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Para Humberto Werneck, questão central do grupo Procure Saber é dinheiro

Marlene Bergamo/Folhapress/7.jul.2011
O jornalista e escritor Humberto Werneck durante debate do Festival de Biografias, em Fortaleza Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress/7.jul.2011

Carlos Minuano

Do UOL, em Fortaleza (CE)

19/11/2013 19h46

"Chico Buarque deveria ter procurado saber”, disse ao UOL o jornalista Humberto Werneck. Ele se refere a recente trapalhada na qual o músico se envolveu, ao entrar para o grupo Procure Saber, capitaneado por Paula Lavigne, que reúne artistas contrários às mudanças na legislação atual, que impede publicações de biografias não autorizadas.

O músico e escritor se atrapalhou ao escrever em artigo que não havia dado entrevista ao escritor Paulo Cesar de Carvalho, autor da biografia que foi proibida pelo rei. O biografo em seguida comprovou com fotos e vídeos o encontro que teve com Chico Buarque. O material além de amplamente divulgado na mídia, causou enorme polêmica em redes sociais envolvendo o nome do artista, que logo em seguida publicou outro artigo, pedindo desculpa a Araújo, pelo engano

A elegante cutucada em Chico ocorreu no Festival de Biografias, realizado na semana passada em Fortaleza às vésperas da audiência publica sobre o tema que acontece nesta quinta e sexta (21 e 22) no STF (Supremo Tribunal Federal). E essa foi apenas uma entre outras alfinetadas de Werneck durante o evento.

Mineiro, que vive em São Paulo desde a década de 1970, autor de “Chico Buarque: Tantas Palavras” (Companhia das Letras), Wernerck há tempos já é conhecido por sua prosa singular, repleta de pérolas em formas de frases críticas. O músico Djavan também levou uma em Fortaleza. “Ele sofre de vertigem de sobreloja, não chegou à cobertura mas está gastando por conta”.

A puxada de orelha foi uma reação ao comentário do artista –que causou revolta em escritores– de que biógrafos estariam acumulando fortunas em cima de artistas. Entre debates e divertidos bate-papos, o jornalista conseguiu escapar para uma conversa com a reportagem do UOL, em que afirmou acreditar que a questão central na chiadeira do grupo Procure Saber é dinheiro.

UOL - O que você pensa sobre essa reação de artistas contrários às mudanças na legislação que impede biografias não autorizadas?
Humberto Werneck
- Sem dúvida, a questão central dessa chiadeira é dinheiro. Nada disso estaria acontecendo se a chegada das novas mídias não tivesse provocado uma queda brutal na venda de discos. Enquanto estavam vendendo um monte de CDs, ninguém vinha com essa conversa. A não ser no caso do Roberto, que tem lá suas manias. Esse dinheiro eles não estão pensando que venha necessariamente do livro, e sim dos desdobramentos, das adaptações para o cinema, televisão e teatro. Devem pensar: "é a minha vida adaptada para o cinema e eu não levo nada disso?". E, se você observar, eles estão fazendo mais shows do que em geral faziam, antes podiam ficar quietinho em casa, que o disco era vendido e o dinheirinho entrava. É meio paradoxal, porque isso está ocorrendo em uma idade em que já estão mais cansados.

Caetano chegou a dizer que escritores podem fazer biografia desde que artista seja pago. Você é totalmente contrário a remunerar biografados?
Caetano disse, mas depois voltou atrás, foi uma observação infeliz que deixou transparecer essa motivação econômica. Sou totalmente contrário. Trata-se de pessoas públicas que investiram sua vida e sua energia em se tornarem notórias, que se ofereceram voluntariamente a ser uma celebridade. E se eu decido contar isso, estou escrevendo sobre o que estou vendo, não faz sentido quererem cobrar. Se levarmos esse raciocínio adiante, daqui a pouco não se poderá escrever nem sobre uma partida de futebol.

Você acredita na mudança da legislação?
Sou formado em direito, embora nunca tenha exercido a profissão. Não me parece uma ideia absurda querer que prevaleça a Constituição, que garante a liberdade de expressão. O que me parece muito louco é que um dispositivo do Código Civil, muito posterior à Constituição, possa pesar mais do que ela.

Por causa dessa polêmica em torno das biografias, Chico Buarque acabou virando o centro de alguns debates no festival de biografias. Como você chegou a esse personagem e como foi sua relação com ele?
Correu tudo numa boa, desde o principio estava estabelecido que era um trabalho para um livro do Chico, são todas as letras dele e um texto meu de natureza biográfica. Não houve nenhum problema, ele foi muito cooperativo. Acho que fui convidado porque não sou amigo do Chico. Suponho que ele não queria uma coisa que fosse só paparicação, aquela prosa inverossímil. Foi feito em 1989 e, depois de 15 anos, o editor me chamou para acrescentar um capítulo atualizando o livro para uma reedição. Resolvi reescrever assim que reli, porque achei que merecia pequenas correções, uma ampliação das historias contadas que poderiam ser levadas adiante, acrescentar detalhes, e coisas que nesses quinze anos se modificaram.

E o que você acha dessa infeliz participação dele nessa polemica das biografias?
Tenho o maior respeito pelo Chico, mas acho que ele foi muito infeliz, esses argumentos que ele expôs combinam muito pouco com o passado dele, um cara que se diz a favor da liberdade de expressão. Também não condiz nem com suas raízes, é filho de um historiador [Sérgio Buarque de Holanda]. É especulação isso que vou dizer, mas acho que ele entrou nessa por má informação. Acho que o Chico deveria ter procurado saber.

Você pretende ainda escrever biografias?
Depende. Se mudar essa legislação, talvez, porque como está não dá pra fazer, é uma operação de risco. Já se começa a produzir sob o fantasma de que aquilo pode dar encrenca. Interfere na produção e pode te levar a uma autocensura. Fui jornalista no tempo em que havia censura dentro da redação do jornal onde eu trabalhava –o "Jornal da Tarde"–, sei o que é isso. Você produz num dia e aquilo é censurado, no dia seguinte aquilo já altera a natureza do seu trabalho, se torna uma tarefa inglória. Mas se houver essa modificação, vou considerar muito seriamente a possibilidade de fazer a biografia de Manoel Bandeira. Se houver liberdade e se eu tiver condições de saúde, farei, porque não é brincadeira fazer um trabalho como esse.

Está meio cansado de escrever biografias?
Biografia é um trabalho muito puxado. Em primeiro lugar, exige um relacionamento apaixonado com os personagens. Sem isso você não consegue fazer algo que mostre a força e a importância da vida dele, é um envolvimento que vai além do profissional, acaba-se estabelecendo uma relação unilateral de intimidade. O cara nunca te viu e você sabe mil coisas a respeito dele. E o trabalho de levantamento, de pesquisa, não é pouca coisa, leva alguns anos.

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