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"Não faria de novo", diz editor do 1° livro proibido por Roberto Carlos

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

14/11/2013 17h30

Ilustre paladino na luta ao direito à privacidade, Roberto Carlos proibiu em 1997 a comercialização da biografia "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista Paulo César de Araújo; questionou o uso de sua imagem em um trabalho acadêmico, "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann; e processou o escritor Ruy Castro por causa de um perfil sobre sua vida publicado em 1983 na revista "Status". Mas foi um livro escrito em 1979 pelo seu ex-melhor amigo que despertou a ira real pela primeira vez.

"O Rei e Eu", livro de memórias de seu ex-"faz tudo", Nichollas Mariano, prometia vender milhões e revelar um personagem além do cantor romântico que o tornou conhecido e amado. Em sua primeira incursão na justiça, Roberto reuniu advogados, Polícia Federal e oficiais de Justiça e confiscou 70 mil exemplares da obra, fazendo com que a editora Edipan declarasse falência em seguida.

"Se alguém chegasse hoje com este livro querendo publicar, eu não o editaria novamente", afirmou ao UOL o escritor Roberto Goldkorn, dono da extinta editora e espécie de ghost writer de "O Rei e Eu". Hoje, o também psicoterapeuta --que escreve e palestra sobre nomelogia e feng shui-- relembra o momento que viu sua editora de um ano de existência ruir por causa do cantor, sem deixar de fazer uma autocrítica. "Eu não aceitaria colocar um pesinho na balança da mediocridade novamente. Eram informações [sobre o Roberto] que não iria melhorar a vida de ninguém. Foi algo que fizemos para ganhar dinheiro, mas nem sempre os fins justificam os meios. Não censuraria quem viesse a fazer. Para ser bem sincero, talvez eu me arrependa um pouco".

  • Reprodução

    Capa de "O Rei e Eu". Cópias originais podem ser encontradas por até R$ 350 no Mercado Livre

Espécie de mordomo de Roberto Carlos, Nichollas Mariano era DJ da Rádio Carioca quando conheceu Roberto nos anos de 1960 e tornaram-se amigos. Roberto Carlos ainda apoiaria Mariano quando o mesmo lançou o primeiro compacto, na busca de uma carreira na música, mas sem sucesso. Após mais de dez anos de convivência direta com o Rei, uma briga estremeceu a amizade de ambos. Como reação, Mariano transcreveu o que viu e viveu ao lado do cantor.

Goldkorn entrou no projeto, ofereceu sua editora para lançar o livro e trabalhou em cima dos escritos originais. "Era uma calhamaço de 400 páginas, mal escrito. Passei meses organizando, retirando trechos", contou. Em um momento em que os artistas que defendem a autorização prévia para a publicação de biografias são chamados de censores, o editor brinca: "Eu agi como censor, inclusive. Tinha coisas muito chulas [no livro]".

O escritor e editor contou que Mariano era praticamente uma sombra de Roberto. Com confiança total e absoluta por parte do cantor, o mordomo escoltava Roberto quando o astro queria ir ao cinema e servia tanto de babá quanto de agente financeiro. "O Roberto, nessa época, era ingênuo, um garoto. O Mariano cuidava até da triagem das garotas que iam subir no hotel. Mas quando a Nice [Rossi, primeira mulher do cantor] entrou na vida do Roberto, ela obviamente queria ocupar espaço no mundo empresarial, além do casamento. 'Daqui pra frente, não tem mais garotas, eu cuido das roupas...', e o Mariano ficou acuado, tentou recuperar espaço. E aconteceu o conflito".

Na época, o livro era muito aguardado e já se beneficiava, meses antes de seu lançamento, de marketing em rádios e revistas. "Íamos todos os dias à Rádio Globo. Fizemos um concurso para os ouvintes escolherem o título do livro", relembrou o escritor.

Na carta aberta que escreveu a Roberto, e que inicia o livro, Mariano diz: "Desculpe, amigo, se alguma coisa aqui não lhe agrade. Mas acho que fui, além de tudo, sincero e honesto. Para todos que lhe curtem sem lhe conhecer, para aqueles que veneram o ídolo, o semideus intocável, distante e imaterial, projetado pela máquina, esse livro só vai engrandecer a tua imagem tornando-a mais humana, mais palpável, mais próxima. Por que escrevi esse livro? Porque acho que lhe devo isso. Mais do que ninguém, eu sei que você é gente. Recomendações a 'seu' Robertinho; dê um beijo na Dona Laura e no resto da turma".

Goldkorn afirmou que viu Mariano pela última vez há 14 anos. "Ele estava doente e sem dinheiro, depois de ter sido processado diretamente pelo Roberto".


