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Fernando Morais volta atrás e pode lançar biografias de ACM e José Dirceu

Laurence Bergreen/Divulgação
14.nov.2013 - O escritor Fernando Morais participa de entrevista coletiva durante o Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza Imagem: Laurence Bergreen/Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em Fortaleza (CE)

15/11/2013 14h31

O telefone de Fernando Morais não parou de tocar durante a participação dele no 1º Festival Internacional de Biografias, que acontece em Fortaleza até domingo (17). E o motivo não era o debate do qual ele participaria. A imprensa procurava informações sobre o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, amigo do biógrafo, e que está entre os 25 condenados no processo do mensalão com pena antecipada pelo STF (Supremo Tribunal Federal). "Liguei para ele para saber como estava, e se precisava de alguma coisa", comentou Morais.

Após uma agenda intensa de compromissos, entre ligações, coletiva de imprensa e debate, o escritor de 67 anos falou com a reportagem do UOL. Durante a conversa --regada a charutos cubanos que ele acabou de trazer de uma viagem recente a Havana--, Morais reafirmou a vontade de parar de escrever biografias por causa da legislação brasileira, desfavorável atualmente aos autores, mas admitiu com bom humor que pode não ser bem assim: "Antes de ir vender caju, na Praça Buenos Aires, em São Paulo, talvez ainda escreva as biografias de José Dirceu e António Carlos Magalhães"

UOL - Você vai mesmo parar de escrever ou ainda pode sair mais alguma biografia?
Fernando Morais -
Quero parar, mas tenho uma dívida com o ACM (António Carlos Magalhães) e com sua memória. Enchi o saco do velho durante quase uma década, tenho nove anos de gravações com ele. Nesse período morei dois anos na França, e ele, nessa época, inventava viagens à Europa só para nos encontrarmos e atualizar as conversas. Trabalhamos muito tempo, ele me deu muito material, seu arquivo pessoal inteiro, e digitalizei tudo. Eu estive com ele até o finzinho. Em seus últimos dias fui visita-lo no hospital. Vamos ver...

Você tem vontade de escrever sobre ele?
Sim, é uma história muito boa. Foram 50 anos no poder, do Juscelino até o Lula. Ele só não esteve no poder durante dois anos do Itamar Franco. Em todo o resto ele esteve exercendo o poder pessoalmente, ou como testemunha do poder. Isso em si já seria suficiente para justificar o livro, mas, além disso, tinha as características pessoais dele que eram saborosíssimas. Ele tinha um temperamento explosivo, impulsivo, um pavio curtíssimo. E era um grande administrador púbico, formador de quadro. Basta ver a politica baiana de hoje, uma grande geração de políticos que estão atuantes por lá nasceram da costela dele.

ACM concordou de imediato com a biografia? Tem receio de ter problemas com a família?
Nenhum problema com a família, eles sabem, me viam com o ACM, eu almoçava com eles. Quando eu cheguei com a proposta de escrever a biografia, e disse que ele não leria os originais, ACM me respondeu que iria pensar. Eu já imaginei que o projeto tinha ido para o ralo. Mas, depois de 15 dias, ele me ligou dizendo para começarmos a trabalhar. Então pode ser que eu escreva esse livro.

Você é amigo do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, que pode ser preso a qualquer momento após decisão do STF. Você está em contato com ele? 
Soube da decisão do Supremo hoje de manhã (quarta, 13). Liguei para ele para saber como estava e se precisava de alguma coisa. Ele disse que estava bem e que seus advogados ainda veriam se a decisão do STF já havia sido publicada no Diário Oficial, pois só vale a partir disso. Ainda não sabia se ia se apresentar ou esperar a prisão. Estava pensando em talvez falar em uma entrevista coletiva, mas ele não sabia se teria algo a dizer além do que já disse ao longo do processo. Ele não estava surpreso, e ainda não sabe em qual presídio cumprirá a pena, pois isso é uma decisão que não compete ao STF, mas ao juiz de execuções penais, que leva uma serie de detalhes em consideração, como família e periculosidade. Mas me pareceu sereno e espera cumprir em regime semiaberto.

Recentemente, José Dirceu foi personagem de uma biografia não autorizada, escrita por um editor da revista "Veja". Sabe-se que ele não gostou do resultado. Já falaram sobre esse assunto?
Sim, mas ele tem um atenuante nesse caso das biografias. Ele não moveu uma palha contra o carinha da revista. O autor já erra ao chamar seu livro de 'A Biografia', como se houvesse 'a biografia'. Se você quiser fazer uma biografia da Olga, do Chatô ou do Paulo Coelho, fará outra biografia, porque é o seu olhar. Isso é uma babaquice.

Você tinha um projeto de escrever a biografia de José Dirceu. Pode ser que ainda escreva essa também?
Não sei, mas pode ser. Ficamos amigos no período em que eu o procurei para escrever esse livro. Antes disso não nos conhecíamos, não sabia onde ele morava, ele não sabia onde era minha casa, nossas mulheres não eram amigas, nossos filhos não se frequentavam. Depois viajei com ele, fomos a Cuba juntos, conheci os lugares onde ele foi treinado, onde morou, nasceu. Quando voltamos para o Brasil, estourou o escândalo do mensalão e aí ele não teve mais tempo para continuarmos esse trabalho. Após sua cassação, fui chamado pela Folha de S.Paulo para escrever um artigo sobre ele, que nos aproximou mais ainda. Depois disso, começamos a nos ver com frequência, passamos até um réveillon juntos na casa do Paulo Coelho na França. E eles acabaram ficando amigos também, toda a vez que o Zé ia à Europa eles se encontravam.

Você parece pessimista em relação à decisão do Supremo Tribunal Federal no caso das biografias não autorizadas...
Estou pessimista, mas desconheço antecedentes da relatora da ação no STF, a ministra Carmem Lúcia. Se ele for julgar com justeza deve acatar a ação dos editores. No caso do Zé Dirceu também estava pessimista, sempre achei que seria condenado e preso.

E o que você acha do grupo Procure Saber?
Acho um absurdo sem pé nem cabeça. Minha surpresa foi ver o Chico Buarque entrar nesse rabo de foguete. Parece que estamos numa briga corporativa, por espaço de trabalho, mas não é nada disso. O que está em jogo é o direito da sociedade de se informar. No caso do Djavan, que andou falando que estamos acumulando fortunas em cima de artistas, prefiro pensar que seja ignorância e não falta de caráter. Basta comparar as contas bancárias do Paulo Cesar de Araújo (autor da biografia proibida de Roberto Carlos) com a dos artistas para constatar quem está acumulando fortunas.

Você diz que vai vender caju porque dá mais dinheiro que biografias, mas o que você gostaria de fazer, sem considerar o saldo na conta bancaria?
O que eu gostaria mesmo de fazer é passar o resto da minha vida andando de moto. Sou um viajante. Não sou motoboy, sou motociclista, e de motos grandes. Já tive uma Harley-Davidson e uma BMW, que eu prefiro, tem uma tecnologia infinitamente melhor, já fui para o Chile com ela. Mas como as vacas emagreceram tive que vendê-la. Ainda tenho uma BMW, mas é outra, mais antiga, de colecionador.

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