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Em "Adultério", Paulo Coelho flerta com erotismo soft de "50 Tons de Cinza"

Reprodução
O escritor Paulo Coelho em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

15/04/2014 05h00

Vigésimo sétimo livro de Paulo Coelho, "Adultério" é lançado oficialmente no Brasil nesta terça-feira (15) sem deixar muita margem a dúvidas. Como o título já entrega, trata-se de uma história de traição, com pitadas de erotismo soft à "50 Tons de Cinza" e dose de apelo sob medida para garantir o sucesso - de vendas, veja bem - do escritor brasileiro mais lido e traduzido em todo o mundo (a obra de Coelho foi publicada em 168 países e transposta para 80 idiomas).

"Adultério" acompanha Linda, uma bela jornalista de 31 anos que trabalha no jornal mais importante da Suíça francesa e se veste com as melhores roupas que o dinheiro pode comprar. Mora em Genebra junto de seus dois filhos, que são razão de seu viver, e de seu marido, dono de um fundo de investimentos e que todo ano aparece na lista da revista "Bilan" dentre as 300 pessoas mais ricas do país.

Linda leva uma vida tranquila, daquelas que parecem possíveis somente na ficção mesmo. Contudo, apesar de amar os filhos e seu marido, sente-se incompleta e deprimida. Tem o desejo de fazer algo diferente, experimentar o novo, sair da rotina. A oportunidade surge quando vai entrevistar Jacob König, um ex-namorado da escola, casado com Marianne – uma mulher que aparentemente não liga para as puladas de cerca do seu companheiro –,  e que agora é candidato a um cargo do governo suíço e uma das peças proeminentes do jogo político do país.

Ao final da entrevista, ambos terminam o que haviam começado na adolescência. Nesse momento, temos o primeiro flerte de "Adultério" com a onda de livros eróticos populares que dominou o mercado editorial após o lançamento da trilogia "50 Tons de Cinza". No novo trabalho de  Coelho, o sexo está presente e bastante explicitado, com detalhes talvez até excessivos e deslocados. De volta ao pós-entrevista, a traição que move o livro está consumada.

Como já deu para perceber nesta breve introdução, os personagens de "Adultério" são superlativos. Estamos falando de um dos 300 homens mais ricos da Suíça, de uma das jornalistas mais respeitadas do país e de um dos homens mais importantes da política local. Parece não haver espaço para meio-termo na obra do escritor. Esse conceito se arrasta para diversos outros pontos. Linda, por exemplo, ou nunca tem orgasmo ou passa a ter orgasmos múltiplos. Também só consegue pensar que é infeliz – e repete isso exaustivamente ao longo de boa parte da história – e que gostaria de ser feliz, como se qualquer uma das possibilidades pudesse ser completa e inesgotável, não estados que mudam, muitas vezes repentinamente, e que apenas temperam a rotineira normalidade da vida.

Mas os problemas de "Adultério" não se encerram aí. A questão da traição é tratada de maneira quase infantil. Linda se arrasta pelas páginas como uma adolescente de 16 anos que trai seu primeiro namorado, não como uma mulher de cultura refinada – é o que supomos por tudo que a cerca, ao menos. Seus pensamentos são pouco complexos e recheados de um moralismo pragmático, como se a única maneira de se encarar o adultério fosse se sentir suja e culpada. Perde-se a chance de tratar de temas como a diferença entre amor e sexo, a necessidade de atender os próprios desejos enquanto precisamos manter o que a sociedade espera de nós e até mesmo a possibilidade de um relacionamento que fuja do padrão. Enfim, acomoda-se no tranquilo senso comum.

Há ainda personagens que são apresentados com alguma contundência, mas depois simplesmente desaparecem do livro (é o caso do vizinho de Linda que gosta de passar os finais de semana encerando seu Audi), frases que soam como se fossem mal traduzidas – apesar de eu deduzir que a obra tenha sido escrita em português, afinal, trata-se de um escritor brasileiro e não há nenhuma referência a tradutores na ficha técnica do livro – e ideias que até parecem sofisticadas pela verborragia que as orna, mas não resistem a uma reflexão um pouco mais atenta e crítica do leitor.

Para compôr "Adultério", Paulo Coelho realizou pesquisas na internet, trocou e-mails com pessoas que entraram em depressão por conta de problemas amorosos e, em entrevista recente ao jornal "O Estado de São Paulo", disse que procurou transformar o que leu em um relato sobre a traição que vem do coração, não do corpo. Então, talvez o que tenha faltado para a história seja a complexidade da mente. Mas nada que impedirá que as pilhas de livros das livrarias se desfaçam em pouco tempo. 

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