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"Será esse nosso futuro, sem personagem?", diz Silvio Tendler sobre censura

Henrique Kardozo/FIB
17.nov.2013 - O cineasta Silvio Tendler durante o 1º Festival de Biografias, em Fortaleza (CE) Imagem: Henrique Kardozo/FIB

Carlos Minuano

Do UOL, em Fortaleza (CE)

21/11/2013 12h35

A atual legislação que proíbe as publicação de biografias não autorizadas não afeta apenas a literatura. O cineasta Silvio Tendler sentiu recentemente o efeito da censura prévia em um de seus filmes. "Sujeito Oculto - Na Rota do Grande Sertão" tem como tema os 60 anos da boiada que Guimarães Rosa acompanhou para escrever "Grandes Sertões: Veredas" (1956). Por conta do uso de imagens proibidas, o escritor teve que desaparecer do filme de Tendler.

Sem fim comercial, com baixíssimo orçamento, o filme foi produzido a partir de edital do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para distribuição em escolas e exibição em universidades e TVs públicas. Ainda assim, Tendler foi proibido pelas herdeiras do escritor que enveredou pelos sertões mineiros na década de 1950. "As filhas dele mandaram um e-mail alegando razoes de 'foro íntimo' e não me permitiram usar as imagens", contou o cineasta ao UOL.

Não conformado, o documentarista foi em frente e encontrou uma alternativa inusitada para exibir seu filme e ainda fazer uma denúncia sobre o atual ambiente de censura em torno de biografias. "Coloquei os vaqueiros, mas recortei o Guimarães Rosa". No lugar do personagem o diretor usou uma mancha branca. "O personagem virou sujeito oculto", disse Tendler.

"Ainda relacionei com as veredas destruídas para a plantação de eucalipto". O grande vazio que marca a cena final do filme expõe o questionamento do diretor. "Será esse o nosso futuro, sem personagem e sem natureza?". O cineasta ressaltou que o problema das biografias não autorizadas é mais complicado no cinema. "Custo e investimento são muito maiores, famílias brigam muito mais, vivemos mais uma vez um momento em que enfrentamos a repressão e a censura", disse Tendler.

Considerado um dos mais importantes documentaristas brasileiros, autor de "Utopia e Barbárie" (2005), "Encontro com Milton Santos - O Mundo Global Visto do Lado de Cá" (2006) e "Glauber o Filme, Labirinto do Brasil" (2003), Silvio Tendler critica o momento atual do cinema no Brasil. "Está horrível porque a Ancine usa uma politica de mercado em vez de privilegiar o cinema de autor, inovador e renovador. Está dando ênfase ao cinema de mercado, e os bons filmes não chegam ao grande público, as sessões nem são contabilizadas".

O curta de Silvio Tendler sobre Guimarães Rosa foi exibido, de surpresa, no Festival de Biografias que aconteceu em Fortaleza até o último domingo (17). O cineasta foi homenageado no último dia do evento, antes da exibição de "A Arte do Renascimento, uma Cinebiografia de Silvio Tendler", de Nilton Nunes. O filme acompanha a recuperação do diretor após doença que o deixou tetraplégico, ao mesmo tempo em que repassa sua vida e obra.

Outro sertão
Mais um filme proibido sobre Guimarães Rosa foi exibido no Festival de Biografias em Fortaleza. "Outro Sertão", de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, abriu o espaço dedicado ao cinema no evento realizado na capital cearense. Resultado de dez anos de trabalho, o longa traz um recorte desconhecido sobre o escritor, o período em que viveu na Alemanha nazista, entre 1938 e 1942.

"Além de uma entrevista inédita de Guimarães Rosa, na Alemanha em 1962, o filme recupera escritos dele que tratam dessa época, diário, cartas e um conto", disse Jacobsen. "Outro Sertão" traz ainda material de arquivo entrevistas com judeus que migraram da Alemanha com a ajuda do escritor brasileiro, então vice-cônsul em Hamburgo.

O filme que está sendo exibido em festivais teve a pesquisa autorizada, mas qualquer exibição está vetada pelas herdeiras do escritor com base nos artigos 20 e 21 do Código Civil, que impõem a qualquer exibição, comercial ou não, autorização do biografado ou herdeiros, para evitar violação de privacidade, difamação e uso comercial.

"Estamos em diálogo com as filhas dele, porque no caso de nosso filme não há nenhuma difamação, pelo contrário, falamos de uma atuação dele ajudando judeus a migrarem para o Brasil, fato importante que ninguém conhece, precisamos contar isso", argumenta a diretora.
 

 

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