Livros e HQs

Carnavalescos lembram Ariano Suassuna no Sambódromo

Anderson Baltar

Do UOL, no Rio

24/07/2014 05h00

Mais do que um grande escritor, Ariano Suassuna  --que morreu nesta quarta-feira (23)-- sempre foi um defensor da cultura nacional e um admirador da cultura popular –-tão presente em suas obras, inspiradas, sobretudo, na literatura de cordel. Engana-se, no entanto, quem pensa que apenas o rico folclore nordestino fez parte da vida do autor. 

Em vários momentos, o Carnaval passou pela vida de Suassuna, apesar de ele não ter sido um grande folião. O mais recente foi em março deste ano, quando foi homenageado pelo bloco Galo da Madrugada, o mais tradicional do carnaval de rua de Recife. E, como não poderia deixar de ser, nos últimos anos sua vida e obra desfilaram pelos principais sambódromos do Brasil.

“Sou imperador lá do sertão”
O Império Serrano, uma das escolas de samba mais tradicionais do Carnaval carioca com nove títulos em seu currículo, escolheu para o Carnaval de 2002 uma das principais obras de Suassuna para o tema de seu desfile. “Aclamação e coroação do Imperador da Pedra do Reino: Ariano Suassuna” era um antigo sonho do carnavalesco Ernesto Nascimento, que levou três anos pesquisando todo o universo do escritor para poder transpô-lo para a Sapucaí.

Neste processo, um personagem importante foi Nilton Fernandes. Atualmente presidente do Conselho Fiscal da verde e branco, ele, por conta de uma coincidência familiar, auxiliou o carnavalesco, falecido em 2004, na pesquisa do enredo.

“Tenho uma irmã em Recife e, ao visitá-la, soube que o marido da minha sobrinha é da cidade de Belmonte. Ele se ofereceu para me levar até lá. Fiquei 15 dias mergulhado no universo de Suassuna e levei um vasto material em fotos e vídeos para o carnavalesco”, lembra Nilton, que destaca que o escritor foi um entusiasta do enredo desde o primeiro momento: “Ele recebeu o Ernesto em Recife e acompanhou todo o desenvolvimento do trabalho. Esteve no barracão para conhecer as alegorias e, na quadra, foi o primeiro a ver os figurinos. Ele ficou muito emocionado com a homenagem”.

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Em 2002, a escola de samba carioca Império Serrano homenageou o escritor Ariano Suassuna no grupo especial Imagem: Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem

Terceira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval, o Império Serrano pisou forte na Sapucaí e, com um belo samba-enredo, assinado por Aluísio Machado, Maurição, Lula, Carlos Sena e Elmo Caetano, fez uma apresentação empolgante –-a despeito do visual modesto por conta dos problemas financeiros.

Dentre os 4 mil componentes da verde e branco, estavam cerca de cem moradores da cidade de Belmonte, que, de ônibus, encararam uma verdadeira peregrinação para participar da coroação do Imperador da Sapucaí.

No último carro da escola, Ariano Suassuna não cabia em si de felicidade. Emocionado, sob os aplausos da passarela, afirmou: “Machado de Assis dizia que, no Brasil, existem dois países, um oficial e um real. Quando fui eleito para a Academia Brasileira de Letras, considerei o fato como uma homenagem do Brasil oficial. A de hoje, é a primeira grande homenagem que recebi do povo do Brasil real”.

O Império Serrano terminou em nono lugar.

Uma biografia autorizada no Anhembi
Em São Paulo, a Mancha Verde, escola de samba da tradicional torcida do Palmeiras, também se rendeu ao talento de Suassuna no Carnaval de 2008. Mais ainda: foi a única a homenagear o autor com um desfile que procurou enfocar toda a sua obra, além de passagens marcantes de sua biografia. Com o tema “És Imortal! Ariano Suassuna: Sua Vida, Sua Obra, Patrimônio Cultural!”, a escola ficou em sétimo lugar. O carnavalesco da escola na época, Eduardo Caetano, lembra que o enredo surgiu por um acaso.

