Livros e HQs

Na Flip, artistas de rua vendem obras inspiradas em Suassuna e Ubaldo

Rodrigo Casarin

Do UOL, em Paraty

31/07/2014 15h28

Por mais que as roupas folclóricas os façam parecer perdidos num passado sertanejo, Macambira e Querindina estão antenados. Na quinta-feira passada, quando souberam da morte de Ariano Suassuna, correram para produzir um cordel em 42 versos e imprimi-lo em 300 exemplares antes de embarcarem no dia seguinte rumo a Paraty, para a Flip.

Suassuna não é o único homenageado do poema tipicamente nordestino. Na capa, nos versos e no título de "A Morte dos Imortais", o autor de "Auto da Comparecida" está acompanhado de João Ubaldo Ribeiro e Ivan Junqueira, outros dois escritores que integravam a Academia Brasileira de Letras e morreram nos últimos dias.

Com versos como "A morte é traiçoeira/ Mas, enfim foi enganada/ Levou três homens com ela/ Mas fez uma trapalhada/ Pois foram três imortais/ Eles ganharam a parada", as obras transformam os escritores em personagens para recontar brevemente suas histórias. "Foi uma manhã de inspiração e transpiração e depois uma correria para conseguirmos imprimir tudo antes da viagem", contou Macambira ao UOL.

No verso do livro há uma foto de Macambira com Suassuna, em 2003, e outra do casal com João Ubaldo, durante a Flip de 2011, debaixo da mesma árvore em que estão agora, em 2014. "O Ubaldo era muito crítico, abordava muito os problemas sociais", lembra Macambira. Sobre Suassuna, quem toma a palavra é Querindina. "Ele defendia muito a autenticidade, queria a cultura popular enriquecida, por isso nos identificamos muito com ele". O companheiro complementa: "Ele nos deu uma grande força quando começamos e o conhecemos. Disse para irmos sempre em frente e não desistirmos nunca".

Rodrigo Casarin/UOL
Capa do livreto "A Morte dos Imortais" vendido por Macambira e Querindina nos arredores da Flip 2014 Imagem: Rodrigo Casarin/UOL

"A Morte dos Imortais" é um dos livretos que mais chamam a atenção do público que para e assiste ao casal com roupas de cangaceiro --ela com o batom artisticamente borrado, e ele com um quê de Falcão, o cantor brega. Conseguem mudar o foco da conversa e das brincadeiras a todo instante, dão atenção a todos, falam de futebol para atrair o freguês, cantam para as crianças. Conforme o público cresce, o sotaque nordestino se acentua: recitam versos, fazem caras e bocas para as fotos. Estão acostumados a realizar o show na rua. As piadas, que quase sempre funcionam, repetem-se com frequência: "Mulher, tu és bela, mas com X, ex-bela" ou "Para de falar pra foto senão vira retrato falado".

Os personagens surgiram em 2002 e, no ano seguinte, começaram a fazer literatura de cordel e a rodar o Brasil em eventos literários para divulgar a arte. Macambira, na verdade, é Antonio Fernando Rocha dos Santos, tem 52 anos e é representante comercial, enquanto Querindina chama Marinalva Bezerra de Menezes Santos, 46 anos, é socióloga e professora. Vivem em Esperança, a 150 quilômetros de João Pessoa, no interior da Paraíba.

Costumam abordar questões contemporâneas em seus trabalhos. Quando mineiros chilenos ficaram soterrados por mais de dois meses em uma mina, por exemplo, fizeram um cordel e uma xilogravura para homenageá-los. Queriam, inclusive, levá-los até o Chile para transmitir uma mensagem de esperança (direto da cidade de Esperança, veja bem) aos homens, que, entretanto, foram resgatados antes de que cordelistas partissem para o país.

Homenagem a Millôr

Na Flip pelo terceiro ano seguido, Macambira e Querindina também trazem um trabalho inspirado no autor homenageado da festa. A obra sobre Millôr, uma biografia versada com tiragem de 500 exemplares, é outra que desperta grande atenção do público --muitos aproveitam a promoção de dois livretos por R$ 5 e o levam junto de "A Morte dos Imortais".

Outro artista pelas ruas de Paraty que trouxe trabalhos inspirados no homenageado desta edição da Flip é Fábio Pace, pintor e gravador, que vende reproduções seriadas --são 40 exemplares com tamanhos e molduras distintas-- de uma pintura que fez do rosto de Millôr. Diz que já na manhã da quinta-feira, o primeiro dia da Flip, a procura pelas obras eram boas.

Aos 70 anos, Pace conta que conheceu Millôr em meados da década de 1960 por acaso no Rio de Janeiro, enquanto passava uma semana na casa de um amigo músico. Do breve contato, guardou na memória a inteligência, a sagacidade e a perspicácia do artista. "Ele era muito rápido com as piadas, um ótimo cara para se bater um papo, tomar uma cerveja. Também tinha uma visão muito profunda do Brasil, um olhar satírico sobre o país, sabia as maneiras de expôr as mazelas", diz.

Questionado se o multifacetado artista estaria gostando de ser homenageado pela Flip, Pace acredita que sim. "O Millôr era o rei do ego. Não ficaria surpreso porque achava merecedor de algo assim em vida, mas ficaria grato e teria orgasmos triplos".

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