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Gabriel García Márquez é homenageado em cerimônia oficial no México

Do UOL, de São Paulo*

21/04/2014 20h14

A Cidade do México, adotada por Gabriel García Márquez, se despedia nesta segunda-feira do prêmio Nobel de Literatura com uma cerimônia no Palácio das Belas Artes, com a presença da família do escritor, dois chefes de Estado e milhares de fãs.

Sob aplausos, a viúva do escritor colombiano, Mercedes Barcha, entrou no vestíbulo do Palácio carregando uma urna de madeira com as cinzas de García Márquez, que morreu aos 87 anos na quinta-feira passada (17).

Barcha, seus filhos Rodrigo e Gonzalo, vários netos e Jaime García Márquez, um dos dez irmãos do escritor, entre outros familiares, chegaram ao Palácio cercados por um grande aparato policial, que os escoltou desde a casa do escritor, no bairro de El Pedregal.

Escoltada por carros e motos da polícia, a comitiva da família do escritor seguiu da casa de García Márquez, no bairro de El Pedregal, para o Palácio de Belas Artes, no centro da capital mexicana.

O cortejo que levou a urna do autor foi cercado por 20 patrulhas de polícia e cerca de 50 batedores. O chamado "santuário das artes" do México está preparado para receber a homenagem, da qual participarão o presidente da Colombia, Juan Manuel Santos, e do México, Enrique Peña Nieto.

Cerca de 10 mil rosas amarelas, sua companhia na hora de escrever, foram distribuídas pelo local.

A urna com as cinzas de García Márquez e flores amarelas foram colocadas em um atril negro, onde guardas de honra se revezam para homenagear o escritor internacional, que fez do México sua segunda pátria.

Entre os presentes na cerimônia, muitos usam flores amarelas na lapela (consideradas um amuleto por García Márquez), e todos cumprimentam a viúva e os filhos do escritor, enquanto um quarteto de cordas executa músicas de Béla Bartók, Joseph Haydn e Georg Handel.

As escadas de mármore do Palácio estão decoradas com rosas amarelas e no alto do vestíbulo aparece uma enorme foto - em preto e branco - do escritor sorrindo, na qual se lê sua famosa frase: "La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla" (A vida não é o que você viveu, mas sim suas recordações e como se lembra para contá-la).

Homenagens
No lado de fora do Palácio, ao menos 700 pessoas de todas as idades fazem fila para entrar no local e se despedir do escritor. Algumas carregam flores amarelas e outras, livros; e em vários momentos entoam a canção "Macondo", popularizada na voz do mexicano Óscar Chávez.

"Gostaria de agradecê-lo pelo gosto que me incutiu pela leitura. Assim como nos "Cem anos de Solidão", que ele sobreviva mais 100 anos nos nossos corações", disse à AFP Joseline López, uma venezuelana de 21 anos que estuda medicina no México.

"Ainda não posso acreditar que ele morreu (...). Estando aqui posso assimilar melhor as coisas", declarou Felisa Tole, uma colombiana que vive no México há oito anos.

Os presidentes de México, Enrique Peña Nieto, e Colômbia, Juan Manuel Santos, também montarão guarda ao lado das cinzas do escritor no Palácio de Belas Artes.

Santos chegou na tarde de hoje ao México, acompanhado por sua mulher, María Clemencia Rodríguez, o filho Martín e uma dezena de amigos de García Márquez, entre eles o ex-presidente colombiano César Gaviria, o escritor William Ospina e os jornalistas Enrique Santos (irmão do presidente) e Roberto Pombo, diretor do jornal El Tiempo.

Na terça-feira, Santos liderará uma cerimônia solene na Catedral de Bogotá, com a presença de grandes figuras nacionais, e na quarta-feira, dia internacional do livro, haverá a leitura de "Ninguém escreve ao coronel" em mais de mil bibliotecas públicas, parques e colégios da Colômbia.

Ainda foi trazido ao Palácio um retrato gigante do autor com a frase "A vida não é o que alguém viveu, mas a que alguém recorda e como a recorda para contar". A chegada dos presidentes de México, Enrique Peña Nieto, e Colômbia, Juan Manuel Santos, está prevista para às 19h local.

