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Flip recebe líder yanomami e abre espaço para debates sobre os índios

Claudia Andujar
Davi Kopenawa é uma das maiores lideranças indígenas do mundo Imagem: Claudia Andujar

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

“Gostaria de deixar uma mensagem pro povo da cidade. Gostaria de falar um pouco sobre mim. Sou um yanomami que gosta de lutar, defender o meio ambiente. Os garimpeiros de Boa Vista ficaram com raiva de mim, estão me perseguindo e querem acabar com a luta do meu povo, com a nossa cultura tradicional. O homem da cidade gosta de matar índio, então queria dar essa mensagem para, quem ler, pensar sobre mim, falar com nosso governo para que ele não deixe acontecer de acabarem com as lideranças que lutam. Eles querem me matar porque não gostam que eu lute. Querem que deixe destruir a natureza, sujar o rio, crescer as doenças nas comunidades indígenas. Eles não gostam de índio que luta. Em 11 de junho passado, entraram na sede duas pessoas me procurando para me pegar, levar pra fora e me amarrar ou matar, mas consegui fugir e voltei para minha comunidade. Aqui eu não tenho segurança, eu mesmo me cuido, não saio na rua à noite. Sei que corro riscos”.

Davi Kopenawa é uma das maiores lideranças indígenas do mundo – em sua tribo, dentro da Terra Indígena Yanomami,  uma área 96 mil quilômetros quadrados na Amazônia, já recebeu personalidades como o rei norueguês Harald 5º e o ex-jogador de futebol David Beckham. Está à frente da Hutukara Associação Yanomami, fundada justamente para defender os direitos de seu povo. Foi na sede da entidade, na capital de Roraima, que sofreu as ameaças que descreve. Provavelmente ele falará sobre isso na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que começa nesta quarta (30). Na sexta (1º), ele dividirá a mesa “Marcados” com a fotógrafa Claudia Andujar. 
 
Mas não é só isso. Davi também aproveitará a oportunidade para dizer aos jovens da cidade sobre as visões de mundo do seu povo, sobre seus sonhos (a preservação das belezas naturais, rios com abundância de peixes, florestas com muitos animais...), sobre a maneira de se relacionar com as forças da natureza, sobre sua mitologia. “Vou aproveitar para falar com eles sobre nossa terra, nossos costumes, sobre os povos indígenas do Brasil. Vou pedir para que conheçam mais de nós, índios brasileiros, que respeitem nossa língua, nossos costumes, o lugar onde moramos, lá não pode poluir, destruir, derrubar as árvores, fazer estrada”. Ele também conta estar curioso para “conhecer mais a cultura não indígena, de participar da Festa”.
 
“Eu sou filho de antropóloga, tenho convivência com o tema indígena desde de pequeno. Ao montar a grade da Flip, percebi que o Davi era um autor brasileiro que tinha lançado um dos livros mais importantes da ciências humanas dos últimos anos e no Brasil ninguém sabe quem ele é, não costuma ser convidado para festivais. Então quis chamá-lo, ele tem muito a contar sobre a própria vida”, diz Paulo Werneck, curador desta edição da Festa, justificando o convite a Davi.
Divulgação
Claudia Andujar que estará na mesa da Flip com o yanomami Davi Kopenawa Imagem: Divulgação
 
É a primeira vez que a Flip abre um considerável espaço para que haja algum aprofundamento em temáticas indígenas. Além da presença de Davi e Claudia, a mesa “Tristes trópicos” também, provavelmente, abordará o assunto. Ela acontecerá no dia 2, com os antropólogos Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro. Com isso, quase 10% dos convidados à Festa deverão, de alguma forma, falar sobre índios. “Acho que a Flip presta atenção até tarde para essa temática, que já esta no mundo intelectual há muito tempo. Estamos levando pelo perfil intelectual que eles têm, mas é claro que há diversas ameaças aos interesses dos índios nesse momento, como a Amazônia, que se tornou um grande centro de interesses econômicos, então esse lado também pode ser interessante. Além disso, é uma oportunidade para, talvez, conhecermos mais do xamanismo, algo que sempre ouvimos falar”, opina o curador.
 
