Livros e HQs

Convidado da Flip, escritor se divide entre Globo e literatura marginal

Arquivo pessoal
Charles Peixoto, escritor carioca de literatura marginal Imagem: Arquivo pessoal

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

15/07/2014 13h17

Pode parecer estranho, mas há quem consiga ser, ao mesmo tempo, poeta marginal e funcionário da Rede Globo. Charles Peixoto, um dos principais nomes da chamada Geração do Mimeógrafo e do grupo Nuvem Cigana, que despontou nos anos 1970, é um deles. Autor de livros como "Marmota Platônica" e "Sessentopéia", o escritor também é, desde 1981, roteirista da emissora e nome por trás de programas como "Clip Clip", "Linha Direta", "Armação Ilimitada" e "Malhação". Atualmente, trabalha no remake do recém-estreado "O Rebu".

Charles é também um dos convidados da Flip 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty), que começa em 30 de julho e vai até 3 de agosto --no dia 31, ele dividirá a mesa Poesia & Prosa com Eliane Brum e Gregorio Duvivier. Não sabe como foi parar lá, mas gostou. "Fui surpreendido [pelo convite], mas, quando me chamaram, claro que eu tinha interesse, possibilidade, disponibilidade", disse ao UOL.

Dos colegas com quem dialogará, disse que conhece somente pouco do trabalho de Duvivier. "Já li algo do Gregorio e achei super bacana, legal, divertido. De certa maneira, temos em comum a coisa pop. Não fazemos poesia classista, classicista, sei lá. Eu tenho uma coisa muito mais rock e samba do que música clássica".

Passado poeta

Charles Peixoto, na verdade, chama-se Carlos Ronald de Carvalho e é neto do poeta Ronald de Carvalho, importante nome do modernismo brasileiro. Ainda que não tenha conhecido pessoalmente seu avô e dele tenha herdado, por meio de seu pai, apenas os livros que escreveu, tinha o antigo escritor como uma espécie de sombra "imperativa, impositiva e desagradável".

Carregava uma obrigação de ir bem na escola por conta de seu antepassado, um peso para "um jovem que sempre foi mau aluno", ele conta. Quando começou a compor seus próprios versos, decidiu romper com aquilo. Passou a assinar como Charles Peixoto, algo que, no futuro, veria como uma "bobagem".

Foi na década de 1970, no Rio de Janeiro, que Charles integrou a Geração Mimeógrafo, que fazia poesia e a distribuía em livros impressos à base de álcool ou fotocopiados. Eram poucas edições, restritas a um grupo limitado de pessoas. Essa produção centralizada nos artistas permitia que realizassem trabalhos fora do padrão e alheios ao mercado editorial. Para divulgar os trabalhos, formou, junto de Chacal e Bernardo Vilhena, dentre outros, o Nuvem Cigana, grupo que se unia e fazia apresentações nas quais os versos se juntavam a performances artísticas, artes plásticas e música.

"O que fizemos com relação à poesia naquela época foi uma revolução. Nossa poesia falada rodou o Brasil inteiro. Recebíamos muitos livros e cartas pedindo força e orientação. Tem uma importância fundamental para o que veio depois. Hoje todo lugar tem os saraus, mas naquela época não tinha porra nenhuma", lembra.

Tudo isso acontecia em meio à repressão militar, o que fazia com que os garotos inevitavelmente fossem vistos com desconfiança. "Nós éramos malucos, moleques de Copacabana. Eramos cabeludos, considerados marginais do sistema, então já eramos vistos como perigosos, como libertinos, drogados", conta o poeta. São dessa fase os livros "Travessa Batalha 11" (1972), "Creme de Lua" (1975), "Perpétuo Socorro" (1976), "Coração de Cavalo" (1979) e "Marmota Platônica" (1985), último título antes do hiato de décadas.

Divulgação
Capa do livro "Supertrampo" (2014), de Charles Peixoto Imagem: Divulgação

Na década de 1980, Charles teve uma decepção com o mercado editorial. Na época, entrou em contato com sua editora em busca de um exemplar de seu então recém lançado livro. E não encontrou apenas um, mas uma montanha de seus livros, todos encalhados. Revoltou-se. Não queria escrever para algumas poucas centenas de leitores. Decidiu continuar produzindo, mas sem publicar nada.

Foram os amigos que o convenceram a dar uma chance para que novas gerações tivessem contato com seu trabalho. Daí nasceu "Sessentopéia". E agora, três anos depois, ele lança "Supertrampo", uma coletânea de sua obra --ou uma espécie de atualização de "Marmota Platônica", como diz o autor-- com acréscimo de alguns escritos inéditos e prefácio de Eucanaã Ferraz.

Um marginal na Rede Globo

Além de poeta, Charles se formou em comunicação social e vivia como freelancer. Com uma filha recém-nascida, ele foi em busca de garantias financeiras. Foi quando um primo que trabalhava na Rede Globo o indicou para o setor de publicidade. Dali, recebeu o convite para se tornar um dos redatores publicitários da casa. Ficou pouco tempo no cargo, mas aproveitou um curso que ofereceram para se tornar roteirista.

Dos diversos programas que trabalhou, Charles guarda boas lembranças de "Armação Ilimitada". "Era o máximo, um delírio, era uma punheta colossal. Demorávamos, o programa às vezes não ia ao ar quando tinha que ir. Era uma liberdade, era o máximo, divertido pra caramba, e a equipe era ótima", relembra. "Todo mundo queria dar ideia, pirar, jogar algo de algum filme. Aí o diretor pegava e retrabalhava junto com a gente, imaginávamos mais maluquices. Depois ia para edição e o editor imaginava mais loucuras. Não era um produto padrão como se faz na televisão hoje em dia".

Em "Linha Direta" não considerava seu trabalho criativo. Lembra que "corriam atrás de pegar bandido", como um investigador. "Tem esse lado importante, que pegamos um monte de gente ruim, muitos psicopatas. Ajudamos a prender esses escrotos aí". Mas gostou quando, do programa, nasceu o "Linha Direta Justiça", que recriava antigos casos que se tornaram famosos, como o do Bandido da Luz Vermelha e o Crime da Mala. Em produções elaboradas, com pitadas cinematográficas, podia fazer um paralelo com os filmes e romances policiais que adora.

Já em "Malhação", gostava do clima tranquilo e de lidar com gente nova. Por outro lado, por conta do horário que o programa é exibido --no final da tarde--, tinha limitações temáticas: nada de muita violência, cenas com apelo sexual ou qualquer tipo de droga, o que deixava o trabalho "meio chato". Outro complicador é o tempo que a série, hoje em sua 22ª temporada, já está no ar. "É um universo adolescente, jovem, então depois de trocentos anos você já falou dessa porra muitas vezes, de maneira nem tanto diferente, mas é um desafio".

Atualmente, trabalha no remake de "O Rebu" e, após três décadas na Globo, diz que em nenhum momento o cargo conflitou com a sua figura "marginal". "Eu não mudei nada. Evidente que não sou aquele jovem de 20 anos, revolucionário, mas continuo com a minha ideologia preservada. Não sou um deslumbrado de porra nenhuma, adoro um botequim, gente simples, roça". E sempre que pode, Charles procura inserir a literatura em seus roteiros. "Me deu oportunidade, boto lá. Falo sobre livros, tento passar a importância de ler, coloco trecho de poemas, coisas assim".

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