A pedido da família, na cerimônia desta segunda serão interpretadas as músicas clássicas favoritas de García Márquez, entre elas uma composição do húngaro Béla Bartók. Também estarão muito presentes as flores amarelas, que o escritor sempre tinha por perto como um amuleto contra o azar.

O escritor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira (17) aos 87 anos na Cidade do México. Após um período de oito dias de internação no início de abril por conta de uma pneumonia e uma infecção respiratória, Gabo recebeu autorização para voltar para casa, mas sua esposa, Mercedes Barcha, e seus filhos já tinham admitido que sua condição de saúde era muito frágil.

Biografia
Gabo, como era carinhosamente chamado, nasceu no dia 6 de março de 1927, em Aracataca, na Colômbia. Criado pelos pais de sua mãe, cresceu ouvindo as histórias de seu avô, Nicolas Márquez, veterano da Guerra Civil colombiana, enquanto sua avó, Tranquilina Iguarán, costumava lhe contar lendas que misturavam fantasia e realidade. Essas narrativas foram fundamentais para que mais tarde o garoto se tornasse escritor.

As histórias de seus avós se tornariam também material para a ficção de García Márquez, e Aracataca inspirou Macondo, a vila cercada por plantações de banana no pé das montanhas da Sierra Nevada, onde "Cem Anos de Solidão" se passa. "Minha família me contou muitas vezes que comecei a recontar histórias e coisas assim quase desde que nasci", contou García Márquez em uma entrevista. "Desde que comecei a falar".

García Márquez  foi enviado a um internato estatal na região de Bogotá, onde se tornou um estudante exemplar e leitor voraz, com preferência por Hemingway, Faulkner, Dostoiévski e Kafka. Ele publicou sua primeira obra de ficção, como estudante, em 1947, enviando um conto ao jornal "El Espectador" depois que seu editor literário escreveu que "a geração mais jovem da Colômbia não tem mais nada a oferecer em termos de boa literatura".

Na juventude, começou a faculdade de direito, após pressão do pai, na Universidade Nacional, em Bogotá, mas logo abandonou o curso e rumou para o jornalismo. Tornou-se um dos primeiro críticos de cinema da Colômbia e passou a ter uma importante influência na cena cultural do país. Na profissão, trabalhou em países como Venezuela, Cuba e Estados Unidos, o que ajudou a forjar a sua consciência esquerdista – por conta dela, viria a ter frequentes conflitos com um outro Nobel, o peruano Mario Vargas Llosa.

Enquanto atuava em jornais, esboçou os seus primeiros contos e uma extensa reportagem sobre o sobrevivente de um naufrágio na costa colombiana resultou no livro “Relato de um Náufrago”, hoje tido como um exemplo de bom jornalismo literário. Ao lado de escritores incluindo Norman Mailer e Tom Wolfe, García Márquez também foi um pioneiro da narrativa de não-ficção que se tornaria conhecida como New Journalism ou Novo Jornalismo.

García Márquez sofreu uma forte represália oficial à sua história sobre como a corrupção do governo contribuiu para o desastre narrado em "Relato de um Náufrago". A ditadura tomou o poder e García Márquez se transferiu para a Europa. Depois de visitar a parte oriental controlada pelos soviéticos, mudou-se para Roma em 1955 para estudar cinema, uma paixão que manteve por toda a vida. Em seguida, mudou-se para Paris, onde viveu entre os intelectuais e artistas exilados de muitas ditaduras latino-americanas da época.

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1969 - Gabriel García Márquez e sua mulher, Mercedes Bacha García, em Barcelona. Os dois se casaram em 1958 e tiveram dois filhos, Ricardo e Gonzalo Imagem: Reprodução

Ele voltou à Colômbia em 1958 para casar-se com Mercedes Barcha, sua vizinha de infância, com quem teve os filhos, Rodrigo, que é diretor de cinema, e Gonzalo, designer gráfico. Em 1960, muda-se para o México e intensifica sua produção artística. Em 1961, lança “Ninguém Escreve ao Coronel” e, em 1962, “O Veneno da Madrugada”, que lhe renderia, na Colômbia, o Prêmio Esso de Romance. “Cem Anos de Solidão” chegaria em 1967 para consagrá-lo como grande romancista.

