao público principalmente jovem; impressiona a influência que possuem sobre seus seguidores.

Quando o mediador do papo perguntou quem ali já havia lido obras por indicação das duas, praticamente todos levantaram a mão. Ao abrirem espaço para perguntas da plateia, alguns confessaram ler clássicos da literatura nacional e até mesmo estudar tradução por conta de Tatiana, que demonstrou preocupação com essa segunda revelação. “Acho complicado influenciar pessoas a seguir um ramo tão importante, mas tão pouco valorizado”.

Ambas disseram que hoje se sentem mais à vontade falando do que escrevendo resenhas, e a preferência é falar sobre o que gostam. “Não faço mais vídeos de livros que não gostei porque às vezes as pessoas se doem muito fácil. E nem sempre é o autor, mas os fãs”, disse Pâm.

Ao serem questionadas sobre suas bibliotecas básicas, a vlogueira do Garota It respondeu de pronto “A Lista Negra”, de Jennifer Brown, obra a qual fez referência e implorou para que o público lesse durante boa parte do evento, e ainda lembrou de “Jogos Vorazes”, de Suzanne Collins, e “Peças Infernais”, de Cassandra Clare. Já Tatiana também deu seu pitaco de literatura pop ao falar de John Green, mas ainda destacou Edgar Alan Poe, Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges.

Enquanto falavam e as perguntas iam chegando, o mediador tinha o cuidado de separar piadinhas, xavecos ou elogios à beleza das duas --ao todo, foram cinco pedidos de casamento destinados a Pâm e Tatiana. Elas admitem que esse tipo de assédio também acontece em suas páginas na internet. Pâm diz que vem principalmente de quem chega às páginas por acaso, sem conhecer o seu trabalho. Já Tatiana contorna a situação fazendo com que seu marido marque presença em alguns vídeos.

Rodrigo Casarin/UOL
Público lota Bienal de São Paula para a mesa com as vlogueiras Pâm Gonçalves, do canal Garota It, e Tatiana Feltrin, de Tiny Little Things Imagem: Rodrigo Casarin/UOL
Tensão

Pouco antes das 19h, hora marcada para o início do papo, o clima era de bastante tensão no Espaço Imaginário. Enquanto organizadores andavam de um lado para o outro buscando soluções para atender o enorme público que queria adentrar ao lugar --que já estava lotado há horas--, pessoas do lado de fora reclamavam bastante, alegando problemas variados.

“A mulher da organização disse que não adiantava chegar antes das 18h30, que só distribuiriam ingressos nessa hora. Então cheguei às 18h, mas não tinha mais ingresso. Disseram que às 16h já estava cheio de gente aqui e deixaram elas entrar”, queixou-se Viviane Paganotti, 34 anos, vendedora, de São Paulo. “Teve um evento antes e as pessoas que estavam nele não iriam sair, para ficar também para este. Nós estamos em muitos, então não nos deixaram entrar. Umas 17h30 disseram que não tinha mais lugar”, relatou Natália Lima, estudante de 15 anos, que veio do Rio de Janeiro para a Bienal.

Segundo Sergio Lopes Servollo, agitador cultural do Sesc e responsável pela programação e coordenação do espaço, o que aconteceu foi que, às 15h, houve uma primeira aglomeração de pessoas para esperar pela distribuição das 80 senhas para a mesa, que só aconteceria às 18h30. Após explicarem como funcionaria a retirada dos bilhetes, esse público de dispersou. Contudo, às 16h30 já havia, novamente, mais de duzentas pessoas aguardando para acompanhar o papo de Pâm e Tatiana. Como a fila apenas aumentava, optaram por distribuir as senhas, imaginando que o problema se resolveria. Não foi o que ocorreu. 

Com o espaço lotado e seus arredores tomado por pessoas querendo acompanhar o papo, tiveram que procurar uma solução. “O público tem toda razão em reclamar. Nosso medo era que houvesse algum tumulto, nos preocupamos com a segurança”, disse Sergio. Ao final, a solução encontrada – as garotas na rampa e todo o público acompanhando o papo --pareceu agradar a todos. “Não esperávamos uma procura tão grande, impressionou a todos”, revela Sergio. As palavras de Pâm vão ao encontro do que disse o responsável pelo espaço. “Isso é muito estranho para gente, imaginei que não ia nem lotar o lugar”.

