Livros e HQs

Biógrafos questionam relevância de livros sobre Neymar e Messi

Rodrigo Casatin

Do UOL, em São Paulo

12/06/2014 13h00

Com a Copa do Mundo no Brasil, um grande número de livros sobre futebol chega às livrarias. Boa parte dessas obras são de gêneros biográficos e, para se ter uma ideia, apenas sobre Neymar, ao menos quatro títulos que seguem essa linha estão disponíveis. Mas o craque brasileiro não está só. Biografias sobre Ronaldinho Gaúcho, Messi, da Argentina, e memórias de Pelé também encontram espaço nas prateleiras.

Para quem quer saber mais sobre o atual camisa 10 da seleção brasileira, vai se deparar com "Neymar - O Último Poeta do Futebol", de Luca Caioli; "Neymar - Conversa Entre Pai e Filho", de Ivan Moré e Mauro Beting; "Neymar - O Sonho Brasileiro", de Peter Banker; e "O Planeta Neymar - Um Perfil", de Paulo Vinícius Coelho, lançado em edição bilíngue.

O mesmo Luca Caioli, jornalista e escritor italiano que vive na Espanha, assina também biografias de Messi ("Messi - O Garoto que Virou Lenda") e Ronaldinho Gaúcho ("O Sorriso do Futebol"). "Gostaria de compreender como se tornaram personalidades globais, o que há por trás desses personagens, como suas vidas se construíram", disse Caioli, que já escreveu sobre Cristiano Ronaldo, Fernando Torres e o treinador Roberto Mancini e, atualmente, trabalha na biografia do uruguaio Luis Suárez.

O biógrafo procura seus personagens para que concedam entrevistas para os livros, mas faz questão de ressaltar que são biografias não autorizadas. "Assim tenho a liberdade para escrever o que quero, como jornalista", justifica.

Biografias autorizadas

Quem não se incomoda em trabalhar com livros autorizados é Mauro Beting, coautor de "Neymar - Conversa Entre Pai e Filho", autor de "Nunca Fui Santo" (livro oficial do ex-goleiro Marcos, do Palmeiras) e trabalhando em obras sobre Zico, Osmar Santos e um campeão mundial que prefere não revelar o nome. Para ele, as autobiografias que faz são para expor o ponto de vista dos personagens frente aos fatos. "O foco delas está realmente na visão dos protagonistas. Contudo, vejo os trabalhos autorizados e não autorizados como complementares".

Em "Conversa Entre Pai e Filho", Beting deu forma textual ao que Ivan Moré havia apurado para a obra. "Ele fez quase todas as reportagens, entrevistou Neymar, falou com o pai dele, com os amigos. Inicialmente eu seria o autor do prefácio, mas, como o livro precisava sair logo, Neymar sugeriu me colocarem como autor. Dei uma cara final à obra, que, na verdade, também é uma biografia do pai dele".

O desafio para Beting foi construir uma autobiografia e passar para o texto um pouco da voz e da personalidade do personagem. "É preciso tentar se colocar dentro da pessoa, aproximar-se da maneira que a pessoa fala. Do Marcão, precisaria ser engraçado como ele é. Do Neymar, mais recatado, mais difícil de se abrir, principalmente se comparado ao Marcos".

E a relevância?

Apesar do sucesso que costumam fazer com o público, livros como os de Neymar e Messi recebem críticas constantes por parte dos especialistas. "[Essas obras não têm relevância] nenhuma. Servirão, no máximo, como referência para possíveis biografias futuras. E, no caso de Neymar, começo a desconfiar que, um dia, o grande biografado não será ele, mas seu espertíssimo pai", opina o jornalista e escritor Ruy Castro, autor de histórias de vida consagradas como "O Anjo Pornográfico", de Nelson Rodrigues, e "Carmen - Uma Biografia”, de Carmen Miranda. O principal problema, aponta, é a idade desses jogadores. "A história deles ainda não terminou. Aliás, mal começou".

