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50 anos sem Aldous Huxley: Autor visionário previu futuro obscuro

Alex Antunes

Colaboração para o UOL

22/11/2013 11h56

Se a contracultura do final dos 1960 e começo dos anos 1970 tem um pai intelectual, esse pai é o inglês Aldous Huxley. Ele morreu há 50 anos, em 22 de novembro de 1963 --ofuscado pelo assassinato de John F. Kennedy e a morte do autor irlandês C. S. Lewis. E é uma figura central para a compreensão do desenvolvimento do pensamento humano no século 20, com desdobramentos centrais ainda hoje.

Huxley nasceu em 1894, mas pode-se dizer que a validação de suas idéias e visões foi se acumulando desde o final da Segunda Guerra, em 1945, e continuou intensa, como continua, após sua morte. Mesmo quando sua paternidade não é lembrada.

Problemas de visão

Filho de uma família de classe média alta, Aldous Huxley nasceu em Godalming, na Inglaterra, em 26 de julho de 1894. Por causa de um problema na retina, ele quase ficou cego aos 16 anos. A doença o fez desistir de estudar medicina.

Parcialmente recuperado, aprendeu braile e foi estudar no Eton College e no Balliol College, em Oxford. Em 1916, ainda com a visão prejudicada, formou-se em literatura inglesa, mas não foi aprovado para servir ao exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial.

Em 1932, publicou seu primeiro grande feito literário, o romance "Admirável Mundo Novo", uma visão distópica da sociedade do futuro, em que lançava idéias como a do controle psicológico de massas. Essa visão dos perigos das tecnologias de dominação influenciou obras posteriores, como "1984" (publicado em 1949), em que George Orwell cunhou o termo "Big Brother".

É interessante que Orwell, ao reconhecer "Admirável Mundo Novo" como matriz, imagina que Huxley tenha se inspirado em "Nós", do russo Yevgeny Zamyatin, escrito entre 1920 e 1921, livro que Huxley negava conhecer quando escreveu o seu. Zamyatin tinha reconhecido, muito precocemente, os desvios autoritários do sistema comunista, cuja "manipulação simbólica" não deixou de ser um laboratório publicitário para o nazismo --e também para a sociedade de consumo, o "mundo livre" que o derrotou.

É interessante que, em seu último romance, "A Ilha" (1962), o escritor tenha compensado o pessimismo de Mundo Novo com uma visão de uma sociedade equilibrada e espiritualizada. E a chave para a conquista dessa felicidade seriam os outros conhecimentos que Huxley acessou nesse meio tempo: as "tecnologias ancestrais", incluindo as plantas de poder, ou enteógenos (plantas que propiciam o transe místico).

Ao chegar a Hollywood, em 1937 (onde nunca conseguiu emplacar de verdade como roteirista, apesar de assinar vários trabalhos, ou deixar de assinar, como a adaptação de "Alice no País das Maravilhas" de 1951), Huxley foi um dos precursores da Califórnia mística, descobrindo ao longo dos anos as filosofias orientais, particularmente as indianas, e o uso indígena de substâncias alteradoras de consciência, como a mescalina, presente no cacto mexicano peiote.

O assunto poderia ter sido sugerido já em 1930 num jantar com o mago Alesteir Crowley em Berlim, mas foi em 1953 que comprovadamente Huxley experimentou a mescalina (e em 1955 o LSD). Seu livro de não-ficção de 1954, "As Portas da Percepção", viria a batizar a banda de Jim Morrison, The Doors, pelas óbvias razões. Se a Hollywood de antes da Segunda Guerra não tinha entendido Huxley, os hippies finalmente entenderiam.

Na sua enorme produção intelectual e artística, Huxley é o primeiro nó consistente entre as visões política, social, estética e mágica da sociedade contemporânea --o que viria a ser o próprio coquetel da contracultura, poucos anos após sua morte. E sua ficção científica marcada pelo cruzamento entre tecnologia, psiquismo e misticismo não deixa de ser uma precursora de uma linhagem que viria desembocar no cyberpunk de William Gibson ("Neuromancer") e outros autores, passando por Philip K. Dick ("Blade Runner", "O Homem Duplo").

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