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De Trapalhões a ópera "sombria", canções de Chico Buarque voltam ao teatro

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

06/08/2014 10h55

Com 70 anos recém-completados, Chico Buarque ganha uma temporada de peças e musicais no teatro. Os espetáculos “Ópera do Malandro” e “O Grande Circo Místico” entram em cartaz com novas montagens no Rio de Janeiro e São Paulo, e o vasto cancioneiro buarquiano é revisitado em “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, assinado pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.

Nos próximos meses, até mesmo os temas infantis de “Os Saltimbancos Trapalhões” poderão ser ouvidos com Renato Aragão --que estreia nos palcos após 54 anos de carreira na TV e no cinema--, e personagens das canções “João e Maria” e “Joana Francesa” se reencontrarão em uma cidade futurista tomada por ratos.

Em um ano em que Chico, recluso na Europa, finaliza seu novo livro, esta é a oportunidade de rever suas tramas e cantar seus maiores sucessos --muitos escritos justamente para espetáculos musicais, peças e filmes--, como “Geni e o Zepelim”, “Eu te Amo”, “Roda Viva” e “Beatriz”.

Grande medley

Com poucos ingressos disponíveis e muitos versos conhecidos de Chico, “todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, que ficou cinco meses em cartaz no Rio e desembarca em São Paulo na sexta-feira (8), no Teatro Faap, é um grande medley, como o nome sugere. A trama segue um grupo de artistas mambembes dos anos 1930, que cantam 40 canções que Chico escreveu para peças e trilhas sonoras de filmes.

“O Chico é o único compositor que, junto com o Edu Lobo, continuou a fazer o teatro musical. Não existem no Brasil compositores que façam isso, a não ser ocasionalmente. Chico se desenvolveu como dramaturgo, foi uma pessoa de música popular que se interessou pela arte de fazer cena”, explica Claudio Botelho. Entre tantas canções conhecidas, há uma inédita no musical. “Invicta”, escrita para a peça “Suburbano Coração”, foi encontrada em uma fita no baú de Fernanda Montenegro. “Nem Chico se lembrava dela.”

Uma semana depois, no dia 14, chega à capital paulista uma montagem luxuosa de “O Grande Circo Místico”. As canções de Chico e Edu Lobo, inspirados no poema de Jorge de Lima, narram a história do amor entre um aristocrata e uma acrobata. Com aval dos compositores, os dramaturgos Newton Moreno e Alessandro Toller ganharam liberdade para criar novos conflitos e personagens. Além de “Beatriz” e “A História de Lily Braun”, foram pinçadas outras parcerias de Chico com Edu, como “Valsa Brasileira” e “Acalanto”.

Ópera sombria e personagens futuristas

O grupo paulistano Cia. Da Revista tem dois espetáculos em produção para comemorar os 70 anos de Chico. Com ingressos disputados, "Ópera do Malandro" carrega nas tintas sombrias para contar a história do cafetão Duran e de sua filha Teresinha, que se envolve com o trambiqueiro Max.

Clássicos como "Pedaço de Mim" e "Geni e o Zepelim" serão revisitadas a partir de sexta-feira (8), no Centro Cultural Banco do Brasil. O malandro, que antes se vestia de terno branco e chapéu panamá, agora aparece todo de preto. "Eu queria valorizar o tom crítico que existia no texto. Eu sentia falta de ressaltar o lado cruel da malandragem", conta o diretor Kleber Montanheiro.

Para setembro, o grupo prepara "Reconstrução", que dará voz aos personagens criados por Chico em canções como "Joana Francesa", "Nicanor" e "João e Maria", para falar de uma cidade invadida por ratos, em clima futurista e batidas eletrônicas na trilha. "Não localizamos a história no tempo, mas a estética e o figurino são futuristas. 'Blade Runner' foi uma forte referência", conta Montanheiro.

No Rio de Janeiro, o dramaturgo João Falcão também leva "Ópera do Malandro" para os palcos, em outra montagem. O tom, dessa vez, é mais festivo. "A 'Ópera' é um mito, um desafio imenso para o diretor, ao lidar com canções eternas da música popular brasileira. As canções da 'Ópera' ganharam fôlego fora do teatro, se tornaram tão conhecidas, que muitos nem sabem que foram feitas para o palco", contou João, em depoimento sobre a montagem.
 

Divulgação
Adaptação do filme homônimo, que levou mais 5 milhões de pessoas ao cinema em 1981, marca a estreia de Renato Aragão no teatro Imagem: Divulgação

"Saltimbancos Trapalhões"
Em setembro, será a vez da produção infantil de Chico voltar aos palcos, baseado em sua própria obra, “Os Saltimbancos”. Escrita em parceria com Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, “Os Saltimbancos Trapalhões” é adaptação do filme homônimo de 1981, que levou mais de 5 milhões de espectadores ao cinema.

Com estreia prevista para 27 de setembro, o espetáculo marca a estreia de Renato Aragão no teatro, após 54 anos de carreira. “Começaremos os ensaios na próxima semana, com Dedé Santana, Roberto Guilherme, que fez o Sargento Pincel na TV, e Tadeu Melo”, conta Botelho, que também está por trás da montagem.

Reprodução
"Roda Viva", o único texto que Chico Buarque não autoriza remontagem Imagem: Reprodução

Veto de Chico
Um dos espetáculos mais importantes do teatro brasileiro, e a primeira incursão de Chico na dramaturgia, “Roda Viva”, no entanto, ficará por mais tempo na coxia. É o único texto cuja remontagem Chico não autoriza.

Sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, “Roda Viva” virou um símbolo da resistência contra a ditadura em 1968. Na segunda montagem, já com Marília Pera, agentes do Comando de Caça aos Comunistas invadiram o teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancando artistas e depredando o cenário.

“Ele é bastante categórico em não montar a peça novamente. Soube que o Zé Celso também tentou remontar a peça duas vezes, mas acho que ele [Chico] acredita que o texto não tem mais representatividade”, opina Botelho.

Outro texto censurado pelo governo militar nos anos 70, “Calabar” pode ganhar remontagem nos próximos meses.  Há um projeto para ele voltar ao palco do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, mesmo local aonde chegou a ser encenado há mais de 40 anos.

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