O professor Sergio Villas-Boas, doutor pela USP (Universidade de São Paulo), especialista em gêneros biográficos e autor de livros teóricos da área, como "Biografias & Biógrafos", divide a opinião com Ruy. "São obras oportunistas, no bom e no mau sentido. Atendem a uma demanda específica momentânea, encaixando-se perfeitamente no mercado de celebridades e idolatrias. Mas talvez seja mais sensato enquadrá-las na categoria perfil [que retrata apenas uma faceta do personagem], para que os leitores mais avisados não criem enormes expectativas".

Villas-Boas também aponta como problema a baixa idade desses craques. "Embora ambos [Neymar e Messi] já tenham uma obra considerável, ainda é incompleta. A grandeza dos jogadores em geral se eleva com conquistas mundiais. E em termos de Copa do Mundo, neste momento, eles não passam de promessas", argumenta. "Mesmo considerando que as regras do mercado editorial não são as mesmas do biografismo sério, é o caso de afirmarmos que é muito prematuro pensar numa biografia consistente sobre os dois. Eles ainda têm muito a realizar, ou não, e ainda não superaram os grandes da história do futebol, a meu ver".

A idade dos personagens [Neymar com 22 e Messi, 26] causa limitação na obra, mas Beting fundamenta sua importância pelo sucesso do jogador e sua relevância midiática. "Há uma história que pode não ser como a de um [Oscar] Niemeyer em termos de tempo, mas ele [Neymar] é um ícone. Comercialmente, se justifica". Caioli sabe que os livros podem se tornar obsoletos diante de novos feitos de seus biografados, mas acredita que são importantes pois "pessoas em todo o mundo estão curiosas em descobrir essas vidas". Já na orelha da obra de Paulo Vinícius Coelho há a ressalva: "Este livro não é uma biografia de Neymar Jr. Ainda seria muito cedo para tanto".

O livro do Pelé

Com uma história maior e consolidada, Pelé lança suas memórias. "A Importância do Futebol" traz a visão do ex-jogador para o esporte que lhe fez uma celebridade internacional. Partindo da Copa de 1950, a obra registra as mudanças e os acontecimentos que o atleta acompanhou ao longo da vida.

"Queríamos um livro com mais do Edson e menos do Pelé, que falasse dos jogos importantes e algumas Copas nas quais ele participou, mas que também explicasse como um menino negro e pobre de Minas Gerias chegou a ser, talvez, a pessoa mais famosa do mundo. O Edson deve muito ao futebol, e ele sabe isso. A história de como o esporte o mudou e como ele mudou o esporte é muito interessante", diz Brian Winter, o ghost writer responsável pela escrita do livro e que já trabalhou com Fernando Henrique Cardoso e Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia.

Para escrever as memórias de Pelé, entrevistou diversas vezes o ex-jogador e transformou suas recordações em "algo ameno de ler, que contasse novidades para o publico brasileiro que já o conhece muito bem". Das histórias retratadas, o ghost writer escolhe como as suas preferidas as de amizade (com Mick Jagger, por exemplo) e a de quando o jogador tentava popularizar o esporte nos Estados Unidos.

Biografias consagradas

Uma das biografias de futebolistas mais elogiadas é "Estrela solitária", sobre Garrincha, escrita por Ruy Castro. "Ele produziu um trabalho sólido, detalhado, abordando várias facetas do personagem. E isto só foi possível porque, entre outras coisas, a vida de Garrincha já havia sido completada pelo episódio de sua morte", argumenta Villas-Boas. Ele destaca no mercado brasileiro bons perfis de Telê Santana, Leônidas da Silva, Charles Miller, Heleno de Freitas e do goleiro Barbosa.

Questionado sobre as obras que merecem destaque, Beting também lembra de Heleno de Freitas ("Nunca houve um homem como Heleno", ele diz), que virou livro pelas mãos de Marcos Eduardo Neves, mesmo autor que agora trabalha na biografia de Alex, meia do Coritiba, e de "Yo Soy el Diego", a autobiografia de Maradona.

Já Ruy indica o clássico "Gigantes do Futebol Brasileiro", de João Máximo e Marcos de Castro, lançado originalmente em 1965 e que traz o perfil de diversos jogadores, dentre eles Pelé.

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