A queda do céu
 
Quando Werneck refere-se ao livro de Davi como “um dos livros mais importantes da ciências humanas dos últimos anos”, está falando sobre “A queda do céu”, que o yanomami escreveu em co-autoria com o antropólogo francês Bruce Albert – coube ao europeu passar para o papel as histórias que o índio lhe narrou, trabalho que levou cerca de quatro anos, dificultado principalmente pela tradução da língua yanomami para o francês. “Não queria que só os antropólogos escrevessem sobre nós, sobre nossa cultura. Eu me criei dentro da floresta, escutava meu pai contado histórias muito bonitas e queria escrever isso, o que eu escutava das lideranças sobre as terras, os rios, as montanhas, o sol, o céu, o universo em geral. Acho muito interessante eu escrever para não índio ler e pensar sobre a preservação da natureza. O livro é uma espécie de defesa do povo, não apenas dos indígenas, porque os não indígenas estão destruindo a beleza do nosso planeta. O livro serve para quem não conhece, nunca viu índio. Eles precisam aprender a respeitar nossa terra, nosso direito”.
 
Em suas mais de 800 páginas, “A queda do céu” apresenta o pensamento yanomami e a preocupação com o possível fim do mundo, que poderia ser precipitado pela destruição da natureza pelo homem. Além disso, ressalta o permanente diálogo, que se arrasta desde o início do mundo, entre os indígenas e os espíritos que regem o universo para que o céu não caia sobre a Terra, aniquilando todo o planeta. A obra, que foi publicada em 2010 na França – onde se tornou best-seller - e em 2013 nos Estados Unidos, sairá no Brasil em 2015 pela Companhia das Letras. 
 
Ser reconhecido primeiro fora do país, aliás, parece ser algo inerente a Davi. Quando resolveu buscar apoio para combater os garimpos que ainda ameaçam o seu povo (seja destruindo a terra, seja com as mortais doenças que os garimpeiros levam aos índios), foi no exterior que encontrou mais pessoas dispostas a lhe ajudar. “O povo de fora quer preservar a floresta, o pulmão do mundo, porque eles acabaram com as deles. Então eles dão mais importância agora, para não acabar tudo. Eles são mais preocupados”. Contudo, logo na sequência faz uma ponderação: ”Mas são só alguns, a maioria não quer preservar, quer rasgar a terra, sujar o rio... Tem empresário grande que fala isso”.
 
“A minha experiência diz que o Davi conseguirá transmitir o perigo que o mundo está correndo com a desenfreada necessidade de desenvolver tudo, ocupar tudo e chegar com isso ao fim”, diz Claudia, que, para o evento, está preparando uma série de imagens que retratam o trabalho dos xamãs. “Como essas imagens contam toda uma história, é uma apresentação muito tensa, justamente para mostrar que se não frear esse desenvolvimento a todo custo, então o mundo vai acabar e o céu vai cair. Farei uma pequena introdução e tenho a esperança que o Davi comente as fotos”, revela a fotógrafa.
 
Amizade
 
Claudia e Davi também levarão à mesa uma amizade que começou a ser construída na década de 1970. Os primeiros contatos foram esparsos mas se intensificaram quando a fotógrafa fez parte da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), que, em 1992, conseguiria que o governo realizasse a demarcação das terras yanomamis e, depois disso, seria rebatizada como  Comissão Pró-Yanomami.
 
Talvez o passado de Claudia e Davi, suas tragédias familiares, também tenha contribuído para a amizade entre os dois. Ela nasceu na Suíça em 1931, mas cresceu na Romênia, de onde fugiu com sua mãe em 1944, enquanto todo o resto de sua família era assassinada pelos nazistas. Viveu um tempo nos Estados Unidos e depois veio para o Brasil. Foi viajando pelo país que percebeu que se sentia melhor com populações carentes do que com a alta sociedade e encontrou na fotografia uma maneira de contornar a língua que não dominava. Sentiu-se muito bem quando conheceu os índios carajás e, fotografando para a revista Realidade no começo dos anos 1970, descobriu os yanomamis. Resolveu, então, mudar a vida: passaria a se dedicar a conhecer aquele povo da Amazônia. Povo onde estava Davi, índio que presenciou o primeiro contato de sua tribo com os homens brancos, o que levou à morte, por epidemias de doenças, boa parte da população de sua aldeia, incluindo seu pai e sua mãe. 
 