"Ninguém pode mais do que a constituição"

Antes de ter os originais do livro em mãos, Goldkorn fez parte do grupo de editores que entrou com um mandado de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a censura prévia aos livros. Conseguiram. "Colocamos a sentença, com o discernimento do juiz, em um quadro e penduramos na parede. Era uma conquista para o ramo editorial", relembrou.

Neste contexto, com a promoção maciça do livro, um advogado de Roberto Carlos ligou. "Disseram que Roberto não se oporia, mas que gostaria de ler o livro antes de ser publicado. Falei com meu advogado, ele disse: 'Nós acabamos de ganhar essa ação. Nós vamos deixar esse cara passar por cima disso, exercer a censura prévia?'. Eu cheguei a considerar e ele pegou a constituição: 'Ninguém pode mais do que esse livro, esse livro é maior'", contou. "O Rei e Eu" ganharia tiragem inicial de 70 mil exemplares. Nenhum deles foi enviado para Roberto.

No final de 1979, os livros estavam no caminhão para distribuição quando apareceram oficiais de justiça, advogados e a própria polícia com uma ordem judicial. No meio da batalha e do desespero de perder todo o capital investido na editora, Goldkorn obteve uma liminar permitindo que o livro fosse vendido no Rio de Janeiro --a ordem obtida por Roberto, o editor relembra, era restrita a São Paulo.

"Imprimimos mais 15 mil livros, mas, após quatro dias de venda, eles descobriram. Quando eles chegaram à distribuidora, eu estava lá, ingênuo, com meus 29 anos. Eu tinha decidido que ia deitar na frente do caminhão, mas acreditei no advogado do Roberto que me chamou no bar e disse: 'Reconheço a validade da sua ordem, mas está tarde, veja meu lado. Vamos levar os livros, te deixo o endereço, depois você passa lá com sua ordem e retira os exemplares'. Ele deu a palavra, mas o endereço não existia".

A pedido do cantor, o processo correu em segredo de Justiça. "Eu era procurado todos os dias por jornalistas e não podia falar nada. Eu me senti amordaçado. Quando acabou a audiência, o juiz se virou para Roberto: 'Agora que terminamos, não sou mais juiz, posso pedir um autógrafo?'. Um advogado depois me disse que os livros tinham sido queimados".

"Mulheres, mulheres e mulheres"
Questionado muitas vezes sobre a razão pela qual Roberto Carlos se irritou com a biografia "Roberto Carlos em Detalhes", Paulo César de Araújo não titubeia: "Não foi um trecho específico do livro. Roberto tem TOC, quer controlar tudo em torno de si". Mas Goldkorn pondera: "Meu feeling me dizia que aquilo poderia dar merda. Li o livro e conheci um pouco da vida dele. Naquela época, ninguém sabia da prótese na perna". Mariano revela, no livro, que inicialmente não sabia da informação oficialmente. "Aos poucos ele foi se descontraindo em relação a isso e até piada fazia, tanto é que botou o apelido da perneira de 'hidramático'", diz um trecho da obra.

Para todos que lhe curtem sem lhe conhecer, para aqueles que veneram o ídolo, o semideus intocável, distante e imaterial, projetado pela máquina, esse livro só vai engrandecer a tua imagem tornando-a mais humana, mais palpável, mais próxima

Nichollas Mariano, no início de "O Rei e Eu"

Outro motivo que Goldkorn acredita que tenha irritado o cantor foram as amizades expostas no livro e a descrição de um amante insaciado. No livro, esses episódios são contados no capítulo "Mulheres, mulheres & mulheres". "O cara construiu uma imagem de cantor romântico, a coisa do 'esse cara sou eu', e o Mariano o retratou como um tarado sexual, que queria fazer sexo de cinco em cinco minutos. Isso provavelmente deve ter melindrado o Roberto. Tem uma história de que ele ia fazer um show em uma cidade, viu a arrumadeira do hotel e disse: 'Eu quero essa mulher'. Todo mundo falando do Roberto, mulheres querendo ir para a cama com ele e a mulher falou que não queria dar. Ele então disse: 'Se ela não der, eu não vou fazer show'".

Goldkorn contou ainda que foi torturado na época da ditadura e é claro ao defender a liberdade de expressão, mas disse que ainda não tem uma posição clara na questão que será debatida em breve pelo STF sobre a autorização das biografias. "Nunca imaginei que um dia estaria em uma posição dúbia sobre esse assunto. Só sei que tem informações íntimas que não interessam a ninguém".

Roberto Carlos, então, teria agido certo ao proibir a venda de "O Rei e Eu"? O escritor ficou em silêncio por alguns segundos. "É uma boa pergunta. Ele se viu atacado e reagiu com canhões. A gente não tinha como atacar. Trinta anos depois e é difícil dizer o que é o certo ou errado diacronicamente. Podemos ver assim: se o juiz deu razão, então ele estava certo".
 

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