Livros e HQs

Nova HQ revela histórias escondidas em um dia qualquer de Salvador

Reprodução
Detalhe de página da HQ "Tungstênio", de Marcello Quintanilha Imagem: Reprodução

Guilherme Solari

Do UOL, em São Paulo

05/06/2014 07h00

O trabalho de um bom cronista não é inventar histórias propriamente, mas sim nos mostrar os acontecimentos pelos quais passamos sem maiores considerações todos os dias. "Tungstênio" (Veneta), nova HQ de Marcello Quintanilha, mostra as histórias que se escondem em um dia qualquer de Salvador para quem tiver a sensibilidade para enxergá-las.

A HQ acompanha o que acontece quando dois homens resolvem pescar de forma ilegal usando explosivos, e um sargento aposentado do Exército, saudoso pela sua autoridade no passado, acaba forçando um pequeno traficante a chamar um policial para prender dupla de pescadores. Enquanto isso, a mulher desse policial, infeliz com o relacionamento, tenta, sem sucesso, ligar para o celular dele. As histórias desses personagens, entrelaçadas, acabam gerando um turbilhão de brigas, conflitos e ações.

Apesar da ambientação na capital baiana, talvez qualquer cidade poderia ser o palco das narrativas desses heróis do cotidiano, do pequeno traficante que resolve fazer a coisa certa a uma mulher de coração partido. O trabalho consegue ser quase cinematográfico, acompanhando detalhes dos personagens, fazendo uso de flashbacks e com cenas de ação que parecem estar em câmera lenta.

Com um traço cuja atenção está focada em detalhes das paisagens e da fisionomia dos personagens, a HQ mostra como as histórias que encontramos no cotidiano se misturam. Quintanilha, quadrinista com mais de 20 anos de carreira e colaborações com revistas como "General" e "Heavy Metal", conversou com o UOL sobre "Tungstênio", sua inspiração para a obra e como adotar um tom realista para uma narrativa.

Divulgação
Imagem: Divulgação

UOL - De onde veio a ideia de fazer esse retrato de um dia qualquer em Salvador? Onde você buscou a inspiração para esses personagens "heróis do cotidiano"?

Marcello Quintanilha - A mítica do “dia qualquer” sempre teve muito apelo pra mim, na medida em que não devemos menosprezar os desdobramentos que podem advir de ocorrências aparentemente banais. Um 28 de junho qualquer de 1914, em Sarajevo [quando o arquiduque Francisco Fernando e sua mulher, a duquesa Sofia, foram mortos na capital da Bósnia por um terrorista da organização Mão Negra], mudou radicalmente a história do mundo, por exemplo.

Minha inspiração vem sempre das minhas próprias experiências, assim como das experiências vividas por pessoas próximas; e também me fascina explorar a mentalidade de personagens que eventualmente possam manifestar uma forma de ver a vida não necessariamente parecida com a minha.

Em "Tungstênio", o leitor pega uma história já em andamento, com a trama revelando apenas uma janela no dia a dia dessas pessoas. Como você escolheu onde começar e terminar a narrativa?

Essa é uma característica da minha narrativa que está fortemente vinculada ao caráter realístico do meu trabalho.

Portanto, do meu ponto de vista, a estruturação dos personagens, de suas personalidades, de seus anseios e frustrações e o fato de percebermos que eles têm, tiveram ou terão uma vida que está para além do que é relatado na história são os verdadeiros fatores que sustentam essa, digamos, percepção de “recorte” de determinada passagem de suas vidas.

Os personagens são, consequentemente, os grandes responsáveis por estabelecer o andamento que a história deve ter e até onde ela deve chegar.

Os diálogos mantêm as redundâncias da conversa falada e isso dá um ar documental à HQ. Como você faz para buscar esse ar de autenticidade?

Sim, as redundâncias do coloquialismo estão presentes de forma preponderante no meu trabalho; são parte fundamental dele. E tenho consciência de que assumo um imenso risco ao trabalhar assim, uma vez que, acoplada ao coloquialismo, está a identificação que os leitores possam vir a ter --ou não-- com diferentes sotaques e formas de se construir as frases.

Mas não há realmente outra forma de lidar com isso, a não ser estabelecendo um vínculo de confiança absoluta da capacidade dos leitores de lidar com esse tipo de proposta.

E pode parecer estranho dizer assim, mas não “busco” dar um ar de autenticidade aos diálogos, porque meu trabalho parte daquilo que para mim representa a verdade, representa aquilo que eu sou.

Quais foram as suas principais referências visuais para "Tungstênio"? Percebe-se um detalhamento quase fotográfico, por vezes, em objetos, arquitetura e rostos marcantes dos personagens.

Divulgação
Capa da HQ "Tungstênio", de Marcello Quintanilha Imagem: Divulgação

Eu trabalho com exaustiva documentação. Os cenários, principalmente, são bem documentados, embora muitas vezes possa recorrer a essa documentação para criar locais e ambientes fictícios. Isso também ocorre em "Tungstênio".

Quanto aos personagens, eu trabalho no sentido de dominá-los anatomicamente, de dominar suas expressões e gestos, e só então me sinto à vontade para desenhá-los. Criar um personagem, pra mim, tem implicações muito profundas porque muitos deles acabam assumindo um caráter arquetípico dentro do meu trabalho como um todo, e frequentemente me vejo reutilizando-os em diferentes histórias, reencarnados em novos personagens.

E por que afinal o nome "Tungstênio"?

Tungstênio é o elemento químico mais pesado que se conhece. Minha intenção é de que essa palavra representasse a dureza das situações impostas pela vida, diante da qual os personagens terão que ser maleáveis o suficiente para superá-las.

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