Em 2000, por problemas de saúde, Claudia deixou a CCPY e só voltou às terras yanomamis em 2010. Ficou surpresa com a recepção que teve. “Andando na aldeia, as pessoas me reconheceram, aquelas que me conheceram em 70, 80 e 90. Fiquei muito impressionada com isso. Muitos deles me chamaram de mãe”, conta ela que, em breve, pela relevância e qualidade de sua obra, terá um pavilhão exclusivo no Instituto Inhotim, que conta com um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do país
 
Relevância do tema
 
Há algum tempo que temas indígenas orbitam em torno da Flip, seja na presença de índios que aproveitam a festa para vender artesanatos, seja nos debates. Em 2009, Chico Buarque, que dividia uma mesa com Milton Hatoum e Samuel Titan Júnior, destacou um manifesto distribuído pelo Fórum de Comunidades Tradicionais, dentre elas os guaranis, que mostrava como a exploração imobiliária estava forçando aqueles que habitavam Paraty há décadas a deixarem suas terras. Dois anos antes, em 2007, alunos das escolas indígenas Guarani Tava Mirim e Karai Oka haviam apresentado danças e cantos de suas aldeias na Flipinha. Na sequência, também participaram de um painel sobre “raízes” da Ciranda de Autores junto de Daniel Manduruku e Fátima Miguez.
 
Ao explicar a relevância intelectual do tema, Werneck chama atenção para livros recentes que trazem histórias indígenas. São títulos como a série “Poesia.br”, organizada por Sergio Cohn, que tem um volume dedicado aos cantos ameríndios, e “Quando a terra deixou de falar”, de Pedro Cesarino. “É importante ter o pensamento indígena num festival literário porque já há obras que incorporam os índios à literatura brasileira, que pegam os mitos e transformam em poesia, por exemplo. Eles foram os primeiros caras a se dedicar à literatura no país. O livro do Davi prova que os índios estão aqui no Brasil mostrando e produzindo alta inteligência, complexa”, posiciona-se o curador. 
 
Provavelmente isso é a consequência de um trabalho que vem sendo feito há anos e, atualmente, encontra-se em um momento tecnicamente favorável. “Hoje em dia há muitos antropólogos e linguistas – inclusive indígenas – que têm bons conhecimentos das línguas indígenas contemporâneas, o que viabiliza o registro e a difusão de contribuições dos povos indígenas com outras culturas”, diz Beto Ricardo, que, como já dito, estará na mesa “Tristes trópicos” ao lado de Eduardo Viveiros de Castro, professor da  Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de obras importantes sobre antropologia e etnologia e que teve como um dos mentores o francês Claude Lévi-Strauss, um dos antropólogos mais importantes da história.
 
Beto Ricardo coordena o Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), do qual é um dos fundadores. Ele é outro que conhece Davi (considera-o “uma pessoa inspirada, cuja trajetória de vida o fez um homem-ponte entre mundos”) há mais de três décadas. Como Claudia, foi membro da CCPY  – incorporada ao ISA em 2008 – e seu programa no Instituto possui um termo de cooperação com a Hutukara. “Apoiamos várias iniciativas do povo yanomami, dentre as quais a realização de encontros de xamãs, a expansão de uma rede de comunicação por radiofonia, o intercâmbio com os yanomami da Venezuela e algumas pesquisas  sobre os conhecimentos tradicionais e diálogos interculturais”. Dentre esses apoios, está a tradução de “A queda do céu”.
 
O antropólogo diz ter ficado surpreso com a abertura da Flip para o assunto. Explica que seria interessante se a ocasião fosse aproveitada para se tratar de diversas questões pertinentes aos índios, como a demarcação de novas terras, o respeito aos espaços já demarcados e os problemas dos guaranis, o povo indígena mais numeroso do país, que, em alguns lugares, vivem literalmente à beira das estradas. Também considera importante que a temática seja abordada “de uma forma não apenas episódica, mas incorporando narradores e autores indígenas, como um nicho de mercado”, mas ressalta que politicas públicas são essenciais para se possibilitar a tradução de narrativas das cerca de 150 línguas indígenas para o português.

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