Sua obra-prima faz com que seus lançamentos passem a ser tomados por grande expectativa e coloca a América Latina e o Realismo Fantástico no centro do cenário literário mundial. Conseguiu ainda emplacar outros grandes sucessos, como “Crônica de Uma Morte Anunciada”, de 1981, “O Amor nos Tempos de Cólera”, de 1985, e “Notícias de um Sequestro”, de 1996. Seu último romance, “Memórias de Minhas Putas Tristes”, foi publicado em 2004.

Pobre e esfarrapado durante grande parte de sua vida adulta, García Márquez foi transformado por sua fama e riqueza tardias. Um "bon vivant" com personalidade travessa, o escritor era um anfitrião gracioso, que contava histórias longas, com animação, para os hóspedes. Ferozmente protetor de sua imagem, uma característica compartilhada por sua esposa, ele ocasionalmente se rendia a um temperamento explosivo quando se sentia menosprezado ou deturpado pela imprensa.

O autor, com suas sobrancelhas grisalhas e espessas e seu bigode branco, passou mais tempo na Colômbia em seus últimos anos, fundando seu instituto de jornalismo na cidade portuária de Cartagena, onde mantinha uma casa. Em 1998, já em seus 70 anos, García Márquez realizou um sonho, ao usar o dinheiro de seu Nobel para se tornar acionista majoritário da revista colombiana "Cambio". Antes de adoecer com câncer linfático em junho de 1999, o autor contribuiu prodigiosamente para a revista. "Eu sou um jornalista. Sempre fui um jornalista", disse à AP na época. "Meus livros não poderiam ter sido escritos se eu não fosse jornalista, porque todo o material foi retirado da realidade".

O homem político
Como muitos escritores latino-americanos, García Márquez transcendeu o mundo das letras. Desde cedo, Gabo tornou-se um herói para a esquerda latino-americana, aliando-se cedo ao líder revolucionário cubano Fidel Castro e criticando as intervenções violentas de Washington, do Vietnã ao Chile. Seus textos perfilaram o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, além de retratarem como traficantes de cocaína liderados por Pablo Escobar abalaram o tecido social e moral de sua Colômbia natal, sequestrando membros da elite, tema de "Notícias de um Sequestro".

A escrita de García Márquez foi constantemente informada por seus pontos de vista esquerdistas, forjados em grande parte por um massacre de militares a trabalhadores bananeiros em greve contra a United Fruit Company (mais tarde, Chiquita) em 1928, perto de Aracataca. Ele também foi muito influenciado pelo assassinato, 20 anos mais tarde, de Jorge Eliécer Gaitán, candidato presidencial esquerdista em ascensão.

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1980 - Gabriel García Márquez posa com Fidel Castro. O escritor e o líder cubano estabeleceram uma grande amizade Imagem: Reprodução

Apesar de os Estados Unidos terem negado visto de entrada ao escritor seguidas vezes por conta de suas posições políticas, ele foi cortejado por presidentes e reis e contava Bill Clinton e François Mitterrand entre seus amigos. García Márquez criticou o que considerava uma perseguição política injusta de Clinton por suas aventuras sexuais. O próprio Clinton lembrou em uma entrevista à AP em 2007 de ter lido "Cem Anos de Solidão" quando estava na faculdade de direito e não ter sido capaz de entendê-lo, nem mesmo nas aulas. "Eu percebi que este homem havia imaginado algo que parecia uma fantasia, mas era profundamente verdadeiro e  profundamente sábio", disse o ex-presidente dos EUA.

Ao longo da vida, García Márquez recusou ofertas de postos diplomáticos e tentativas de o lançar à presidência da Colômbia, embora tenha se envolvido nos bastidores das negociações de paz entre o governo da Colômbia e os rebeldes de esquerda.

Os últimos anos
Os últimos anos de vida de Gabo foram marcados por relatos sobre problemas de memória , que não foram confirmados oficialmente. As aparições públicas de García Márquez também foram mais escassas, apesar de ele continuar a socializar com amigos.

Em março deste ano, quando fez 87 anos, o escritor foi homenageado diante da imprensa por amigos e simpatizantes, que lhe deram bolo e flores do lado de fora de sua casa, em um bairro de elite na Cidade do México. Na ocasião, o autor mostrou-se sorridente, recebeu presentes e tirou fotos, mas não falou com os jornalistas. Nos últimos anos, restringiu ao máximo suas aparições em público e declarações por motivos de saúde.

*Com agências internacionais

 

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