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"Roberto Carlos não pode ver um navio que entra", diz Humberto Werneck

Guilherme Silva/Divulgação
Humberto Werneck, Regina Zappa e Lucas Figueiredo durante debate no Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza Imagem: Guilherme Silva/Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em Fortaleza (CE)

16/11/2013 16h18

Prejudicado pelo horário, e com público reduzido, uma das mesas mais esperadas do Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza, reuniu na manhã deste sábado (16) o mineiro Humberto Werneck, autor de “Chico Buarque: Tantas Palavras”, e a carioca Regina Zappa, que também escreveu sobre Chico, e mais recentemente a biografia de Gilberto Gil, “Gilberto bem perto”. Mediado pelo jornalista mineiro Lucas Figueiredo, o debate tratou de dois assuntos que ganharam recentemente repercussão nacional: a vida de artistas e, claro, Chico Buarque.

O problema central na atual discussão sobre biografias não autorizadas é muito anterior ao Procure Saber, afirma Humberto Werneck. “Está relacionada com a queda na venda de discos, a crise na indústria fonográfica é tamanha que Roberto Carlos não pode ver um navio que entra”. A questão financeira e a gerência financeira de Paula Lavigne e Flora Gil na vida dos artistas foi ressaltado no debate. “Ouvi dizer que Caetano não tem menor controle sobre a vida financeira”, diz Regina Zappa.

O jornalista Lucas Figueiredo também mencionou a família que supostamente suga muito de Gilberto Gil. “Ele (Gil) reclamou que sua família custa R$ 300 mil por mês”, disse o jornalista. Zappa, que biografou o artista, observa que o controle de Flora sobre a vida dele, é diferente do que Paula Lavigne exerce sobre Caetano – com quem já foi casada. “Gil também é uma pessoa zen, mas, é administrador, entende do assunto, só que preferiu delegar à Flora”.

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A jornalista acredita que Gil, assim como Caetano, deve estar constrangido, “Ele é acostumado a abrir tudo na internet”, diz. Ela aposta no silencio dos artistas. “Acho que vão deixar correr, devem estar até arrependidos”. Para Werneck, quem pior saiu da história foi Chico Buarque. “Diferente de seus colegas muito bem assessorados, Chico está muito desguarnecido”.

Figueiredo questionou os dois escritores --citados no debate como "chicólogos"-- sobre reação de Chico Buarque à recente polêmica sobre biografias não autorizadas. O artista integra o grupo Procure Saber, contrário às mudanças na legislação, e se envolveu em uma polêmica ao dizer que não tinha dada uma entrevista ao Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia proibida por Roberto Carlos. “Se Paulo Cesar não tivesse material para comprovar a entrevista teria entrado para a história como um crápula, quem duvidaria de Chico Buarque?", indagou o jornalista.
“Penso que ele vá querer esclarecer esse episódio”, comentou Zappa. Ela contou que enviou um e-mail para o músico defendendo biógrafos brasileiros. "A maioria é séria, não é certo que o justo pague pelo errado. Sempre estaremos sujeitos a uma vizinha fofoqueira, que pode inventar alguma barbaridade que nos prejudique, mas como impedi-la antecipadamente de fazer isso?", questionou. Segundo ela, será preciso atualizar as biografias.

Polêmicas à parte, a jornalista Regina Zappa, defendeu o compositor, que colaborou desde o início com a produção de seus livros "Para seguir minha jornada: Chico Buarque" e "Cancioneiro Chico Buarque". “Depois de conquistar a confiança do biografado, entrevistas passam a ser quase uma sessão de análise, essa é a parte mais bonita de fazer uma biografia", disse. Boa parte do que não conseguiu com Chico, a autora obteve com Marieta Severo, atriz e ex-mulher do músico. Foi ela quem mais desvendou a vida do artista. "Ela falou sobre fases de tormenta que Chico atravessou por não conseguir mais compor, quando achava que a fonte tinha secado, com relatos de noites sem dormir", disse.

Controvérsia sobre autorizações

Sobre a atual controvérsia sobre autorizações, ela diz que nem pensou nisso à época. "Não havia discussão sobre autorização, queria a colaboração dele, e consegui, ele nunca vetou nada". Segundo Zappa, apenas um detalhe o artista fez questão que não entrasse. "Ele me pediu para tirar a informação de que teria ajudado o cantor e compositor maranhense, João do Vale (1934-1996). Ele pagou toda a conta do hospital até a morte do amigo", disse.

Entretanto, detalhes espinhosos que aparecem não receberam reclamações, como o trecho que fala de um rancor dos integrantes do MPB4 em relação a Chico, que era amigo próximo do grupo. A chiadeira seria por ele nunca chamá-los ao programa que teve na TV Globo, com Caetano Veloso. Entretanto, a escritora lembrou que seus livros não são exatamente uma biografia do compositor. "Falo da relação de Chico com o Rio, do diálogo entre as músicas e a cidade".

A escritora acrescentou ainda que a colaboração do artista teve limites. "Ele evita falar sobre amores, desconversa, diz que está tudo na música dele". Ela destacou também que percebeu no músico um ressentimento com a imprensa. "Reclamou de notícias distorcidas e ataques sofridos em alguns períodos". Para ela, Chico oscila períodos de boa relação com farpas sazonais com as redações. "Atribuo essa reação na polêmica das biografias, um pouco a esse histórico", completa.

Pessoa física

Chico Buarque não é tímido, é reservado, afirma o jornalista Humberto Werneck. "Ele me parece um pouco desprotegido, nunca teve roupa de artista, como Caetano Veloso", afirmou. O escritor acredita que faltou ao músico um amigo para orientá-lo no episódio das biografias. "Chico está sempre como pessoa física, ele me contou que, certa vez, no palco sentiu-se tão exposto, que era como se sentisse cada fio de cabelo ficando branco", completou.

Werneck concorda com a colega "chicóloga", Zappa, quanto a alguns limites impostos por Chico. "Percebi isso há décadas em entrevista para a revista Playboy, vi que era aberto, porém nem tanto", disse. O escritor conta que sentiu no artista uma culpa pelo sucesso e que entrou nesse território delicado durante a entrevista. "Estávamos caminhando quando ele parou e disse que não estava gostando da conversa, que parecia sessão de psicanálise, e que se recusava à análise”. Depois de um incomodo silêncio, de acordo com Werneck, Chico voltou a falar, e mencionou a tal rejeição ao sucesso. "Mas cheguei ao limite", observa.

Biografias

Autor da biografia de Chico Buarque, Werneck, falou que há décadas se apaixonou pela a aventura de ser biógrafo. "Uma das coisas mais interessantes que encontrei na vida foram pessoas e suas histórias". Regina Zappa, também fascinada pelo ofício, completa que é preciso se apaixonar por personagens: "Envolvimento com o biografado é fundamental, eu talvez não fizesse biografias sobre pessoas que eu não admiro, mas mesmo que fosse, teria que mergulhar na história", diz. O desafio, segundo ela, é ater-se aos fatos. "É preciso pensar na história sem analisar o que significa, basta contá-la", declara. À tarde o debate sobre a carpintaria de histórias de vida na primeira edição do festival Internacional de Biografias, em Fortaleza, segue com a participação dos escritores, João Máximo, Paulo Cesar de Araújo e Luiz Fernando.

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