Patricia Stavis/Folha Imagem
Ariano Suassuna e sua esposa Zélia de Andrade Lima durante desfile da escola de samba Mancha Verde, que em 2008 homenageou o escritor no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo Imagem: Patricia Stavis/Folha Imagem

“Estávamos desenvolvendo um outro enredo, mas tudo mudou quando, numa madrugada, o presidente Paulinho Serdan me telefonou e pediu para eu sintonizar a TV no programa do Jô Soares. Suassuna estava lá e deu uma entrevista memorável, que tomou o programa inteiro. A partir dali, vimos que ele merecia um enredo. Começamos a pesquisar e entramos em contato com o Suassuna, que aprovou na hora”, lembra o carnavalesco, que atualmente integra a Comissão de Carnaval da Vai-Vai.

Eduardo lembra que Suassuna foi bastante presente no processo de criação do Carnaval. Semanalmente, entrava em contato para saber todos os detalhes do que estava sendo transposto das páginas dos livros para alegorias e fantasias. E ainda fez sugestões: “A fantasia do nosso primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira seria uma homenagem a Pernambuco. Ele perguntou se poderíamos fazer o mestre-sala como Pernambuco e a porta-bandeira como Paraíba. E disse: ‘sou pernambucano, mas nasci na Paraíba’”.

Eduardo Caetano afirma que o mergulho na obra de Suassuna foi uma viagem inesquecível e guarda saudades do convívio com o escritor. “Uma grande pessoa. Inteligente, divertida, que buscava inspiração nas histórias do dia-a-dia e era um nacionalista ferrenho. Tenho muito orgulho de ter levado sua vida para a avenida”, afirma.

E o Auto foi campeão
Em 2013, a obra mais famosa de Ariano Suassuna foi para a pista de desfiles do Anhembi. Apresentando o enredo “O Espetáculo Vai Começar, Pérola Negra Apresenta o Auto da Compadecida”, a escola da Vila Madalena foi campeã do Grupo de Acesso e conquistou o direito de desfilar no Grupo Especial paulistano no Carnaval deste ano.

Para o carnavalesco André Machado, responsável pelo desfile, o segredo do sucesso da escola foi a riqueza da obra literária de Suassuna, que permitiu um desfile de fácil leitura e identificação popular. “A estética de Suassuna é muito bem detalhada nos livros e é de fácil transposição para os figurinos e as alegorias. É tudo muito vivo e ‘carnavalizável’.”, conta ele, que atualmente está na X-9 Paulistana.

O enredo era um sonho antigo de André. A ideia surgiu há 12 anos, quando ele leu “O Auto da Compadecida” pela primeira vez. Em 2006, quase conseguiu desenvolvê-lo na Nenê de Vila Matilde. Ao contrário dos colegas da Império Serrano e da Mancha Verde, André não teve a oportunidade de conhecer Suassuna pessoalmente. Mas, mesmo assim, o escritor apoiou o enredo e forneceu subsídios para as pesquisas.

“O fato de ele ter me recebido bem por telefone me ajudou bastante para a elaboração do enredo. Ele me deu todas as coordenadas, e, com isso, tentei ser o mais fiel possível à obra”, lembra o artista.

A popularidade do livro, adaptado para cinema e televisão, ajudou a aceitação do enredo dentro da comunidade da escola e, na opinião de André, foi um dos fatores que conduziu a agremiação a um desfile memorável.

“Muita gente disse que, se tivéssemos desfilado no Grupo Especial, teríamos conseguido chegar entre as cinco primeiras. Foi, sem dúvidas, um grande Carnaval, que a comunidade nunca se esquecerá”, afirma André, que já pensa em uma nova homenagem a Suassuna: “Cheguei a pensar em fazer, para o próximo Carnaval, um enredo sobre a Pedra do Reino. Mas, por ser um livro muito denso, ainda acho que posso me aprofundar mais na pesquisa. Quem sabe, em breve, não faço outra homenagem?”.

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