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Centenário de Burroughs é chance para resgatar sua obra do limbo

Claudio Willer*

Especial para o UOL

05/02/2014 05h00

Nascido há 100 anos, em 5 de fevereiro de 1914, o escritor norte-americano William Seward Burroughs continua a ser mais um ícone do que um autor lido no Brasil. É onipresente na cultura pop e no movimento punk e ramificações. Está em documentários – o melhor é "A Man Within", de 2010, por Yoni Leiser – além dos clipes, depoimentos e sua versão da oração de Ação de Graças. E tem filmografia, com a boa adaptação de "Almoço Nu" por David Croneberg ("Mistérios e Paixões"), a sua participação em "Drugstore Cowboy", de Gus Van Sant e tantas outras.

No entanto, aqui sua obra repousa em um limbo editorial. Isso apesar da influência declarada sobre uma diversidade de contemporâneos. Especialmente por "Almoço Nu" (publicado inicialmente pela Brasiliense e depois pela Ediouro). É um relato não apenas inovador e perturbador, porém historicamente relevante. Após ser lançado na França, em 1959, rasgou os véus da hipocrisia quando a edição norte-americana venceu o último dos processos por obscenidade contra uma obra literária nos Estados Unidos, no Supremo Tribunal de Massachusetts, em 1966. Se aquele cortejo não-linear de obscenidades violentas podia circular, então não haveria mais o que proibir.

O leitor brasileiro também encontrará as duas edições de "Junky" (da Ediouro e Companhia das Letras), sua boa estreia em 1954. Autobiográfico, conta sua vida como dependente de drogas em um ambiente de viciados. Além disso, acha-se a parceria com Allen Ginsberg, "As cartas do Yage" (L&PM), importante pela declaração de princípios, uma espécie de manifesto, ao final. Outra parceria, com Jack Kerouac, "E os Hipopótamos Cozeram em Seus Tanques" (Companhia das Letras): mas é obra incipiente, de 1944, quando nenhum dos dois havia alcançado sua voz (mesmo assim, valeria a pena acharem outro texto da mesma época, a sátira cruel ao naufrágio do Titanic). E, ainda, a crônica "O gato por dentro" (L&PM).

Pouco. Gostaria que circulasse entre nós "Cities of the Red Night", de 1981, primeiro volume da “trilogia da noite vermelha”, marcando seu retorno após ter dado a impressão de que havia parado. Também "The Wild Boys", de 1971, atualíssimo, sobre uma rebelião de garotos homossexuais delinquentes. O extraplanetário "Nova Express", de 1964, sobre controle alienígena e a linguagem como vírus extraterrestre; a obra que mais reflete sua freqüentação de alguns anos da cientologia, a estranha seita liderada por Ron Hubbard.

Entre outros paradoxos que podem ser associados à contribuição de Burroughs, observaria ele haver sido tão radicalmente individualista e ao mesmo tempo tão coletivo em seu trabalho. Sua obra, sendo pessoal, afirmação da individualidade e do individualismo, é inseparável de parcerias e trabalhos em grupo. Pela originalidade, afirmou a noção de autor; pela prática, a dissolveu. Isso, desde o histórico encontro com Jack Kerouac e Allen Ginsberg, além de Lucien Carr, da infortunada Joan Vollmer (com quem ele, homossexual convicto, se casaria, teria um filho e a quem mataria acidentalmente com um tiro no México em 1951) e de Edie Parker, entre 1943 e 1944.
 


'Almoço Nu' rasgou os véus da hipocrisia quando a edição norte-americana venceu o último dos processos por obscenidade contra uma obra literária nos EUA, em 1966. Se aquele cortejo não-linear de obscenidades violentas podia circular, então não haveria mais o que proibir

Mais velho e com um currículo que incluía ter morado na Europa, estudado em Harvard, antropologia inclusive, e exercido ocupações estranhas como balconista de bar, exterminador de insetos (o trabalho de que mais gostou, rememorado em "Exterminator!", de 1973) e oficial de justiça para complementar a mesada de US$ 200 que recebia da família, atuou como mentor. Passou leituras e propôs ideias àqueles adeptos de uma nova visão, questionando a relação entre as palavras e as coisas, os signos e seus significados, mostrando que somos o objeto e não o sujeito da palavra – ideias que impressionaram Ginsberg tão fortemente que lhe provocaram alucinações.

Recebeu os beats em seus refúgios no Texas (onde cultivou maconha), na Louisiana, na Cidade do México e em Tânger, no Marrocos, para reencontrá-los em Paris, no Beat Hotel. O título "Naked Lunch" (Almoço Nu) foi sugerido por Kerouac. Houve a colaboração de Ginsberg, Orlowski e Kerouac na feitura dessa obra em Tânger e, em seguida, de Ginsberg, Orlowski e Corso em Paris. Suas oficinas de criação incluíam sessões de telepatia e hipnotismo, ouvir misteriosas fitas gravadas, tentar contatos extraterrestres e outras expressões de seu apreço por paraciências ou ciências alternativas.

Enfim, sem Burroughs, não haveria beat; mas sem os beats, tampouco haveria Burroughs. Uma dessas parcerias foi com o artista Bryon Gisin e o cientista Ian Sommerville, que resultou no desenvolvimento do "cut up" – montagem de recortes, gravações, imagens e muito mais. O relato em "The Beat Hotel", de Barry Miles, livro que recomendo a editores brasileiros, é arrepiante. Tocaram em um outro lado ao extraírem conteúdos das fitas rodadas ao contrário e alucinarem-se olhando para superfícies opacas como se fossem espelhos, além de “receberem” criptogramas, inscrições misteriosas.

Solitário e gregário, público e reservado, Burroughs viveu envolvido em paradoxos. Impressiona sua longevidade, alguém que levou uma vida dessas, tantas vezes à beira da autodestruição, alcançar 83 anos. Expressar-se através da escrita com tamanha repercussão extra-literária, nos demais suportes e códigos. Mas talvez essa seja a realização do seu projeto: através da palavra, empreender uma destruição criadora para superá-la. Conseguiu seu intento, como se vê pela repercussão do centenário e pela profusão de obras que inspirou.


* Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Doutor em Letras pela USP, pesquisa temas como gnosticismo, religiões estranhas e surrealismo. É autor do livro "Geração Beat" (L&PM Pocket, 2009).

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