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Romance policial escancara lado sórdido da justiça brasileira

Reprodução
Capa do livro "O Rábula" (2014), de Daniel Carajelescov Imagem: Reprodução

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

16/05/2014 05h00

Um romance policial que escancara o verdadeiro lado sórdido da justiça brasileira e os singulares métodos de investigação. É o que propõe o advogado e procurador do Estado de São Paulo Daniel Carajelescov no recém-lançado "O Rábula" (RG Editores). Para ele, basta visitarmos os presídios do país para se constatar uma elitização nas condenações.

"Ali encontraremos somente pobres e negros e muitos com penas rigorosíssimas para crimes de menor potencial agressivo, ou seja, que não oferecem qualquer risco à sociedade”, observa o procurador em entrevista por e-mail ao UOL. Esse desvio no Judiciário já foi tema de outro livro do advogado, "Nas Sombras da Justiça" (RG Editores), no qual ele transforma em ficção casos reais de corrupção facilitados pelo excesso de poder e liberdade conferida aos magistrados. No recém-lançado “O Rábula”, esse universo é tratado de forma indireta. 

O foco do procurador desta vez são as delegacias. Também no centro da trama, há um tipo bem comum nesses ambientes: os advogados criminais. E, mais especificamente, uma parte deles que em geral que não dispõe de tanto prestígio, conhecidos popularmente por "porta de cadeia", ou "rábula" (advogado falador, mas de poucos conhecimentos, ou sem diploma).

Baseado em fatos reais
A história se desenvolve a partir do assassinato de um empresário em um luxuoso hotel nos Jardins, bairro rico da zona oeste de São Paulo. É quando um desses rábulas entra em cena. Influenciado por escritores clássicos do gênero, como Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, o procurador, por trás da roupagem ficcional, revela uma realidade que presenciou em décadas de atuação na advocacia pública e privada.

Experiência que, segundo ele, o possibilitou desenvolver uma ideia crítica sobre incongruências da justiça no Brasil. "A Procuradoria do Estado de São Paulo, constituída por uma elite de advogados, há muito vem se debatendo para obter condições adequadas de funcionamento".

Carajelescov alega que a situação é tão grave que o próprio Ministério Público do Trabalho se viu obrigado a ingressar com uma ação civil pública para tentar reverter o quadro de insustentabilidade. "Se isto ocorre na Procuradoria não é difícil imaginar as condições de nossas delegacias, indicar as piores faz supor que exista algo em situação adequada, o que é uma balela, a sua grande maioria cai aos pedaços sem as mínimas condições de investigação".

Histórias críveis
Ele garante que as historias inventadas que aparecem em seus livros são criveis e podem estar ocorrendo neste exato momento. Por outro lado, boa parte do que escreveu não demandou inventar nada, bastou omitir ou trocar nomes, porque aconteceu de fato.

É o caso de um impiedoso juiz de "O Rábula". Carajelescov conta que se inspirou em um magistrado tido como "chave de cadeia", que jamais absolveu um negro ou um pobre. Seu ódio só era maior em relação aos seus advogados, diz o procurador.

"Era irascível, falava sempre alterado com uma réstia de baba escorrendo pela boca lançando perdigotos à sua volta. Gritava a plenos pulmões quando era interrompido em suas audiências". Entretanto, o juiz surpreendeu a todos de maneira inusitada. "Certo dia foi flagrado na cidade vizinha numa boate gay vestido de travesti abraçado a um negro alto e forte trajando um colete de couro".

Questionado se finais felizes seriam possíveis na atual justiça brasileira, o procurador enfatiza que a resposta deve ser relativizada. "Para a elite branca os finais são, cotidianamente, felizes. Contudo, infelizmente, não se pode afirmar o mesmo para os negros e pobres que são julgados por juízes, em sua maioria, oriundos dessa mesma elite branca".
 

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