As garotas

O canal do “Garota It” no Youtube conta com mais de 50 mil assinantes, enquanto o do “Tinny Little Things” se aproxima dos cem mil. O esquema das garotas é semelhante: uma câmera ligada, um único ângulo, frontal, registrando o que elas pensam sobre os livros que andam lendo ou que recebem em casa das editoras. Costumam durar entre 10 e 15 minutos e as avaliações e discussões quase sempre se resumem às histórias e aos personagens das obras abordadas. Mas, ainda que ambas sejam uma referência para esse formato de publicação na internet, há sensíveis diferenças entre as duas.

Pâm (que na verdade chama Pâmela) Gonçalves tem 23 anos, mora em Tubarão, Santa Catarina, e, por conta do blog, desistiu do curso de Sistemas de Informação para estudar Publicidade e Propaganda, curso no qual está para se formar. Ela é a típica leitora da geração Harry Potter – série que, ao ser citada na conversa, arrancou urros da plateia –, que passou a adolescência convivendo com o mundo mágico de J. K. Rowlling, sua autora favorita, e depois seguiu suas leituras com obras como “Crepúsculo”, de Stephenie Meyer, e “Jogos Vorazes”.

Seus vídeos costumam trazer obras que se encaixam no chamado “jovem adulto”, termo utilizado para definir os trabalhos que focam no leitor que acaba de deixar a adolescência. São títulos como “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”,  de Jerry Spinelli, “Um Caso Perdido”, de Colleen Hoover, e “Sem Você Não é Verão”, de Jenny Han. Conta que começou a “blogar sobre livros porque não encontrava ninguém que fizesse isso”.

Já Tatiana Feltrin é formada em Letras, dá aulas de inglês, mora em Diadema e, ainda que vez ou outra fale sobre algum “Águas para Elefantes”, “O Menino do Pijama Listrado” ou quadrinhos e mangás, nos últimos tempos vem mesmo é abordando grandes clássicos em seus vídeos. Passeando pelo Tinny Little Things, surgem comentários sobre Aldous Huxley, Fiódor Dostoiévski, Umberto Eco, Miguel de Cervantes, Jack London e até mesmo uma série de vídeos sobre a leitura de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust.

A ideia é mostrar que a literatura de entretenimento, os livros pops, são sim legais, mas há coisas bacanas além deles, que os clássicos podem ser vistos, lidos e discutidos de uma maneira menos carrancuda do que a feita pela escola. “Quando falamos deles de forma mais simples, de 'Dom Quixote” ou “Os Miseráveis', por exemplo, as pessoas gostam e os procuram”.

Apesar disso, o vídeo que fez com que seu vlog alavancasse foi sobre “50 Tons de Cinza”, de E. L. James, que resenhou  antes da obra sair no Brasil, quando as pessoas ainda estavam curiosas com o fenômeno internacional. Sua opinião não foi favorável ao livro e até hoje a vlogueira diz receber xingamentos por conta disso.

Sobre a Bienal

Com o tema de “Diversão, cultura e interatividade: tudo junto e misturado”, a 23ª Bienal do Livro de São Paulo, que vai até o dia 31 de agosto, no Pavilhão de Eventos do Anhembi, é um dos mais importantes do mercado livreiro e literário em toda a América Latina. Contará com 1500 horas de programação e mais de 400 atrações, dentre elas nomes reconhecidos internacionalmente, como Harlan Coben (“Confie em Mim”), Ken Follet (“Os Pilares da Terra”), Sally Gardner (“Coriandra”), Kiera Cass (“A Seleção”) e Hugh Howey (“Silo”), Cassandra Clare (“Os Instrumentos Mortais”) e Sylvia Day (“Toda Sua”).

Os ingressos para a Bienal, que dão acesso ao Pavilhão do Anhembi, custam entre R$ 6 e R$ 14 --dentro do espaço, toda a programação cultural é gratuita, com sendo que os bilhetes para cada evento devem ser retirados com no mínimo 30 minutos de antecedência. O evento conta com  300 expositores, que representarão 750 selos editoriais. Nos dez dias de evento, são esperados mais de 700 mil visitantes, que, para chegarem ao Anhembi, podem utilizar ônibus gratuitos que saem das estações de metrô do Tietê e da Barra Funda (desta segunda, apenas nos finais de semana). Toda a programação oficial pode ser conferida no site da Bienal.

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